Pacientes peregrinam por atendimento

A desassistência em Juiz de Fora provoca a peregrinação de pacientes pelas unidades de saúde. A demora para conseguir atendimento nas unidades de atenção primária (Uaps) – que nem sempre estão equipadas com profissionais, medicamentos e insumos – leva quem precisa de avaliação médica às unidades de pronto atendimento (UPAs) e regionais, mesmo que os casos não sejam graves, sobrecarregando o sistema e superlotando os espaços voltados, prioritariamente, para urgência e emergência. Como quem sente dor e desconforto provocado por problemas de saúde não costuma poder esperar, usuários do SUS percorrem a rede em busca de quem possa, com mais agilidade, minimizar os sintomas. Mas as falhas não ocorrem apenas na atenção primária e na rede de urgência. No setor secundário, a demora para realização de consultas especializadas, cirurgias e exames também complica o quadro da saúde, que começa a ser apresentado hoje, na primeira matéria da série "Saúde em raio X".
Um problema apontado pela população e confirmado pelo Sindicato dos Médicos é a falta de profissionais. No Hospital de Pronto Socorro (HPS), por exemplo, pelo menos durante dois dias da semana não existe traumatologista. Conforme um funcionário que preferiu não se identificar, isso ocorre há um mês e quem chega com traumas após um acidente, por exemplo, às sextas-feiras ou aos domingos, não tem como ser assistido. Na semana passada, a moradora do Centro Cíntia Almeida Silva, 34 anos, esteve por diversas vezes no HPS para tentar que a filha fosse atendida. "Suspeitamos que ela esteja com o pulso aberto, mas não tinha médico para avaliá-la em todas as vezes que fui. Em uma ocasião disseram que o ortopedista só dava conta de atender quem chegava de ambulância e recomendaram que eu fosse para a UPA de Benfica, o que é um absurdo."
Na Regional Leste, também há reclamações constantes por falta de médico. Na última semana, Heloiza Fagundes, 35 anos, chegou na Uaps do Vila Ideal após às 7h e não conseguiu receber a senha de atendimento. "Sei que o certo é chegar antes, mas não consegui e perdi a chance de fazer a ficha. Resolvi tentar na Regional Leste, mas me falaram que por causa da falta de médico, só seria atendida depois das 19h, porque antes disso só teria atendimento para quem estivesse muito grave." Heloiza mostra a ficha que comprova que ela chegou à unidade às 10h e somente às 11h14 passou pela triagem e recebeu essa informação. Sem alternativas, ela foi com a filha até a UPA de Santa Luzia, onde permaneceu, sem almoçar, aguardando pelo menos até 16h. "Estou sentindo tontura há muitos dias e não sei o que faço", queixa-se Heloiza. Também na regional, o chaveiro Alexandre de Faria, 37, chegou com suspeita de dengue na última quinta-feira e teve que esperar por cinco horas até ser atendido.
Na UPA de Santa Luzia, a questão é o excesso de pacientes e a demora. Na tarde do último dia 2, mais de 50 pessoas aguardavam na sala de espera da unidade. Moradora da Vila Olavo Costa, a doméstica Marta Gonçalves, 45, acompanhava a sobrinha e deveria recorrer à Uaps do bairro ou à Regional Leste, que são referências para a região onde vivem, mas, com a dificuldade de acesso a essas unidades, também buscou solução na UPA. "Na Olavo Costa só atendem com agendamento e, normalmente, a consulta é marcada para três dias depois, então, não tem condição. Quem está vomitando e com dor de cabeça, como a minha sobrinha está, pode esperar três dias?", questiona. "Não tem médicos nos postos, então a gente vem para cá", simplifica a dona de casa Norma Aparecida Ribeiro, 47, que acompanhava o marido com dor nas costas na UPA.
O problema da desassistência nas Uaps aparece em várias regiões da cidade. Na do Monte Castelo estaria havendo sobrecarga, por falta de cobertura nas regiões do Parque das Águas e do Jardim Cachoeira. Já na unidade do Teixeiras, pacientes se queixam da carência de profissionais e dizem que, mesmo chegando de madrugada, ficam sem atendimento e são orientados a procurarem as UPAs.
Número de especialistas reduzido a um terço
A cidade vive uma crise assistencial na avaliação do presidente do Sindicato dos Médicos, Gilson Salomão. Para exemplificar o que diz, o representante da categoria cita o setor de clínicas especializadas do PAM Marechal, que, de acordo com ele, teve redução de dois terços no número de médicos em aproximadamente cinco anos. "Tínhamos 240 especialistas e hoje são 80, sendo que vários desses profissionais estão no final de carreira."
As aposentadorias, segundo Gilson, são um agravante. A opinião é compartilhada pelo especialista em saúde coletiva e gestão pública Ivan Chebli. "A atenção secundária vive este problema. Antes, esses servidores eram vinculados ao estado e ao Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social). Com a municipalização, eles estão chegando no período de se aposentar, sem que tenha ocorrido um preparo para isso, já que esses quadros não foram preenchidos. Se não há capacidade financeira nem para realizar as contratações necessárias da atenção básica, como contratar especialistas? Esse é um dilema para o gestor."
Levantamento da Ouvidoria Municipal de Saúde mostra que as principais demandas recebidas são justamente no setor de especialidades e de exames. Nos meses de janeiro e fevereiro, houve 157 pedidos de agilização de consultas no órgão, sendo que a maioria é referente à ortopedia, cardiologia, endocrinologia e angiologia. Em relação aos exames, os de sangue e as ressonâncias lideram a lista. Conforme a ouvidora Edna Aparecida Rodrigues, a estimativa é que a demanda reprimida por consultas seja de 30 mil neste início de ano, sendo que a ortopedia responde por quase 20% da necessidade. Ela atribui esses fatores, principalmente, à falta de profissionais e de plano de carreira para a saúde, mas diz estar confiante. "Temos conseguido solucionar algumas demandas apresentadas à Secretaria de Saúde."
O aposentado Délcio Alves, 52 anos, conseguiu fazer uma radiografia de coluna em novembro do ano passado, mas ela só foi entregue no último dia 22 de fevereiro. "A chapa está comigo para mostrar ao ortopedista desde então. Tenho desvio de coluna e ainda não sei qual o resultado desse exame, porque a consulta de retorno demora para ser marcada. Há mais de um mês aguardo para saber quando vão conseguir marcar. Sinto dor e tenho que fazer fisioterapia, mas como ainda não fui à consulta, não tenho o encaminhamento. A demora interrompe o tratamento."
Paciente oncológico, um aposentado de 59 anos preferiu pagar para realizar exames do que esperar pela rede pública e comprometer o andamento do tratamento. Ele está na fase do controle de um tumor de orofaringe, descoberto em 2011. O acompanhamento, com realização de tomografia de cabeça e pescoço deveria ser feito a cada três meses, mas apesar de o exame ter sido solicitado pela médica em 25 de outubro de 2012, sendo a consulta de retorno marcada para 25 de janeiro, até as vésperas da avaliação médica o exame não havia sido marcado. Cansado de esperar e preocupado com a possibilidade de reincidência do tumor, o aposentado teve que pagar R$ 490 (cerca de 50% do valor praticado) para fazer a tomografia em um prestador particular. Apenas em março – quando já havia realizado os procedimentos há dois meses – recebeu a ligação informando que o exame seria marcado. A demora preocupa a família do paciente, não só devido aos altos custos dos exames, mas, principalmente, porque são procedimentos necessários ao acompanhamento do caso.
Negociação
O secretário de Saúde, José Laerte Barbosa, confirma os entraves no setor secundário e diz que uma das principais dificuldades é encontrar especialistas em algumas áreas, como a ortopedia. O secretário explica que a Prefeitura iniciou os trabalhos de negociação salarial e do plano de carreira com o Sindicato dos Médicos e acredita que se chegará a um acordo. "Na urgência e emergência e na atenção primária posso dizer que a remuneração inicial já melhorou muito, mas realmente há uma defasagem nos salários dos médicos da atenção secundária e estamos tentando alterar isso." Em relação à demora na realização de exames como ressonâncias e tomografias – que são caros e têm alta demanda, José Laerte aposta na implantação de protocolos clínicos de acesso para organizar os pedidos, que "passarão as ser feitos nos casos realmente necessários". Segundo ele, por causa do alto índice de exames realizados por solicitação do INSS para conferir afastamento do trabalho, a rede acaba sendo sobrecarregada, o que prejudica quem está em meio ao tratamento.
Secretário confirma falta de profissionais
Na avaliação do especialista em saúde coletiva e gestão pública Ivan Chebli a dificuldade de acesso à atenção básica leva ao serviço de urgência, já que as Uaps não estão disponíveis em toda a cidade e nem ficam abertas o dia todo. "A maioria dos atendimentos das UPAs, conforme o Protocolo de Manchester – que classifica o risco em uma escala que vai do azul (procedimento sem urgência) ao vermelho (que requer atendimento imediato) -, enquadra-se nas cores azul e verde, que na verdade não são casos urgentes e, portanto, nem deveriam estar nessas unidades. A prioridade em uma UPA é algo grave e urgente. Mas, para que isso funcione, é preciso qualificar a atenção básica."
O secretário de Saúde, José Laerte, concorda com a avaliação e diz que o problema mais sério na atenção primária, que também é responsável pela peregrinação dos pacientes, é a falta de alguns profissionais. "Assumimos com 27 equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF) incompletas e precisamos resolver isso. Foi concluído um concurso de médicos para a Saúde da Família, com 53 aprovados, que começarão a ser chamados nos próximos dias para assumirem seus cargos. Também chamaremos todos os agentes aprovados em concurso que está sendo finalizado. Isso vai minimizar um pouco a situação, porque também faltam enfermeiros."
Segundo José Laerte, no pronto atendimento a carência de médico ocorre por motivo diferente. No caso do HPS, realmente faltam traumatologistas e a razão apontada pelo secretário também é a dificuldade de encontrar profissionais. Já na Regional Leste e em outras ocasiões nas demais unidades, José Laerte esclarece que há situações extremas. "A falta de médico pode ocorrer a qualquer momento. Ele às vezes avisa de manhã que não poderá trabalhar porque ficou doente, há também afastamentos temporários e uma rotatividade alta, de médicos que saem da rede. Na saúde não podemos esperar até amanhã, o paciente precisa ser atendido na hora e essa é a grande dificuldade. Quando ocorre falta programada, é fácil solucionar. Mas com o imprevisível, tem que se trabalhar com os recursos existentes."
Ainda que haja reclamações quando à demora no atendimento das UPAs, principalmente na de Santa Luzia, o secretário afirma que não há motivos para isso e que é preciso analisar a situação caso a caso. "As UPAs não estão cumprindo as metas pactuadas com o Município. Vamos renegociar e reequilibrar financeiramente os contratos, justamente para identificar e solucionar essas questões. A UPA de São Pedro por exemplo, é referência para a Cidade Alta, mas também para as cidades do entorno. Mas esses pacientes de fora não são levados para lá, e sim para o HPS. Temos que reorganizar isso." No caso das suspeitas de dengue, o secretário informa que o tempo de espera pelo atendimento não deveria ser elevado.
Uma aposta para detectar as falhas e propor medidas é a criação da "Sala de situação em saúde", que será inaugurada hoje e vai disponibilizar informações e projeções da saúde no município. Profissionais da área poderão ter acesso a indicadores que serão apresentados de forma sistêmica e georeferenciadas, possibilitando a análise por localidade.









