Meninas se organizam pela internet e lideram gangues rivais

A intolerância entre jovens que acabou em mais um assassinato de um garoto, de 14 anos, esta semana, não envolve só os meninos. Agora as garotas também se organizam e lideram grupos, estimuladas pela rivalidade existente entre os bairros. A necessidade de agrupamento e autoafirmação e o fascínio pelo "poder" é flagrante na internet, onde elas usam a criatividade para dar nome aos seus bondes: Balzak, Branelly, Bottinelli, Boffynelli, Iberallinys, Marquezzine, Malkovic, Yancowich, Rontinelly, Staliibecks, entre outros. Os sobrenomes são escolhidos e integrados aos prenomes. Alines, Thayanes, Thaíses, Brunas, Isabelas se transformam em uma única pessoa com a adoção dos sobrenomes. Nas redes sociais, as meninas demonstram poder, posam de forma provocante e, o mais grave, admiram e incitam a violência. Elas se denominam bandidas chiques, bandidas de luxo e se oferecem aos garotos dos bondes, além de instigarem outras turmas. Enquanto os meninos usam o You Tube, a comunidade de vídeos on-line mais popular do mundo, para mostrar seus armamentos, ofender os rivais e confessar crimes, elas utilizam o Orkut para fazer provocações a outras garotas: "O recalque (…) a gente tira na porrada." O resultado: mais violência. Em qualquer lugar em que se encontrem, o confronto está anunciado.
Nas páginas do Orkut, são comuns recados do tipo: "recalkado podi fazer biquinho pq noii esculaxa mesmo, nois e o poder ta ligado. Se tentar com um, tem ki tentar com o bonde todo, intão nun tenta ñ, alemão safado, pq nois nun ta fraco, a união aki é forte" ou ainda "os anjinhos do bem com planos malignos, as meninas do bem que praticam o mal".
Nas fotos, elas posam ao lado dos meninos das gangues e se vangloriam de ver os amigos ou paqueras em reportagens sobre a violência. Em um dos vídeos produzidos pelos garotos do Ipiranga, Zona Sul, a capa da Tribuna que traz o desfile da Banda Daki de 2009 é segurada por uma jovem que tem a inscrição ADA (Amigos dos Amigos) pintada nas unhas. Na matéria, a informação é de que uma jovem de 18 anos foi golpeada nas costas com faca ou vidro.
Conflitos levados para escolas
Além dos eventos públicos, as escolas servem de pano de fundo para o enfrentamento dos grupos. No mês passado, uma briga entre garotas na saída de um colégio público do Centro chamou a atenção de comerciantes do entorno. "Neste dia, acho que brigaram por conta de um menino, mas acontece briga por qualquer motivo. Se uma do grupo não gosta de uma menina de outra ‘família’, todas tomam as dores. Começam a implicar e, se as outras são de briga, pronto", contou uma estudante, 15. Em agosto, duas garotas, de 15 e 16, se confrontaram na porta de outra escola pública, no São Benedito. Um professor, 37, sofreu ferimento no braço ao tentar apartar a briga. Já a menina de 15 teve escoriações no pé e no braço. A outra envolvida sofreu ferimento na mão.
Em junho, uma estudante, 15, teve o pulmão perfurado após ser atacada pelas costas com quatro golpes de faca desferidos por outra adolescente,17, a poucos metros de uma escola em Benfica, Zona Norte. A vítima e uma amiga, 16, seguiam para a aula, quando encontraram com a suposta infratora, com a qual já teriam desavenças. Conforme a PM, as três teriam se envolvido em uma briga, e a menina sacou uma faca da mochila, desferindo os golpes. A estudante foi golpeada até a lâmina da faca, de 15cm, se partir. A infratora foi acautelada no Centro de Reeducação Social São Jerônimo, em Belo Horizonte.
A rotina de violência dessas meninas transforma a vida das famílias. "Não sei mais o que fazer. Estamos tentando de tudo, pois ela só tem 14 anos. Outro dia fiquei desesperada em ver o que achei no computador dela. Músicas com letras de violência, com nomes de meninos de bairros da cidade, uns incitando os outros. E elas admiram isso, admiram quem tem poder no bairro. Tenho medo de onde isso irá parar", desabafou uma autônoma, 31 anos.
Sociedade amedrontada
Entre os rapazes, a violência já tomou proporções que amedrontam a sociedade e mobilizam as autoridades de segurança. De agosto do ano passado ao início deste mês, pelo menos 28 adolescentes e jovens saíram feridos ou perderam a vida nos enfrentamentos (ver quadro). Em cinco bairros onde a Tribuna ouviu meninos e meninas, a constatação foi a mesma: qualquer situação é motivo para brigas. Ciúmes, discussões em bailes, furtos de bonés, sentimento de posse sobre as meninas(os) do grupo, controle do território onde moram e demonstração de força foram as explicações. Medo é palavra inexistente no vocabulário da maioria. "Agora é tudo na faca ou no tiro. Começaram matando um daqui. Fomos lá (no Jardim Natal) e revidamos. Tentaram outro aqui, mas não conseguiram," contou um morador do Jóquei I, 14 anos.
A rivalidade entre os dois bairros da Zona Norte ficou mais acentuada em 2007, quando um morador do Jóquei, 18 anos, foi morto a pedradas por meninos do Jardim Natal. Em junho passado, um jovem de 17, do Jardim Natal, foi assassinado com três tiros, na porta de casa. O suspeito é irmão da vítima morta em 2007, e está no Ceresp. Mesmo assim, os conflitos não tiveram fim.
A mãe do jovem morto em junho está sendo ameaçada de morte desde o fato. "Não saio mais de casa à noite. Tive que tirar meu filho de 14 anos do colégio, pois também estava sendo ameaçado. Minha vida parou", contou a diarista, encostada desde o episódio após perder o movimento de parte da mão direita, ao ser atingida por um disparo.
Vídeos
As mortes e as armas são ostentadas pelos garotos na net. Os responsáveis pelo assassinato do jovem do Jardim Natal enviaram um vídeo à família, expondo a vítima como troféu e dizendo: "Pintou com a gente (sic), morreu."
O hábito de confessar os crimes na rede foi revelado pela Tribuna em matéria no ano passado. Porém, sem delegacia especializada em crimes na internet, os grupos continuam a desafiar as autoridades, já que, nos vídeos, além de aparecerem armados, fazem apologia a facções criminosas e a drogas. Em outro vídeo encontrado no You Tube, denominado "Jóquei caça aos natalinos", seis jovens aparecem portando diferentes armas de fogo. Em uma montagem que teria sido feita por moradores do Milho Branco, conhecidos B.O.X do Pipoca, os garotos aparecem armados e fazendo referências ao Comando Vermelho. Em uma imagem, miram as armas na direção do Jardim Natal.
As cenas se repetem em vídeos produzidos por meninos de outros bairros.
Forma de expressão
Professor da UFJF e integrante do Grupo Epos, do Instituto de Medicina Social da Uerj, entidade que estuda juventude e violência, Wedencley Alves, diz que, para entender as atitudes dos jovens, é preciso pensar em dimensões mais amplas. "Quais são as maiores vítimas do trânsito? Quem são os maiores consumidores de drogas ou grupos ligados à comercialização das drogas? Os jovens. A ligação é íntima entre juventude e violência e transcende grupos e classes sociais. Para entender isso, é necessário primeiro deixar um pouco do regionalismo. Isso não é um fenômeno brasileiro, de Juiz de Fora, mas sim global: a juventude tem se definido pela violência. É um fenômeno da contemporaneidade. Basta ver a violência no trânsito, as brigas de torcidas, o bullying nas escolas. São modos distintos da mesma manifestação."
Para o especialista, outra questão é achar respostas sobre o por quê de o jovem recorrer à violência. "Possivelmente se expressam pela violência porque não têm outros canais. Não há diálogo. Esses jovens são reprimidos. Nunca são perguntados sobre o que querem. Despossuídos de outras instâncias de poder, os bondes, as gangues, as "famílias" são os meios de os jovens conseguirem esse poder."
Autoridades
No início do ano, as forças de segurança pública se reuniram para propor ações mais rígidas. O Grupo de Operações Escolar (GOE) da PM foi reativado, mas não pôs fim aos confrontos. Para o promotor da Infância e Juventude, Antônio Aurélio Santos, "faltam investimentos em políticas públicas de integração e amparo a esses jovens".
O promotor também cita a demora para recebimento dos autos pela Polícia Civil. "Tem situação em que somos informados quase um ano após o acontecido. Temos esperança que o Centro Integrado de Atendimento saia ainda este ano para agilizar as providências. Muito do que tem sido feito, e nós temos respaldado essa ação, tem partido da PM. Com informações de quem são esses meninos, eles têm representado pedindo acautelamento e a busca e apreensão. Isso tem redundado em apreensão de armas, drogas e adolescentes."
O comando da Polícia Civil em Juiz de Fora não quis se pronunciar sobre o assunto. Já o assessor de comunicação do 27º Batalhão da PM, capitão Paulo Alex Moreira, garante que a corporação tem tentado atuar. "Buscamos as informações sobre os jovens e mapeado as regiões. As situações também são acompanhadas de perto pelas companhias. Além disso, os boletins de ocorrência têm sido encaminhados à Polícia Civil para o prosseguimento da investigação criminal."








