Medo da violência ronda entorno do Mergulhão

PM diz que patrulha área constantemente
Medo é a melhor palavra para resumir o sentimento de quem transita, mora ou trabalha na região do Mergulhão. Os constantes assaltos que vêm acontecendo no local, principalmente no período da noite, têm assustado a população, uma vez que, em muitos casos, houve agressão e ameaças de morte às vítimas. O trecho é usado por quem quer atravessar a Avenida Rio Branco, principal via da cidade, e também para quem sai desta via e segue em direção à Avenida dos Andradas. Além da insegurança, muitos ainda reclamam do acúmulo de lixo, da iluminação precária, da presença de usuários de drogas. Há relatos, inclusive, de um homem que ficava, no local, mostrando o órgão genital para as transeuntes. O tumulto provocado por gangues também é outra questão apontada pelos moradores da área. Nas dezenas de ocorrências registradas pela Polícia Militar, ao longo de 2011, é possível perceber que os ladrões têm as mulheres e os estudantes como alvo da maioria das ações criminosas. A faca aparece como o instrumento de ameaça mais utilizado, mas há também notificação de roubo com arma de fogo e outros tipos de instrumento, como aconteceu com um adolescente, de 16 anos, ameaçado com uma garrafa quebrada e uma pedra. Segundo a PM, ele seguia em direção ao Bairro Manoel Honório, quando teria sido abordado por um homem. O suspeito teria ameaçado o jovem de morte, obrigando-o a entregar o celular, cordão, relógio e R$ 15.
Andar sozinho pelo Mergulhão é expor-se a riscos, ainda mais se for de madrugada. Um jovem, 23, levou um soco, depois de ter sido rendido pelo assaltante, por volta das 4h30. Conforme a PM, o ladrão abordou a vítima e pediu R$ 15 para comprar fraldas. O pedestre repassou a quantia solicitada, e o suspeito teria ido embora, mas retornou e rendeu o jovem. Ele desferiu um soco contra o peito dele e ainda fez ameaças com uma faca, querendo mais dinheiro. O rapaz conseguiu escapar e pediu ajuda aos policiais no Manoel Honório. Os militares realizaram rastreamento, mas o assaltante não foi encontrado.
A tática de abordar sua presa, para pedir algum de tipo de informação, é uma das artimanhas dos criminosos. Foi assim que uma mulher, 23, teve o celular roubado. Ela caminhava pelo local, por volta das 18h30, quando foi abordada pelo ladrão. Depois de pedir uma informação, ele sacou uma faca e exigiu o aparelho, fugindo sem ser localizado. As frequentes ocorrências de assaltos conjugados com agressões têm mudado os hábitos de quem passa pela região. Sob a alegação de que a travessia fica deserta à noite e até durante o dia nos finais de semana, quando é possível observar a permanência de grupos suspeitos na área, pedestres disseram que só transitam pelo trecho acompanhados. Ainda conforme residentes da vizinhança, a situação é agravada nas madrugadas de sábado, quando frequentadores de festas promovem tumultos e brigas em via pública. Os moradores afirmam que até tiros já foram ouvidos em alguns episódios.
Trabalhadores só atravessam área com vigia
A sensação de perigo também mudou a rotina dos funcionários de uma empresa de telemarketing, na Rua José Calil Ahouagi, perto do Mergulhão. De acordo com o supervisor do setor de vigilância terceirizada do estabelecimento, que preferiu o sigilo do nome, foram destacados dois vigias para acompanhar os funcionários que saem do serviço à noite e de madrugada, na travessia do Mergulhão. "Orientamos para que eles sempre estejam acompanhados devido aos assaltos. O Mergulhão, além de deserto, oferece facilidade para a rota de fuga dos assaltantes." Outro vigia contou que já ouviu diversos relatos de funcionários que foram roubados no trecho. Segundo ele, as árvores em via pública, principalmente, na Rua José Calil Ahouagi, atrapalham a iluminação. O mato alto em alguns pontos que margeiam a linha férrea serve de esconderijo. "Já observei pessoas escondendo drogas entre os arbustos e até pessoas em atitude suspeita em cima dos galhos." Uma representante de atendimento, 34 anos, contou que, quando trabalhava à noite, tinha medo de passar pelo Mergulhão. "Uma vez sai às 22h40, e, quando passava pelo local, vi um homem com um revólver na cintura e outro suspeito em uma bicicleta. Fiquei com medo, mas consegui localizar um policial militar que estava ali perto. Porém, ele me disse que não podia me atender, porque aquela não era área de atuação dele. Todos estão amedrontados. Principalmente depois que uma funcionária foi assaltada e jogada no chão. Ela sofreu lesão no pulso e ainda está de licença médica."
No último dia 17, à noite, a PM registrou um assalto contra uma operadora de telemarketing. Ela foi surpreendida por uma mulher com faca quando transitava pelo Mergulhão. A criminosa roubou a bolsa da vítima, mas foi presa por policiais que faziam patrulhamento.
Mais segurança
Trabalhadores de outros segmentos também se dizem acuados com a situação. A proprietária de um bar, de 35 anos, contou que já viu um assalto em frente ao seu estabelecimento. "O ladrão abordou a vítima quando ela saiu do clube aqui perto. Ele chegou a caminhar abraçado com a vítima até efetivar o roubo. A situação é um absurdo. Precisamos de mais patrulhamento." A atendente de uma loja, 32, relatou que já sofreu duas tentativas de roubo. No intuito de evitar outra situação parecida, foi instalada campainha na parte de baixo do balcão, para ser acionada, avisando os outros funcionários em caso de assalto. "Eu estava sozinha e um homem chegou com uma faca, me ameaçando e pedindo dinheiro. Graças a Deus, na hora, chegou outro funcionário, e o ladrão saiu correndo."
Um homem entrou em contato com a Tribuna, para denunciar que estão ocorrendo constantes conflitos de gangues, além dos assaltos. Ele relatou que a travessia da linha férrea tem ficado perigosa para os trabalhadores e já observou vítimas sendo abordadas por bandos. Segundo ele, um desses episódios aconteceu no último dia 12, por volta das 23h30, quando acontecia uma briga generalizada. Ele teria ligado para o 190, durante cerca de uma hora, mas não conseguiu ser atendido. Teria decidido fazer contato com a Guarda Municipal, que o orientou a chamar a PM. "O que um cidadão de bem faz em uma hora dessas, em que sua filha não tem segurança de ir e voltar do trabalho, e o mesmo não consegue nem pedir socorro ao órgão competente?"
PM diz que patrulha área constantemente
De acordo com o assessor de comunicação do 2º Batalhão de Polícia Militar, tenente Marcelo Alves, a corporação lança, constantemente, patrulhamento na área do Mergulhão, com policiais a pé, de motocicleta e de bicicleta. "Este efetivo não é fixo, percorre as imediações, aumentando o raio de patrulhamento", afirma, acrescentando, que, estatisticamente, a área do Mergulhão não tem um alto índice de ocorrências. Sobre o policial que teria se recusado a prestar ajuda à representante de atendimento, o assessor alegou que todo o efetivo deve atender a comunidade, independentemente de sua área de atuação, comunicando o fato à companhia responsável pela região. "Caso isso não ocorra, o cidadão pode procurar a PM para fazer sua reclamação."
Melhorias
Quanto à questão de iluminação, a Prefeitura informou que o Mergulhão será contemplado com o projeto de reestruturação urbanoviária, que prevê maior segurança para pedestres e fluidez do transporte coletivo. Dentro das melhorias, a área irá receber 30 postes de aço, que serão divididos entre o Mergulhão e a Praça Alfredo Lage, no Manoel Honório. Os postes com lâmpadas apagadas flagrados pela Tribuna, conforme a Prefeitura, foram desligados, para a realização da substituição, que vem acontecendo ao longo da Avenida Rio Branco.
Segundo a MRS, a cada 15 dias, uma equipe percorre o trecho entre os bairros Retiro e Ponte Preta, com a realização de capina, poda e retirada de lixo e entulho da linha férrea. A empresa ainda solicita à população que não jogue lixo ao entorno da via, já que, em 2011, foram recolhidas 266 toneladas de lixo na área urbana de Juiz de Fora.








