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Quando a espera chega ao fim


Por Pablo Cordeiro

13/07/2012 às 07h00

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Cento e noventa e cinco pessoas aguardam por um transplante de rim ou córnea na Zona da Mata. A fila não se compara à do estado, na qual 2.476 pessoas anseiam por um fio de esperança. Com o intuito de diminuir a espera, dez unidades de Organizações de Procura de Órgãos e Tecidos (OPOs) serão implementadas em âmbito estadual para auxiliar diretamente o Complexo MG Transplantes a captar possíveis doadores. Uma dessas frentes irá atuar em Juiz de Fora. A expectativa é de que essa iniciativa influencie diretamente no número de doações e transplantes no município, que, nos dois últimos anos, apresentou redução (ver quadro). Segundo dados da instituição, este ano, foram doados oito rins e 59 córneas. A quantidade de transplantes realizadas em 2012 não foi informada. Na região, cerca de 30 pessoas aguardam por uma córnea e outras 165, por um rim.

Mesmo sem prazo ou local definido para a instalação do serviço no município, o coordenador da Regional Zona da Mata do MG Transplantes, Joseph Frederic Whitaker, tem boas expectativas acerca do projeto. Ele explicou que uma OPO é formada por um grupo de profissionais da saúde, como médicos e enfermeiros, que atua nos setores emergenciais dos hospitais, agilizando a logística de captação de órgãos. "Em São Paulo, por exemplo, uma OPO tem dez médicos, psicólogos e enfermeiros. Em Juiz de Fora, a estrutura seria menor, com dois médicos e quatro enfermeiros atuando na Santa Casa e no HPS."

Atualmente, atua na cidade uma Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgão e Tecido para Transplante, que exerce a função da captação de doadores, fazendo interlocução com o MG Transplantes, que é classificado como uma Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos. O MG Transplantes integra a rede da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), e a regional Zona da Mata é localizada no prédio anexo à Santa Casa, na Avenida Rio Branco 3.535, Alto dos Passos.

O médico Joseph Frederic Whitaker explica que hoje, para a pessoa ser enquadrada na doação de órgãos, ela deve apenas informar o desejo a um membro da família, que manifesta sua vontade no momento do óbito. Nesse caso, a comissão intra-hospitalar entra em contato com com o MG Transplantes para iniciar o processo, que deve ser executado em até seis horas após a morte. Também existem as doações que podem ser feitas em vida.

Em relação ao medo que algumas pessoas têm de realizar a doação para transplante entre vivos, o médico esclarece que, nesses casos, o paciente é investigado justamente com o intuito de evitar problemas de saúde futuros. O cadastro na fila de espera somente é possível por meio do hospital, com acompanhamento e análise médica, a fim de averiguar a real necessidade do procedimento.

 

De irmão para irmão

A enfermeira Maria da Consolação Magalhães, 54 anos, doou um rim ao irmão, o auditor fiscal da Receita Estadual, Manoel José, 50, em setembro de 2011. Seu outro irmão, também auditor fiscal, Marcos, 47, havia feito uma doação para o quarto irmão, o empresário Mateus, 52, quatro anos antes. As doações foram necessárias devido a uma doença hereditária que, segundo Manoel, afeta familiares na proporção de 50%. Manoel se emociona com o "presente" recebido da irmã: "Sempre tem o medo e o risco de não dar certo. Mas o pensamento positivo sempre esteve conosco." E ele brinca: "Ainda bem que somos quatro." Segundo ele, na época da cirurgia estava com a qualidade de vida comprometida, tendo que fazer constante controle de pressão e dietas rigorosas. "Hoje é normal. Sem qualquer restrição. Apenas não posso praticar esportes de contato físico." Para Consolação e Marcos, que foram os doadores, a vida segue como antes, menos pelo constante e gratificante sentimento de ter ajudado os irmãos.

 

Iniciativa

"Vi uma propaganda e tive a iniciativa e a coragem para doar." Assim o consultor financeiro Rafael Resende Santiago, 29, definiu sua atitude de fazer o cadastro para ser doador de medula óssea. A coleta de 5ml a 10 ml de sangue é realizada no Hemominas e, após o teste genético, a amostra e os dados do doador são enviados para o Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome), sistema informatizado do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Para cada amostra, a compatibilidade é de um para cem mil.

Rafael foi convocado para a doação em fevereiro de 2011, e a operação foi feita em São Paulo, para um paciente desconhecido. Ele diz que o processo é complicado, mas deixa claro que, em momento algum, pensou em desistir. "Fui para BH com minha mãe, e a doação não deu certo. Depois fui para São Paulo. Há quatro meses, fui ao Rio fazer outra coleta." Além desses procedimentos, ele conta que teve que tomar remédios, injeções e ficar 15 dias sem ingerir bebidas alcoólicas. "Se a pessoa não se compromete com a causa, é uma vida que está sendo colocada em risco. Me senti com o dever cumprido em ter salvado uma vida." O transporte, a hospedagem e a alimentação são custeados pelo Inca.

Em Juiz de Fora e região, conforme explica uma das integrantes da equipe de capacitação de doadores de sangue e medula óssea do Hemominas, Rosane Martins, existem mais de 32 mil cadastrados no Redome. Segundo ela, a taxa de candidatos diminui nos períodos de frio, mas garante que esse é um número bom. "Para a medula, são menos exigências. A pessoa não pode ter doença transmissível pelo sangue, como hepatite B e C, ou anemias severas", exemplifica.