Pacientes esperam até uma semana por cirurgia no HPS

Américo Campos só conseguiu ser operado na Santa Casa de Lima Duarte
Pacientes em estado gravíssimo, que chegam ao Hospital de Pronto Socorro (HPS) em caráter de emergência, ou seja, com risco de morte, também precisam aguardar até uma semana para serem submetidos aos procedimentos necessários. Isso é o que vem ocorrendo na unidade que é a porta de entrada e referência para a urgência e emergência de alta complexidade do Sistema Único de Saúde (SUS) na região.
O produtor rural Américo Campos Amorim, 48 anos, viu de perto o que é precisar de atendimento e não conseguir. Depois de uma máquina roçadeira ter caído sobre ele e praticamente esmagado uma de suas pernas, Américo foi levado ao HPS com fratura na tíbia, no dia 13 de junho. Ele disse ter ficado pelo menos seis horas em uma maca no corredor aguardando por um leito. O produtor permaneceu internado por cinco dias, até desistir de esperar. "Tinha gente que estava lá há 12 dias e em situação pior. Nenhum médico passou para me avaliar por todo esse tempo que fiquei internado. Senti dor demais e passei por situações difíceis. O banheiro estava entupido e com um vazamento que escorria para o quarto. Como não conseguia mexer com a perna direito, ficava complicado não pisar naquela água. Também não tinha papel higiênico", relata.
Américo foi vítima de mais um problema que o HPS enfrenta atualmente: a falta de ortopedistas nos plantões, principalmente de sexta-feira a domingo. Ciente da situação, o produtor rural decidiu deixar o hospital por ter conseguido, por conta própria, vaga na Santa Casa de Lima Duarte. "Assinei um termo de responsabilidade e saí. Cheguei à noite no hospital de Lima Duarte e, no outro dia, a cirurgia foi feita. Posso dizer que saí do inferno e fui para o céu."
O esquema de plantão, que deveria estar funcionando no pronto socorro, prevê que três traumatologistas trabalhem a cada 12 horas. O número permite que, enquanto dois realizem cirurgias, o outro continue no atendimento. Mas, segundo o delegado do Conselho Regional de Medicina, José Nalon, devido ao déficit de profissionais da área, a demanda não é atendida, porque os profissionais não dão conta.
O secretário de Saúde José Laerte confirma que a falta de médicos, principalmente ortopedistas, é um problema grave, mas acredita que as propostas de melhoria da remuneração e a seleção simplificada para contratar novos profissionais, cujas inscrições acabam nesta quarta, vão minimizar as dificuldades. "Pelo número de candidatos que temos, será possível melhorar as condições. Porém, para resolver, é preciso concurso público, e é o que vamos fazer com urgência. Primeiro haverá um concurso para repor o quadro e depois para expandir."
Depois de cair de um andaime e ficar cinco dias à espera de cirurgia no HPS, o pedreiro Ronei Paula Oliveira, 39, foi transferido no último sábado para a Santa Casa de Misericórdia. Ele deu entrada no pronto socorro no último dia 2, com fratura na coluna. Conforme sua esposa, Carmen Glória de Faria, 46, "a situação era muito grave, ele precisava fazer uma cirurgia de risco e não podia esperar". A família precisou recorrer à Justiça para conseguir uma vaga na Santa Casa. Na segunda-feira, quase uma semana após o acidente, Ronei passou pelo procedimento, mas não resistiu e morreu na manhã dessa terça-feira. A assessoria de imprensa do hospital não informou a causa do óbito.
De acordo com José Laerte Barbosa, não é possível analisar o caso de Ronei sem conhecer os detalhes. "É preciso estudar o que de fato ocorreu e qual era o quadro para tirar conclusões. Seria precipitado dizer que o paciente faleceu porque demorou para ser operado. Talvez não tenha sido transferido antes porque não poderia operar imediatamente, ou porque havia alguma restrição no quadro. Realmente a maioria das neurocirurgias não são feitas no HPS. Apenas os casos mais simples são operados lá. Mas temos neurocirurgião e neurologista, e acredito que eles estavam avaliando o paciente. Se realmente houve dificuldade de vaga, precisamos apurar."
Ainda que a morte do pedreiro possa não ter relação com a espera, a situação traz novamente à tona as falhas no HPS. Com falta de estrutura, profissionais, insumos e medicamentos, o HPS passa por uma crise que precisa ser revertida. A situação é tão grave que, no dia 1º de julho, o prefeito Bruno Siqueira (PMDB) "transferiu o gabinete" para o hospital e passou uma tarde inteira levantando os principais problemas da unidade, na tentativa de reverter o quadro. O momento atual revela que, agora, quem pede socorro é o próprio HPS.
Diante da gravidade do cenário, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), por meio da Coordenadoria Regional das Promotorias de Justiça de Defesa da Saúde, realizou uma inspeção no HPS no último dia 21. Após a constatar a precariedade e receber os relatos de médicos, pacientes e funcionários, o promotor Rodrigo Barros convocou uma reunião, que contou com a participação de diversos representantes da saúde. O resultado foi a instauração de um inquérito civil público que visa buscar soluções urgentes para o hospital e seus colaboradores.
Problemas persistem
Na série de reportagens "Saúde em raio X", publicada em abril, a Tribuna abordou a falta de estrutura do HPS para atender com dignidade os pacientes e revelou que, além da escassez de medicamentos e produtos básicos – como soro, copo plástico e luva -, a falta de macas, camas e até colchões levou à acomodação de pacientes nos corredores, em cadeiras e até no chão. Na ocasião e também em reportagem publicada em maio, a Tribuna constatou que a unidade precisou fazer empréstimo de material junto aos hospitais privados da rede conveniada ao SUS. A Secretaria de Saúde garante que medidas foram tomadas para a correção dessas falhas. Segundo o titular da pasta, José Laerte Barbosa, o problema do desabastecimento de medicamento e insumos é reflexo da inexistência de processos de compras no início da gestão, mas ele diz que as aquisições já estão 85% solucionadas.
No entanto, as reclamações permanecem. De acordo um funcionário que preferiu não se identificar, o quadro pouco mudou. Conforme ele, a situação do elevador, que está sem funcionar desde o início do ano, é apenas um exemplo da demora para que as coisas sejam corrigidas na unidade. Por conta desse problema, macas e outros itens pesados precisam percorrer os cinco andares do HPS pelas rampas, que são íngremes e em desconformidade com as exigências da Vigilância Sanitária.
Além disso, enfermeiros relatam que houve falta de outros itens básicos. "Para que os pacientes recebam as doses intravenosas de remédios necessários temos que dar a injeção mais de uma vez (por falta de seringa com a dose adequada). Tem pessoas recebendo quatro aplicações de uma vez só", relata um enfermeiro, que também preferiu não se identificar. Os desabafos continuam. "É um absurdo o que está acontecendo aqui. Faltam profissionais, faltam medicamentos, falta tudo, até papel higiênico e papel-toalha. Não há condição digna para ninguém, nem para os trabalhadores", revela um outro profissional.
Quanto ao elevador, a assessoria de comunicação da Secretaria de Saúde informa que uma empresa foi contratada e o conserto, iniciado. O elevador será montado até o início da próxima semana e a expectativa é que entre em funcionamento em seguida.
Como as obras (que devem ser retomadas em breve) do Hospital Regional de Urgência e Emergência têm prazo de 18 meses para serem concluídas, até que a transferência dos serviços do HPS seja feita, o coordenador regional das Promotorias de Justiça de Defesa da Saúde, Rodrigo Barros, garante que vai acompanhar de perto a situação do pronto socorro. Segundo ele, o inquérito instaurado vai apurar as deficiências, principalmente relacionadas ao quadro de cobertura dos plantões médicos, e monitorar as providências tomadas pela Secretaria de Saúde até o encerramento das atividades do hospital.
Gratificação para atrair médicos
Uma das propostas da Prefeitura (PJF) para tentar reverter o déficit de médicos no HPS consiste no projeto de lei complementar – enviado para apreciação da Câmara Municipal – que pretende criar a "gratificação pelo exercício de plantão extraordinário por profissionais da carreira de médico em unidade de urgência e emergência" do SUS, além de reajuste do piso salarial, que passaria a ser de R$ 5.580,49.
Além de reivindicarem ampliação da remuneração dos plantonistas e plano de carreira atrativo, a categoria também pede melhores condições de trabalho. A falta dessas medidas é, na visão do presidente do Sindicato dos Médicos, Gilson Salomão, um dos agravantes da alta rotatividade de profissionais. Para Gilson, existem muitas distorções nos valores pagos a esses profissionais. "A proposta da Prefeitura apresenta melhora na gratificação dos plantões fora da jornada feitos de sexta-feira a domingo, mas é pouco atraente o valor oferecido para os plantões diurnos de segunda a quinta-feira. Hoje, o HPS tem um misto de problemas, que foram levantados pela atual Administração. A proposta da Prefeitura é reestruturar a unidade em relação aos recursos humanos, equipamentos, insumos e medicamentos básicos. Aguardamos essas mudanças, porque esta situação tem comprometido muito a qualidade do atendimento."
"A dificuldade que nós temos no serviço público é que existe todo um processo burocrático. Estamos negociando com o Sindicato dos Médicos um pagamento de gratificações por esses plantões. O Município já fez uma proposta, e estamos esperando resposta. Resolvendo a questão dos ortopedistas, do ponto de vista da assistência médica, nós não temos outros problemas", declara o secretário de Saúde, José Laerte Barbosa. Conforme o titular da pasta, outra proposta é que as unidades de pronto atendimento (Upas) funcionem com ortopedistas. Atualmente, apenas a UPA da Zona Norte já conta com essa especialidade.









