Disputa entre facções faz Ubá liderar homicídios na Zona da Mata; JF fica abaixo da média estadual

Para compreender os fatores por trás do avanço da violência letal em Ubá, a Tribuna ouviu autoridades da segurança pública da região


Por Pâmela Costa

11/06/2026 às 13h08- Atualizada 11/06/2026 às 13h10

Ubá registrou, em 2024, a maior taxa de homicídios na Zona da Mata, proporcionalmente ao número de moradores. Com 34,5 mortes por 100 mil habitantes, o município superou os índices de Minas Gerais (12,8) e do Brasil (20,1), segundo dados do Atlas da Violência divulgados no final de maio pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O índice também destoa de Juiz de Fora, cidade com população cerca de cinco vezes maior, que registrou taxa de 8,7 homicídios a cada 100 mil habitantes. 

Para compreender os fatores por trás do avanço da violência letal em Ubá, a Tribuna ouviu autoridades da segurança pública da região. Com população estimada em 107.423 habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade vive, de acordo com o delegado regional Bruno Salles, um cenário atravessado pelas disputas entre facções criminosas e pela posição estratégica do município.

O município ubaense é base de um dos principais polos moveleiros de Minas Gerais. Segundo o delegado regional Bruno Salles, esse cenário também despertou o interesse de facções criminosas fluminenses, como o Terceiro Comando Puro (TCP) e o Comando Vermelho (CV), que passaram a atuar no município há cerca de quatro anos.  “As facções viram um mercado lucrativo em Ubá”, explica Salles. 

De acordo com o delegado, antes da chegada das organizações criminosas do Rio de Janeiro, os conflitos ligados ao tráfico de drogas eram marcados por disputas locais entre bairros da cidade. Com a entrada das facções, porém, as batalhas por território passaram a envolver maior poder bélico, ampliação da influência criminosa e confrontos cada vez mais violentos. Ele ressalta, por exemplo, as apreensões de granadas, pistolas, semi-metralhadora e até de um fuzil no município. 

É na própria dinâmica histórica do crime organizado na região que, segundo a Polícia Civil, estaria a explicação para a elevada taxa de homicídios registrada em Ubá. De acordo com Salles, o município não apresenta números expressivos de feminicídios ou crimes passionais. A maior parte das mortes violentas, segundo o delegado, está ligada à disputa territorial entre o TCP e o CV, embora atualmente haja predominância do Comando Vermelho no tráfico da cidade. 

Facções em cidades do interior

Para o professor Dr. Wagner Batella, vinculado à linha de pesquisa de Dinâmicas Socioespaciais, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o Atlas evidenciou a diferença da criminalidade entre capitais e cidades do interior. Ele observa que, enquanto as metrópoles reduziram os crimes, como homicídios, na última década, as pequenas e médias cidades têm se destacado negativamente na ocorrência de diversos tipos de violência.

“A violência tem se configurado como uma das principais preocupações das pessoas porque o fenômeno está cada vez mais perto de todos”, ressalta, ao apontar que antes determinados tipos de criminalidade eram associados apenas a cidades grandes. Em seu diagnóstico, essa interiorização é resultado de novas estratégias territoriais das facções criminosas.

“Essa é uma dimensão chave para leitura do que estamos vendo: o território. Em grande medida, as cidades pequenas e médias no interior do país se tornam alvo das ações de grupos criminosos porque oferecem alguma vantagem locacional, sobretudo para circulação de drogas”, explica Batella.

O professor ainda relata que é importante observar como o crime organizado está expandindo sua atuação dentro dessas cidades menores, uma vez que essas organizações criminosas passam a se inserir de forma mais profunda na estrutura econômica, social e política dos municípios. O cenário escancara, segundo ele, a necessidade de pensar segurança pública aliada a outras ações efetivas do estado. O enfrentamento à facções perpassa, assim, “ações em políticas de fiscalização financeira, de habitação, de transporte e até na política”.

Brasil registra queda na violência letal, mas homicídios ocultos sobem

O diagnóstico geral traçado pelo Atlas da Violência aponta para uma redução dos assassinatos no país, consolidando uma tendência de queda iniciada em 2018. O levantamento, no entanto, faz uma ressalva sobre a qualidade dos dados utilizados na pesquisa, especialmente os registros dos sistemas de saúde pública, uma das bases do estudo. Segundo o relatório, falhas na identificação das causas das mortes podem impactar diretamente as estatísticas oficiais ao deixar parte das ocorrências sem classificação definida.

É nesse contexto que o Atlas considera a categoria Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI), aplicada aos casos em que não é possível identificar oficialmente a motivação da morte. Em todo o país, foram registrados 17.207 episódios em 2024, um aumento de 23,8% em relação ao ano anterior.

Cenário em Juiz de Fora

Embora Juiz de Fora tenha registrado número absoluto maior de homicídios em 2024 – 48 casos, contra 30 em Ubá – é o município ubaense que aparece à frente no ranking proporcional quando a taxa é calculada a cada 100 mil habitantes, conforme o Atlas. A diferença também se repete nos “homicídios ocultos”, termo utilizado para designar mortes violentas classificadas como de causa indeterminada. Enquanto Juiz de Fora registrou um caso do tipo, Ubá contabilizou sete ocorrências.

O que a Sejusp diz

Questionada pela Tribuna sobre os dados do Atlas da Violência, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp) destacou que entre 2024 e 2025, os crimes violentos recuaram 20,34% em Minas, bem como em Ubá. Dados da pasta apontaram redução dos homicídios consumados (-21,43%), roubo consumado (-38,86%) e tentados (-11,11%) no município mineiro. 

A pasta também atribuiu parte dos índices de Ubá à metodologia utilizada no levantamento, que considera registros de Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI) informados pela Secretaria de Estado de Saúde. Segundo a pasta, casos inicialmente não classificados estritamente como homicídios podem impactar os resultados do estudo. 

A secretaria afirmou ainda que, diante de ocorrências com indícios de violência, hospitais e profissionais de saúde devem acionar as forças de segurança, cabendo ao médico responsável avaliar a natureza da lesão e registrar a possível causa do ferimento conforme as informações disponíveis no momento do atendimento. Em determinadas situações, porém, não há elementos suficientes para definir imediatamente a dinâmica da ocorrência, o que pode levar o caso a ser registrado inicialmente como de “causa indeterminada”.

Sobre as ações para reduzir os índices de violência letal no estado, o Governo de Minas informou que acompanha diariamente os indicadores de criminalidade nos 853 municípios mineiros e afirmou adotar estratégias integradas de prevenção e repressão ao crime. Entre as iniciativas citadas pela Sejusp está o programa Fica Vivo!, voltado a jovens de 12 a 24 anos residentes em áreas de maior vulnerabilidade social.

A pasta também destacou a atuação da Agência Central de Inteligência, responsável pela integração das forças de segurança estaduais, com foco no compartilhamento de informações, no mapeamento de organizações criminosas e na definição de respostas estratégicas ao crime organizado. Segundo o governo, a Polícia Militar de Minas Gerais atua por meio das Patrulhas de Prevenção a Homicídios e da Gestão de Desempenho Operacional (GDO), ferramentas utilizadas para identificar áreas de maior incidência criminal e orientar o policiamento ostensivo. Já em relação a Polícia Civil, a sejusp informou que atua no fortalecimento de estratégias integradas de investigação em articulação com o Ministério Público e o Poder Judiciário.

Ao ser questionada sobre ações voltadas à valorização dos profissionais da segurança pública e à ampliação do efetivo das forças policiais, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) informou que 54 novos delegados da Polícia Civil foram nomeados no fim de maio deste ano. A pasta também destacou que está em andamento um concurso público para a Polícia Penal, com previsão de preenchimento de 1.178 vagas. Já na Polícia Militar, 3.142 novos policiais concluíram a formação em maio e serão distribuídos para atuação em diferentes regiões de Minas Gerais.

A Sejusp também ressaltou o aumento dos investimentos na área de segurança pública. Segundo a pasta, o orçamento destinado ao setor passou de R$ 24,139 bilhões, em valores corrigidos pela inflação referentes a 2023, para R$ 28,810 bilhões previstos na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026. De acordo com o Governo de Minas, a ampliação dos recursos reforça o compromisso com o fortalecimento das instituições de segurança e o enfrentamento da criminalidade no estado.

Tópicos: CV / TCP