Moradores da Zona Sul buscam pertences em escombros

Carro atingido pelos escombros do deslizamento
O dia seguinte ao deslizamento da encosta que destruiu um prédio e duas casas que abrigavam sete moradias no Bairro Jardim de Alá, na Zona Sul, foi marcado pela busca de objetos e documentos perdidos em meio aos escombros. Ao mesmo tempo, a Defesa Civil orientava a retirada da terra feita com auxílio de máquinas e caminhões para a desobstrução da Rua Manoel Moreira de Morais. A ocorrência também levou à interdição preventiva de 12 casas e um estabelecimento comercial, na mesma via. Um dos momentos mais emocionantes para os moradores foi o resgate, na manhã de ontem, da cachorra poodle Bebel, que sobreviveu após ficar mais de 24 horas sob os destroços. Para a camareira de hotel Heloisa Helena Moura, 47 anos, achar seu animal de estimação foi um consolo diante da perda de seu apartamento e de um carro Corsa, estacionado na garagem do prédio na hora do desmoronamento. A cadela apresentava alguns ferimentos leves e precisou ser internada em uma clínica veterinária. A camareira também conseguiu recuperar roupas e um micro-ondas.
A encosta cedeu por volta das 9h de segunda-feira, carregando uma casa de dois andares da Rua Jacinto Ignácio de Moraes e destruindo um prédio de dois andares, com quatro apartamentos, e uma residência que ficavam embaixo, na Rua Manoel Moreira de Morais. Ninguém ficou ferido, mas as pessoas não tiveram tempo de carregar seus pertences, já que os sinais de um possível desmoronamento, como rachaduras no passeio e estalos, aconteceram menos de uma hora antes.
A jovem Taís da Silva, 18, moradora do imóvel ao lado do edifício, contou que foi abrigada por um amigo, enquanto o restante da família está em casa de parentes. "Hoje (ontem) fiquei acompanhando o trabalho das máquinas e consegui pegar algumas roupas e documentos." Ela disse ainda não acreditar no desastre. "Nem consegui dormir direito à noite. Qualquer barulho, achava que era algo caindo."
Problemas já conhecidos
Os moradores da área acreditam que um entupimento na rede de esgoto da Rua Jacinto Ignácio de Moraes, relatado há mais de um ano, possa ter contribuído para o desmoronamento. Serviços como fechamento de fendas e buracos no calçamento também foram solicitados à Prefeitura por vereadores, no ano passado, a pedido da comunidade. Em janeiro de 2011, parte do talude havia deslizado, soterrando uma casa da Rua Manoel Moreira de Morais. No final da tarde de ontem, moradores estenderam faixas e queimaram pneus pedindo avaliações de risco na via.
A assessoria da Cesama informou que técnicos da companhia visitaram o local e não constataram vazamento anterior ao deslizamento ou rompimento da rede após o acidente. Já a Defesa Civil afirma que não há problemas de drenagem na região e que há um ano técnicos orientaram moradores do prédio a construir muro de contenção.
De acordo com o subsecretário de Defesa Civil, major José Mendes, as causas do desmoronamento serão avaliadas por um engenheiro perito da Polícia Civil de Belo Horizonte. "Ele vai fazer um estudo do solo e das características do escorregamento." Segundo ele, a Rua Manoel Moreira de Morais não seria liberada para o trânsito ontem. Até às 14h, apenas oito caminhões carregados com terra saíram do local. No final da tarde, 30% do volume total de terra já haviam sido retirados. Na Rua Jacinto Ignácio de Moraes, a Secretaria de Obras construirá um meio-fio para evitar que correntes de água passem pelo terreno. "Se continuar descendo água, vai desmoronar mais, porque essa encosta é vulnerável", enfatizou o major.
Isenção de IPTU
Ontem a Câmara Municipal enviou requerimento ao prefeito Custódio Mattos solicitando isenção temporária de IPTU aos moradores de casas invadidas pelas águas no Bairro Industrial, na Zona Norte, e residências em situação de risco, inclusive as interditadas pela Defesa Civil.
Em 10 dias, choveu 80% do previsto para o mês
Entre meia-noite e 17h15 de ontem, a Defesa Civil registrou 41 ocorrências em Juiz de Fora. A região mais afetada pelas chuvas foi a Norte, com 11 chamados, seguida por zonas Sul (10), Sudeste (6) e Nordeste (6), Leste (5), Centro (2) e Oeste (1). A maior parte das ligações foi por ameaça ou escorregamento de talude e orientações técnicas preventivas. Em Filgueiras, região Nordeste, um deslizamento de terra deixou a Rua José Pitta de Castro em meia pista. Apenas veículos pequenos conseguiam passar pelo local.
De acordo com a estação automática do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), choveu, nos dez primeiros dias de janeiro, mais de 80% do esperado para todo o mês. Ontem, até as 19h, foram registrados apenas 1,8 milímetros de precipitação no município. Segundo o 5º Distrito de Meteorologia, de Belo Horizonte, o volume de água deve diminuir entre hoje e sexta-feira, mas a chegada de uma nova frente fria à região pode trazer fortes pancadas de chuva no final de semana. A tendência é de temperaturas em elevação em todo o estado. A previsão para Juiz de Fora hoje é de mínima de 16 e máxima de 18 graus.
Já o Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (Cptec), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), prevê que as nuvens se dissipem e o sol volte a aparecer a partir de amanhã, mas o calor e umidade típicos do verão manterão as condições para a ocorrência de pancadas rápidas e localizadas. "O fenômeno chamado Zona de Convergência do Atlântico Sul vinha provocando chuvas contínuas. Esse sistema já começou a enfraquecer, e agora a tendência é que o sol ajude a evaporar os rios e a água que está encharcando os solos, mas, em compensação, teremos temporais fortes de verão, que ainda colocam a região em risco", explica o meteorologista do Cptec/Inpe Olívio Bahia do Sacramento Neto.
*Colaborou Kelly Scoralick








