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Transexual defende mais respeito à diversidade


Por Eduardo Vanini

13/11/2011 às 06h00

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 Mesmo não se considerando ativista, o transexual João Nery, 61 anos, tem corrido mesas de debate sobre diversidade sexual por todo o Brasil. Ele, que representa um dos primeiros casos de mudança do sexo feminino para o masculino no país, lançou, recentemente, o livro "Viagem solitária – memórias de um transexual 30 anos depois", em que narra sua trajetória, desde quando ainda era uma criança com medo de acordar "mocinha". João esteve em Juiz de Fora para participar da II Semana da Diversidade Sexual, encerrada sexta-feira, na UFJF, e falou à Tribuna sobre suas experiências e visões acerca das discussões de gênero. Mais de três décadas após a cirurgia, ele não tem dúvidas de que sua vida "seria um inferno" sem as alterações no corpo.

 "Desde que me entendo por gente, aos 4 anos, me sentia diferente. Sentia-me menino. Só que não tinha como me expressar. Quando me tratavam por ‘ela’, corrigia o termo mentalmente." Mas esse era o menor dos problemas de aceitação, já que o sofrimento com o bullying seria inevitável e o levaria ao isolamento. "As pessoas me chamavam de ‘maria homem’ na pracinha", recorda. Com o passar dos anos, a dimensão dos traumas aumentava, e quando alguém lhe disse que, aos 12, "viraria mocinha", ele passou a temer a idade. "No dia do meu aniversário, não queria acordar." Aos 14, chegou a temida "mosntruação" – como ele classifica a primeira menstruação -, acompanhada pelo crescimento dos seios. "Cada vez tinha que exercer mais o meu papel de mulher, o que, na minha cabeça, não tinha nada a ver com o meu corpo."

  

Transexualismo 

A grande mudança aconteceu quando, aos 26 anos, João se mudou para Europa e teve o primeiro contato com o termo transexualismo. "Foi um grande alívio, porque consegui, mais ou menos, me enquadrar em alguma coisa." A opção pelo processo cirúrgico foi imediata. João voltou ao Brasil e, em plena ditadura militar, passou por duas intervenções: retirou as mamas e os órgãos reprodutores internos. A etapa seguinte seria o implante de uma prótese peniana ou um corte no clitóris, que faria com que essa parte do sexo assumisse a função de genitália masculina. Entretanto, devido à complexidade dos procedimentos, que ainda hoje são considerados experimentais, João preferiu não dar continuidade ao processo.

O passo seguinte foi o registro de sua identidade masculina, que trouxe uma dolorosa realidade: toda a documentação feita enquanto mulher, incluindo o diploma em psicologia, seria perdida. "Foi o preço que tive que pagar para ter um corpo mais ou menos parecido com o que está na minha cabeça. Fiz dois supletivos para tirar o certificado da educação básica, e aí trabalhei como pedreiro, pintor de parede, vendedor, construtor de carro e massagista." 

 

Casamentos 

De lá para cá, João passou por quatro casamentos, de um dos quais saiu o filho não biológico, hoje com 24 anos. Na época, sua companheira engravidou, e eles assumiram juntos a criação. "Ele é uma gracinha de pessoa. Acho que consegui criá-lo muito bem." A transexualidade do pai não foi problema para a relação entre os dois. "Ele é hétero e extremamente compreensivo e tolerante com a diversidade. Na minha noite de autógrafos, ele estava lá, conversando com todos os transexuais da fila."

 

Luta LGBT é por direitos civis iguais 

O esclarecimento acerca da sexualidade é uma das bandeiras de João Nery. Nesse sentido, uma de suas lutas é pelo entendimento de que transexualismo e o travestismo não são doenças, por mais que ainda sejam considerados transtornos de identidade. Por conta dessa interpretação, "antes de passar pelo processo de mudança de sexo, as pessoas têm que se submeter a uma série de exames, por cerca de dois anos, com psicólogos e assistentes sociais, que têm a pretensão de saber o que é transexualismo."

 Para João, a maior luta do movimento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) é pelos direitos civis como um todo. "Somos pessoas, antes de qualquer visualização sexual." Como consequências negativas da visão equivocada da sociedade em relação a essa minoria, ele cita o exemplo dos travestis, que não conseguem emprego, tendo como única alternativa, muitas vezes, a atuação como cabeleireiros ou a prostituição. "E a sociedade vê isso. Mas sabe o que ela faz? Mata." De acordo com João, um homossexual é morto a cada dois dias no Brasil e, ainda assim, as leis que criminalizam a homofobia ainda não foram aprovadas. 

Para que essa realidade seja mudada, João acredita que o problema deva ser combatido na base, sendo debatido desde a infância, para que as crianças possam respeitar as diferenças e lutar contra o preconceito. "Isso é primordial para que a gente tenha uma geração com a cabeça mais aberta. É a juventude que tem que ser trabalhada, sobretudo."