Mais de onze agressões a docente por mês
Desde fevereiro deste ano, 104 professores sofreram algum tipo de agressão nas escolas mineiras, o que corresponde à média de 11,5 situações de violência contra docentes a cada mês. O número foi contabilizado pelo Sindicato dos Professores de Minas Gerais (Sinpro/MG), a partir do serviço de disque-denúncia (0800 770 3035), que entrou em operação no começo do ano. Quarenta e seis queixas são de profissionais de escolas particulares e 58 partem de trabalhadores que atuam em instituições municipais, estaduais ou federais. Embora não haja registros de Juiz de Fora entre os contabilizados pelo disque-denúncia do Sinpro, a Tribuna ouviu especialistas e professores da cidade e apurou que, mesmo que em menor escala, problemas do tipo também fazem parte da rotina do ambiente escolar local.
Uma professora com mais de 20 anos de experiência nas redes pública e privada da cidade destaca que os casos ocorrem independentemente do tipo de instituição. Na opinião dela, embora não seja regra, as situações envolvendo as escolas particulares costumam não vir a público.
Pancada na cabeça
Na rede pública, relatos de agressão contra professores também chamam a atenção. A vice-diretora da Escola Municipal Álvaro Lins, Cecília Calixto, é uma das vítimas. Em um sábado de maio do ano passado, ela fazia os últimos ajustes para uma festa da família na escola, no Bairro São Judas Tadeu, Zona Norte. Um rapaz a abordou dizendo que a companheira dele a aguardava do lado de fora da instituição. Ao saber que se tratava da mãe de uma aluna de 9 anos, Cecília pediu que ela entrasse, alegando que questões relativas à escola deveriam ser resolvidas dentro do local. Logo depois, a vice-diretora foi surpreendida com uma pancada na cabeça. "Virei para ver o que havia acontecido, achando que alguém pudesse estar movimentando uma carteira e me atingido sem querer. Mas acabei levando outro golpe." Era a mãe da criança que a agredia com um pedaço de pau, dizendo que sua filha havia sido insultada por Cecília.
Qualificação para habilidade emocional
A psicóloga Déborah Corrêa tem na questão da violência escolar seu campo de pesquisa. Ela é mestranda da UFMG e, antes de qualquer consideração, pontua que o problema é multideterminado, estando atrelado a fatores como drogas, entorno violento e, até mesmo, situações em que a própria instituição possui uma realidade instável. Déborah destaca o fato de muitas crianças chegarem às salas de aula sem noção de autoridade, por conta da educação que recebem em casa. A situação estaria acontecendo com frequência cada vez maior, já que "a sociedade está mais complexa e o papel da família não é o mesmo de tempos atrás. Muitos pais não sabem o que fazer e acabam repassando responsabilidades para os colégios."
A psicóloga frisa, porém, que não adianta entrar na discussão se essa transferência de responsabilidade é justa, visto que este debate dificilmente solucionaria o impasse. "É preciso um diálogo com as famílias." A psicóloga defende que parte do quadro atual pode ser resolvido no âmbito da própria escola, desde que os educadores estejam devidamente amparados para lidar com as novas questões. "Quando pensamos em qualificação do professor, não devemos levar em consideração apenas o conteúdo de ensino, mas todo um preparo para que possam lidar com habilidades sociais e emocionais dos alunos."
Curso nas escolas
Experiências no âmbito municipal, relatadas pela coordenadora da ONG Pró-Juventude, Cláudia Maciel, dialogam com o discurso de Déborah. Entre fevereiro de 2010 e julho deste ano, a entidade promoveu o Curso de Técnicas de Prevenção e Intervenção em Conflitos, que capacitou 250 professores da rede municipal. "Nem sempre a agressão demonstrada pelo aluno está ligada ao momento em que veio à tona, podendo ser o desdobramento de uma série de questões. Buscamos desenvolver o olhar do professor para isso." A proposta é treinar os docentes para que possam estabelecer diálogos com os estudantes, canalizando a energia deles para atitudes positivas.
Ao final do curso, conforme Cláudia, cerca de 72% dos professores classificaram a experiência como relevante e quase 60% disseram ter aumentado as intervenções verbais, em detrimento de punições. A eficácia ficou comprovada pelo fato de 54% dos participantes terem relatado redução nos casos de agressão, a partir dessa mudança de postura. Por hora, o projeto está parado, devendo ser retomado no ano que vem.
Mobilização
Na Escola Municipal Henrique José de Souza, na Cidade do Sol, Zona Norte, diante da constatação de que os índices de violência são crescentes no bairro, a direção convocou uma reunião. Cerca de 80 pais se encontraram no pátio do colégio e discutiram estratégias de prevenção. No mês passado, um ex-aluno, 15 anos, foi esfaqueado por um estudante da unidade, da mesma idade, a poucos metros do local. "A gente sabe que as cidades brasileiras estão vivendo esse estado de violência, que acaba chegando às escolas. Então, resolvemos discutir meios de prevenir a violência, ouvindo representantes de entidades como Polícia Militar, igrejas e Sindicato dos Professores", explica a diretora Rita de Cássia Barbosa.
Registros são subnotificados
Os números apurados pelo Sinpro estadual incluem ocorrências de ameaça, intimidações, agressões verbais ou físicas e assédio moral. Mas, para o presidente da entidade, Gilson Reis, os números não refletem a realidade, já que muitos docentes temem formalizar denúncias. Na avaliação dele, além do medo de represálias, os profissionais da rede privada, são prejudicados pela relação mercantil com as instituições. Ele acrescenta, que o número de casos de agressão é crescente, embora haja uma negação por parte da rede privada.
Para Gilson, as discussões acerca do tema ainda não tomaram a direção certa. O sindicalista avalia que os debates precisam ir além de medidas paliativas, como instalação de câmeras e detectores de metais. "É preciso debater a raiz do problema. Verificar o que leva os alunos a essa prática." Para isso, ele entende que a abordagem deve ganhar um tom mais democrático, com pais, alunos e profissionais da escola dialogando e buscando soluções. E essa medida deve ser apoiada por profissionais como pedagogos e psicólogos.
Casos isolados
Na sede local do Sinpro, a informação é de que nenhum caso de agressão foi registrado este ano. A coordenadora geral da entidade, Aparecida de Oliveira, elogiou a iniciativa do disque-denúncia, embora avalie que, em Juiz de Fora, os problemas podem ser tratados diretamente com o sindicato. "Estamos muito próximos à categoria." Para ela, é inegável a presença da violência nas unidades de ensino, visto que o problema afeta a sociedade como um todo. No entanto, a sindicalista frisa que na cidade "não há uma situação preocupante. O que ocorre são casos isolados."
Problema social
Para a diretora de planejamento, administração e finanças do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino da Região Sudeste de Minas Gerais (Sinepe/Sudeste), Ana Gilda Dianin, a questão da violência nas escolas "transcende a dicotomia público versus privado". Em uma avaliação geral, ela classifica as manifestações vivenciadas atualmente como algo típico das sociedades urbanas contemporâneas. Dessa forma, seria consequência de um conjunto de fatores, que passa pela concentração de bolsões de pobreza, má distribuição de renda, conflitos familiares e presença fraca do Estado em determinadas localidades. "Veja, porém, que a violência nas escolas não é propriedade de países pobres, pois, os Estados Unidos e França – só para citar dois – apresentam índices preocupantes neste quesito."








