Por intimidação de gangue, comércio ameaça fechar as portas
Uma gangue de adolescentes armados, com idades entre 12 e 17 anos, tem amedrontado o comércio do Bairro Santa Cruz, na Zona Norte. Formado por cerca de 30 jovens moradores da região, o grupo tem praticado assaltos, furtos, brigas, ameaça de arrastões e disparos de revólver, colocando em risco frequentadores dos estabelecimentos locais, principalmente os que ficam na Avenida Doutor Simeão de Faria, a principal do bairro. De acordo com lojistas que procuraram a Tribuna, a ação dessas galeras tem acontecido a qualquer hora do dia, muitas vezes, com os jovens ameaçando atuar em vários pontos ao mesmo tempo. "Eles se dividem em grupos menores e ficam ociosos todo o tempo. Assim, a qualquer instante, estamos expostos a alguma ação. O que mais nos preocupa é a violência com que respondem a qualquer tentativa de repreendê-los. São sempre ameaças como se fossem os donos do bairro", desabafa um comerciante que alega já ter sofrido diversos furtos.
Como forma de protesto diante da insegurança, os lojistas ameaçam fazer uma manifestação e baixar as portas: "Vamos fechar todo o comércio de Santa Cruz por, pelo menos, duas horas como forma de chamar a atenção das autoridades a respeito deste problema", afirma o lojista.
No final de abril, houve um tumulto, e um homem que não estava envolvido teria sido atingido por um tiro de raspão. Uma lojista de 31 anos presenciou a violência e disse que houve pânico. "Foram disparados tiros na porta da loja. Tivemos que nos jogar no chão. Estamos traumatizadas e, durante a noite, temos vontade de fechar mais cedo. Qualquer adolescente que entra na loja, achamos que vai acontecer alguma coisa. A ameaça é constante. Eles passam na rua, debocham e entram, já olhando para as câmeras de segurança como forma de nos intimidar", conta a comerciante, acrescentando que a situação tem provocado medo na clientela. Outro caso aconteceu com um comerciante de 55 anos. Ele diz ter vivido momentos de medo nas mãos de um adolescente armado. "Estava no caixa, ao lado de minha esposa e minha filha de 1 ano e 2 meses. O menino chegou, de arma na mão, empurrando minha esposa. Em seguida, me deu uma coronhada. Mostrei uma caixa de dinheiro para ele. O jovem foi até lá e voltou apontando a arma para minha cabeça, dizendo que só tinha dinheiro miúdo. Ele cobrou mais, pois queria notas de R$ 50 e R$ 100. O rapaz vacilou, e eu perdi a cabeça, me atracando com ele. Consegui tirar sua arma e controlar a situação até a polícia chegar", relatou o homem, em prantos. Ele disse que toda a ação aconteceu por volta das 19h, quando havia muita movimentação do lado de fora. "Tenho certeza de que nosso bairro precisa de mais atenção. Necessitamos, pelo menos, ter o direito de trabalhar. Sem isso, teremos que vender nosso ponto para não corrermos riscos."
Uma das vítimas conta que os meninos sempre andam em grupo de quatro, expondo revólveres. "A maioria do comércio no bairro tem mulheres à frente, e elas estão abaladas com a situação. Qualquer barulho ou pessoa diferente que entra na loja já causa medo", afirma, lembrando de um episódio que exemplifica a situação. "Alguém jogou um daqueles estalinhos e, de repente, as pessoas que estavam na rua em frente se jogaram no chão como forma de se proteger de tiros."
‘Necessidade de policiamento’
O dono de uma locadora, 32, onde teriam ocorrido dois assaltos, afirma não aguentar mais a onda de criminalidade. Na última vez, apenas um funcionário estava no local. "A loja tem circuito de segurança, mas o assaltante estava de capuz e armado de revólver. A PM demorou a chegar, e vivemos uma situação complicada. Na primeira vez que fomos assaltados, dois indivíduos, sendo um armado, ficaram de fora do balcão e levaram R$ 105 e um celular." Para outro comerciante, 30, que há sete atua na área, é necessário mais policiamento. "Essas gangues vêm aterrorizando Santa Cruz com furtos e assaltos. A gente queria providência. Meu comércio foi assaltado pela primeira vez no último sábado antes da Páscoa. Os meninos estavam armados e levaram uma quantia em dinheiro. Eles fugiram e não foram presos".
Abaixo-assinado pede providências a autoridades
Como tentativa de resolver o problema, os comerciantes fizeram um abaixo-assinado e já recolheram cerca de duas mil assinaturas. O documento exige providências por parte das autoridades. "Reivindicamos uma ação conjunta entre órgãos públicos e de defesa social, além da presença efetiva da PM no bairro. Precisamos de uma ação social da Prefeitura junto com a polícia e o Conselho Tutelar para ver a situação desses adolescentes em relação às suas famílias. É preciso saber como é a estrutura delas, porque estes meninos estão ociosos. Exigimos uma ação mais efetiva da Justiça, porque são casos de crianças armadas. Tem que ter um posicionamento mais rígido em relação a esses garotos, que precisam ser controlados", aponta um dos comerciantes.
De acordo com informações do assessor de comunicação organizacional do 27º Batalhão da PM, capitão Paulo Alex Moreira, o grupo de adolescentes está sob monitoramento. Ele garantiu que PM e Polícia Civil estão trabalhando de maneira sistemática no combate à ação dos infratores. "Estão sendo realizadas reuniões periódicas entre o delegado e o militar responsáveis pela área, com a finalidade de discutir estratégias de ostensividade para ir a fundo na questão desta gangue, que vem impactando alguns índices criminais. "No geral, o bairro não tem uma situação complexa, mas algumas questões pontuais precisam de atenção." Como aponta o delegado titular da 3ª Delegacia Distrital, Rodolfo Rolli, uma investigação trabalha no levantamento de provas, com o objetivo de qualificar os adolescentes e possíveis adultos que estejam por trás da gangue. "Assim que conseguirmos indícios suficientes, solicitaremos a prisão dos maiores e representaremos pela internação dos adolescentes desde que seja comprovada a ligação deles com os roubos", afirmou Rolli, lembrando que muitas vítimas deste grupo estão deixando de procurar a delegacia a fim de fazer o reconhecimento dos infratores devido ao medo imposto pelos adolescentes. "Precisamos deste reconhecimento para dar base ao inquérito policial e solicitar os mandados de Justiça." Ele relata que, há dois meses, vem investigando esses adolescentes, inclusive a participação em um assalto contra um caminhão de bebidas. "Temos imagens deste grupo, capturada de um site de relacionamento em que eles estão no caminhão exibindo armas."
‘Sensação de insegurança é maior’
Apesar da atuação frequente do grupo, levantamento do 27º Batalhão da PM, aponta que houve uma queda de 26% nos crimes contra o patrimônio no Bairro Santa Cruz se comparado o primeiro trimestre de 2011 com o mesmo período do ano passado. Já nos delitos específicos contra estabelecimentos comerciais, a redução foi de 36%. Isso é um indício de que muitos casos não chegam a ser registrados pelos lojistas.
Para o assessor de comunicação organizacional do 27º BPM, capitão Paulo Alex Moreira, porém, a análise dos números mostra que a comunidade vive mais a sensação de insegurança do que a insegurança real. "Isso será trabalhado por meio de contatos comunitários, aumento da patrulha de prevenção ativa, além de participações em reuniões comunitárias e centros comerciais." O militar ainda esclarece que, no primeiro semestre deste ano, o bairro registrou dois homicídios, enquanto, no mesmo período de 2010, nenhum ocorreu.
"Estes dois assassinatos podem ser a explicação para a sensação de insegurança. Porém, os crimes têm indicativos de serem cometidos devido a acerto de contas", afirma o militar. Quanto à questão do envolvimento de garotos com o crime, o capitão evidencia que a PM não tem intenção de amedrontar ninguém da sociedade. "Contra quem cometer um crime será aplicado o rigor da lei. No caso de um adolescente, a PM o apreende e toma as medidas legais pertinentes, sendo a ocorrência encaminhada para a Polícia Civil e para a Vara da Infância e Juventude. Temos contato sistemático com a Justiça para podermos passar informações atualizadas e constantes a fim de que as medidas socioeducativas sejam tomadas."








