Ouça agora

Pontos de ônibus expõem usuários a risco constante


Por EDUARDO VALENTE

11/08/2013 às 07h00

A maioria dos pontos de ônibus do município não oferece segurança e conforto para os usuários do transporte coletivo urbano. Estruturas instaladas em locais inadequados, como em cruzamentos perigosos e em áreas onde as calçadas para os pedestres são estreitas ou inexistentes, foram encontradas em todas as regiões de Juiz de Fora. Em três dias, a Tribuna visitou 18 bairros do município, flagrou problemas em 25 pontos de paradas e observou que, enquanto há abrigos novos em grande parte da região central, como na Avenida Rio Branco, a realidade é diferente na periferia. O levantamento foi feito ao mesmo tempo em que a Settra realiza um trabalho de georreferenciamento dos itinerários, que tem como um dos objetivos identificar falhas nos pontos com intuito de melhorar o serviço para os passageiros e diminuir o tempo das viagens.

Em algumas vias, a reportagem encontrou cenários precários. Na Rua José Sobreiro, Bairro Linhares, região Leste, onde a via é estreita, a placa que indica a parada do coletivo foi instalada no lado oposto, embora o trecho seja de mão dupla. Na Avenida Senhor dos Passos, altura do Caiçaras, na Cidade Alta, sequer existe calçada, e a placa foi colocada sobre a vegetação. "O movimento aqui aumentou muito após a inauguração do condomínio Nova Germânia. É um perigo. O ponto deveria estar em outro lugar, menos aqui", avalia o comerciante Francisco José Caetano, 43 anos. Já na Rua Saulo Villela, no Retiro, Zona Sudeste, a armação de concreto que formava a cobertura está caída e com vigas de aço expostas. Conforme a aposentada Marilda Coutinho, 65, moradora da região, a comunidade convive com esta situação há mais de um ano. "Ficamos preocupados, principalmente porque aqui passa muita criança, pois é caminho para a escola do bairro."

Em alguns locais, como na Rua Archanjo de Campos Miranda, no Eldorado, região Nordeste, o improviso dos moradores na tentativa de ajudar os usuários do transporte público resulta em mais perigo. Instalada há mais de 30 anos pela vizinhança, a cobertura de madeira está inclinada e ameaça cair. "Nunca passou por manutenção", disse um morador, que pediu para não ser identificado.

polopoly:contentid=1.1325788

 

‘O usuário fica muito vulnerável’

As situações de precariedade nos pontos de ônibus não foram flagradas apenas em ruas de trânsito local dos bairros, mas também em vias arteriais. Na Avenida JK, principal corredor da Zona Norte, o ponto de ônibus em frente à entrada do Bairro Benfica coloca os usuários em risco. Apesar de haver cobertura e baia, as pessoas precisam ficar no asfalto para enxergar a aproximação dos coletivos. Já na Avenida Sete de Setembro, no Costa Carvalho, Zona Leste, onde o tráfego de veículos é intenso e a demanda por ônibus grande, o trânsito fica interrompido quando os ônibus estacionam. O problema é agravado pela imprudência de outros motoristas que desrespeitam as regras de sinalização e ultrapassam os coletivos na contramão. O mesmo ocorre nas ruas Ibitiguaia, no Santa Luzia, e Darcy Vargas, no Ipiranga, ambas na Zona Sul, e Doutor Simeão de Faria, Bairro Santa Cruz, Zona Norte.

Para o engenheiro e professor do Departamento de Transportes e Geotecnia da UFJF, Cézar Henrique Barra Rocha, a falta de qualidade nos pontos de ônibus é um dos fatores que desmotiva o uso do transporte público. "O usuário fica muito vulnerável, principalmente no período chuvoso. Percebemos também que, em alguns casos, eles correm o risco de ser atropelados. O fato é que, em Juiz de Fora, os pontos de ônibus são criados para atender a reivindicação de populares, mas sem um estudo aprofundado. O resultado são linhas duplicadas e paradas desnecessárias, instaladas uma próxima da outra." Conforme Barra, a licitação que vai reavaliar o transporte público do município, liberada pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE), na última quarta-feira, pode resolver estas falhas. "Este mapeamento pode servir ainda para redistribuir os pontos de ônibus, mostrando onde há demanda e ruas adequadas." De acordo com a Settra, a cidade tem hoje 5.600 pontos de ônibus.

  

Settra mapeia os itinerários de ônibus

No momento em que o município iniciará um estudo inédito sobre o transporte público, após liberação de um edital parado no Tribunal de Contas do Estado (TCE) desde 2009, a Settra realiza um trabalho de georreferenciamento dos ônibus urbanos, que poderá servir como instrumento na reavaliação que se pretende fazer do sistema, como alteração dos trajetos e redistribuição dos pontos. A pesquisa, iniciada no mês passado, visa a identificar os itinerários, a localização dos 5.600 pontos de parada e as condições destes locais, como a presença de abrigo e a situação dos passeios. De acordo com a chefe de Departamento de Transporte Público da Settra, Andréa Júlia Gonzalez Santos, as atividades, realizadas por duas equipes da própria pasta, devem terminar apenas em dezembro, embora parte das regiões Sul e Nordeste, atendidas pela Viação Santa Luzia, já tenham sido contempladas.

"Por enquanto, estamos apenas levantando as informações, não sendo possível adiantar algum resultado preliminar." Apesar disso, Andréa comentou algumas demandas dos moradores, como a colocação de coberturas nos pontos, o que é pouco comum em bairros. "Há uma série de empecilhos neste aspecto. Para colocar abrigo, o passeio precisa ter uma largura mínima de dois metros. Este é o primeiro requisito. Além disso, o que mais dificulta o trabalho é conseguir autorização do proprietário do imóvel que fica em frente. Mas nosso objetivo, a partir do georreferenciamento, é ampliar a qualidade destes pontos na medida do possível."

Na opinião do presidente da Associação dos Usuários de Transporte Coletivo, Chico Anísio, o georreferenciamento poderá servir para melhorar a qualidade do transporte público, pois, reavaliando os locais de parada, será possível aumentar a velocidade dos veículos e diminuir o tempo das viagens. "Em alguns bairros, o ônibus mal consegue sair da primeira marcha porque as paradas estão em locais inadequados. Além de melhorar o conforto, o mapeamento deverá reduzir o tempo que os coletivos ficam nos bairros."

 

Manutenção

De acordo com Andréa, é obrigação das empresas de ônibus construir e manter os abrigos dos pontos de ônibus, ficando apenas as sinalizações vertical e horizontal sob a responsabilidade da Settra. "Embora seja um trabalho das empresas, a demanda é controlada por nós. Sempre que há um problema, o morador deve entrar em contato pelo telefone 3690-8218." Conforme Andréa, muitas falhas ocorrem devido ao vandalismo. "Já atendemos casos de abrigos de concreto derrubados após as pessoas os balançarem até cair."