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Família com 12 filhos e sem benefícios sociais


Por FERNANDA SANGLARD

10/07/2011 às 07h00

Com 12 filhos e recebendo pouco mais de um salário mínimo, uma família juiz-forana se sustenta sem nenhum complemento dos programas governamentais. A história do casal Janiz Alves Mendes, 35 anos, e Valmir Assis de Andrade, 43, foi descoberta há poucos dias pela equipe do Bolsa Família na cidade, que, após ser informada sobre a situação, localizou a família e fez sua inscrição no Cadastro Único (CadÚnico), que permite a inserção em projetos sociais.

Apesar de estarem incluídos entre os brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza, como descreve a chefe do Departamento de Transferência de Renda da Secretaria de Assistência Social, Valeska Aragão, o casal e os filhos residem em condição de dignidade. Na casa simples na localidade de Rosário de Minas, Zona Rural da cidade, eles estão em meio à natureza, com espaço amplo para as crianças brincarem, horta e despensa abastecida com alimentos básicos, mas afastados de todo tipo de serviço público.

Próximo à residência não há nenhum mercado, orelhão ou ponto de ônibus. O rádio e a televisão são os únicos meios de informação da família, já que não há telefone fixo nem sinal de celular. O tempo gasto entre a residência e o Centro de Juiz de Fora é de 45 minutos de carro, a unidade de saúde mais próxima fica em Penido, a cerca de 15 quilômetros de distância, onde algumas das crianças estudam. As outras frequentam a escola em Igrejinha, na Zona Norte. Todas são transportadas em Kombi escolar.

O casal tem orgulho de dizer que os filhos em idade escolar frequentam o colégio. Enquanto os mais novos – um casal de gêmeos – têm 1 ano, o mais velho tem 18 anos e fica com a avó, no município de Olaria, durante a semana, para facilitar o estudo, conta Janiz.

O isolamento foi responsável pelo desconhecimento de alguns direitos. Apesar de se enquadrarem nos requisitos do programa Bolsa Família, até hoje eles nunca receberam recursos. Não sabia que a gente tinha esse direito. Uma vez perguntei para o pessoal mais informado, mas disseram que a gente não podia entrar. Então continuei como sempre fiz, trabalhando o dia todo para poder dar condição para a família e contando com a ajuda de conhecidos, conta Valmir, que é caseiro de uma fazenda.

A Estratégia Saúde da Família também só se tornou real para o casal há seis meses, quando, segundo Janiz, uma pediatra passou a pegar as crianças na escola em que estudam para prestar atendimento. Dos 12 filhos, apenas na gestação dos quatro mais novos ela contou com acompanhamento pré-natal. Ainda assim, amamentou todos os filhos, e o casal de gêmeos de 1 ano mama no peito até hoje. Já a sonhada ligadura de trompas ainda não foi feita. Colocaram DIU (dispositivo intrauterino), porque o médico disse que ainda sou nova para ligar, conta Janiz.

A partir da descoberta pela equipe da assistência social, a família deve começar a receber R$ 242 do Governo federal, que é o valor máximo pago hoje pelo Bolsa Família. Só falta aguardar a análise do CadÚnico, mas com certeza eles serão inseridos. E não vamos parar nessa ação. Já fizemos diversas visitas à família e vamos ajudar em outros problemas que eles enfrentam, explica Valeska.

Organização, apesar da falta de recurso

Independente do dia, uma cena sempre chama a atenção na casa do casal Janiz e Valmir: a quantidade de roupas estendidas no varal. É impressionante a organização dessa mãe e o trabalho que ela tem diariamente, sem contar com ajuda, observa a chefe do Departamento de Transferência de Renda da Secretaria de Assistência Social, Valeska Aragão. A comida é feita no fogão a lenha, na hora do banho há revezamento no único banheiro e, enquanto parte das roupas fica guardada com organização em um pequeno armário, o restante forma uma montanha em um dos cômodos. Ninguém dorme no chão, mas cada dois meninos e meninas ocupam uma cama.

Controlar tantas crianças não é fácil, segundo Janiz, mas ela diz que consegue se organizar para cuidar dos filhos e dar conta do serviço da casa. A mãe jamais planejou ter 12 filhos, mas diz não se arrepender do caminho que precisou trilhar. Sempre gostei de criança, e vivo por elas. Apesar da dificuldade, acho que conseguimos oferecer uma vida de dignidade. Não temos fartura, mas também não deixamos faltar comida. Pelo menos o arroz com feijão sempre tem.

Ônibus para detectar extrema pobreza

A família de Janiz e Valmir foi a primeira identificada pela busca ativa da população extremamente pobre, promovida pela equipe local do programa Bolsa Família, vinculada à Secretaria de Assistência Social. A partir da semana que vem, um ônibus adquirido pelo município com recursos do Índice de Gestão Descentralizada (IGD) do Governo federal começa a percorrer algumas regiões da cidade em busca de outras pessoas que ainda não tenham acesso aos programas sociais e serviços básicos. Inicialmente vamos nos concentrar nas áreas de ocupação, por acreditar que são regiões onde as pessoas estão mais afastadas, podem ter menos acesso às informações, e ser o público-alvo do Plano Brasil sem Miséria, informa a chefe do Departamento de Transferência de Renda da secretaria, Valeska Aragão.

Ela não sabe estimar quantas famílias da cidade podem se enquadrar em situação de extrema pobreza, vivendo com menos de R$ 70 per capita, e diz que esse levantamento será feito durante a atuação da equipe. Encontrar essa família de 12 filhos quase sem nenhuma assistência foi uma surpresa para nós e podemos nos deparar com mais gente vivendo dessa forma, avalia. Todas essas informações serão incluídas em um relatório que, segundo Valeska, pode colaborar com a elaboração de políticas públicas.