Duas semanas depois, cenário de deslizamento ainda marca rua no Retiro

Com área interditada, famílias seguem fora de casa e cobram limpeza da rua, contenção de encosta e normalização de água e ônibus; Prefeitura diz que ações seguem critérios técnicos de prioridade


Por Fernanda Castilho

11/03/2026 às 18h05

Duas semanas após o temporal que atingiu Juiz de Fora, a Tribuna voltou à Rua José Augusto de Araújo, no Bairro Retiro, região Sudeste do município, onde moradores ainda lidam com as consequências dos deslizamentos e relatam incertezas sobre os próximos passos. Com a área interditada, parte das famílias permanece abrigada na casa de parentes, sem previsão de retorno às residências ou de acesso a eventuais auxílios, em meio a um cenário de indefinições.

No local, a reportagem constatou que a rua ainda está coberta por terra e que o barranco permanece exposto, sem lonas para contenção da encosta, o que, segundo moradores, aumenta a preocupação com novos deslizamentos. Além da limpeza e da proteção da área, eles também pedem providências para a normalização do abastecimento de água na região e para a retomada do itinerário completo da linha de ônibus que atende o bairro.

‘Ninguém dá uma providência’

Morador do bairro, João Paulo Miranda, 52, conta que, devido à orientação da Defesa Civil de evacuar a área interditada, ele e sua família estão há duas semanas fora de casa, seguindo abrigados no lar da irmã, e sua esposa, que comanda um bar na localidade, está sem conseguir trabalhar. “Vieram aqui, disseram que tínhamos que evacuar a área, mas não deram mais satisfações. Ontem veio uma equipe, mas nem conversaram com a gente.” 

Como afirma, até o momento ele não recebeu nenhum documento que comprove a interdição de sua casa. “Foi só no boca a boca, eles foram na rua e falaram que do número 53 ao número 205 todas as casas estão interditadas. Quando fui ao CRAS, me disseram que não podiam me atender porque eu não tinha o papel, depois tive que ir no DIGA. Me mandaram esperar, só que já estou esperando, mas ninguém dá uma providência, não dá nada”, diz.

Insatisfeito com a falta de suporte do Poder Público à comunidade, João reclama sobre a rua ainda estar coberta de terra, sem nenhuma limpeza desde o escorregamento. Além disso, o barranco segue desprotegido, sem lonas para contenção de encostas, o que aumenta a insegurança na área por riscos de novos deslizamentos. 

“A parte lá em cima do bairro ainda não tem água, porque a bomba não está conseguindo empurrar. Os moradores estão indo buscar água e vivendo daquela água aqui de doação. Quanto ao ônibus da linha 306, o pessoal daqui de cima está tendo que andar um quilômetro e meio para chegar lá embaixo, sendo que podiam voltar a passar aqui”, relata o morador.

moradores retiro juiz de fora
(Foto: Felipe Couri)

‘Situação crítica’

Marcelo Eduardo de Jesus, 59, proprietário de uma das casas atingidas e do veículo arrastado pela enxurrada durante o deslizamento ocorrido, considera que a situação de sua família está crítica. “Nós não sabemos de nada, vai pra lá, vem pra cá. Não tenho lugar pra ficar, estou vivendo de favor. O CRAS não resolve, seja para dar algum auxílio ou pagar aluguel.”

Durante atendimento no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), ele conta que somente foi orientado a aguardar. “Não perguntam se a pessoa está passando fome, se tem dinheiro e se tem lugar para ir. É isso aí que nós estamos vivendo.” Para rebocar seu carro, que havia ficado preso no vão entre a garagem e a varanda de sua casa, ele conta que precisou desembolsar um valor alto. Com os consertos necessários no veículo, ele acredita que os custos devem encarecer ainda mais.

Atuação segue critérios técnicos de prioridade, diz PJF

Em nota, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) informou que monitora a situação da Rua José Augusto de Araújo, no Bairro Retiro, com realização de vistorias e acompanhamento técnico das condições de segurança da área. “Diante do grande volume de ocorrências em toda a cidade, os atendimentos da Defesa Civil seguem critérios técnicos de prioridade, com foco na preservação de vidas e na segurança da população.”

O órgão afirmou que não é necessário apresentar laudo da Defesa Civil para procurar o CRAS. As famílias desalojadas devem buscar a unidade para realizar o pré-cadastro e receber orientações sobre os benefícios. “Não é possível estimar prazo para o recebimento/liberação, mas o Executivo está trabalhando para que as pessoas afetadas possam ter acesso a eles o quanto antes seja possível.”

Quanto à limpeza da via, a PJF afirmou que a retirada de terra e a adoção de medidas de proteção no barranco dependem, por segurança, da liberação da Defesa Civil e que as equipes municipais seguem mobilizadas na limpeza urbana, desobstrução de vias e recomposição de serviços essenciais. Já quanto a normalização do abastecimento de água, esta também está condicionada à existência de condições seguras para acesso das equipes responsáveis.

Em relação ao transporte público, a Prefeitura explicou que a circulação da linha 306 – Barão do Retiro foi ajustada emergencialmente por questões de segurança. “Assim que houver condições adequadas e autorização da Defesa Civil, será realizado um teste de operação para que o trajeto completo possa ser retomado.”