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Enem não reflete nível das escolas


Por Mariana Nicodemus

14/09/2011 às 07h00

Embora o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) não tenha por objetivo oficial a avaliação do sistema educacional e da qualidade das escolas, as notas médias obtidas por instituições do Brasil – como as relativas ao teste de 2010 divulgadas na segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) – acabam servindo de parâmetro para a análise da eficiência do ensino oferecido em colégios públicos e privados. Porém, especialistas alertam que, não sendo a prova obrigatória, os resultados são amostrais e não refletem diretamente o nível da escola, já que desconsideram fatores socioeconômicos e culturais.

Pró-reitor de Graduação da UFJF, Eduardo Magrone lembra que a proposta original do Enem é medir o aproveitamento do aluno no ensino médio e, por isso, o teste não é instrumento formulado para mensurar competências de ensino. Não se pode tomar o Enem como média do sistema. Se todos os alunos de uma determinada escola têm mau desempenho na prova é sinal de que existe algo de errado, mas, quando há equilíbrio entre notas boas e ruins, a pontuação não pode ser utilizada como medida qualitativa. Para o professor, a Prova Brasil e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) – o único que também considera escolas privadas – oferecem diagnóstico mais preciso sobre as instituições. As duas provas são desenvolvidas pelo Inep para avaliar a qualidade do ensino a partir de testes padronizados e questionários socioeconômicos.

A coordenadora do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (Caed) da UFJF, Lina Kátia Mesquita de Oliveira, cita, além da Prova Brasil, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e o Sistema Mineiro de Avaliação da Educação Pública (Simave) como indicativos de qualidade mais pontuais e precisos. Com o movimento de substituição dos vestibulares pelo Enem, a demanda por essa prova cresceu significativamente, então hoje seus resultados não deixam de refletir uma avaliação amostral do ensino médio. Porém, esses outros testes, mais universais, têm o objetivo de avaliar, censitariamente, todos os alunos em determinado período de escolaridade e, por isso, representam descrição mais rica e apurada das escolas, servindo para planejamento e intervenção na rede pública.

Sobre os resultados do Enem 2010, Lina Kátia destaca que o abismo entre o desempenho das redes pública e particular não é surpresa, e que é preciso considerar que as escolas gratuitas que saíram na frente – colégios militares e federais ligados a universidades – selecionam alunos com nível de proficiência adequado à série: Passar daí para o avançado é muito próximo. A educadora ressalta, ainda, que pesquisas apontam que 65% dos fatores associados ao baixo rendimento de estudantes de escolas públicas são extraescolares, ligados, por exemplo, à situação socioeconômica, ao nível de escolaridade dos pais e ao acesso a informação. Porém, 15% desses fatores estão ligados à gestão escolar, e 20%, ao professor e método de ensino. Portanto, em 35% a escola pode fazer a diferença e contribuir para a formação.