Além Paraíba fica devastada após chuvas

Destroços fecham ruas em Jamapará, distrito de Sapucaia
A tragédia vista no ano passado, na Região Serrana do Rio de Janeiro, voltou a se repetir, mas, desta vez, o alvo foi a divisa entre Minas Gerais e Rio de Janeiro. A cidade de Além Paraíba, a 111 quilômetros de Juiz de Fora, fica na área limítrofe entre os estados, sendo a mais atingida com as últimas chuvas do lado mineiro. Já do outro lado, o distrito de Jamapará, pertencente a Sapucaia, mas separado de Além Paraíba apenas por uma ponte, sofreu com uma avalanche de pedras e terra, que soterrou dez casas, deixando pelo menos 20 mortos. Até a tarde de ontem, 13 corpos já haviam sido encontrados. A Tribuna foi à região e, ainda no trajeto, encontrou uma mostra do cenário de devastação: deslizamentos de terra, pista escorregadia em vários pontos e uma enorme cratera no km 802 deixam o acesso pela BR-116 difícil e perigoso.
Já na área urbana, a força das águas destruiu ruas inteiras, derrubou muros, retorceu cercas e carregou imóveis. Uma casa de dois andares foi arrancada, indo parar na calha do rio, a cerca de 150 metros à frente do antigo endereço. Automóveis foram carregados, e muitos, encontrados a quase um quilômetro de distância. Segundo levantamentos da Prefeitura e da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil, pelo menos dez mil pessoas foram afetadas em Além Paraíba, o que representa cerca de um terço da população do município. Duas mil ficaram desalojadas e 11 estavam em abrigos na tarde de ontem.
Entre os que perderam pertences, carros e até lojas e casas, a maioria não sabe como será o recomeço. A desolação é maior entre aqueles que, além de terem visto o imóvel acabar em minutos, perderam parentes. É o caso da menina Leandra Alves, 12 anos. A adolescente estava em casa com a mãe, 32, a irmã, 7, e o irmão, 2, quando a enxurrada invadiu bruscamente o imóvel. Segundo os vizinhos, uma onda se formou na Rua José Francisco dos Santos , conhecida como Rua das Mangueiras, entre os bairros Jardim Paraíso e Vila Caxias, levando tudo que havia pela frente e caindo diretamente sobre a casa, que fica em nível abaixo da via.
"A gente estava deitado, sem dormir, porque chovia muito. O vaso explodiu e começou a entrar água dentro de casa e encher tudo. Minha mãe colocou meus irmãos sobre a cômoda, mas as paredes começaram a tremer e, de repente, a água invadiu. Perdi todos de vista. Era muita água, estava tudo escuro. Só me salvei porque o colchão boiou e fiquei em cima dele. Não sei nadar. Quando passou perto de uma janela, agarrei na grade e gritei um moço, que me ajudou. Não vi mais ninguém. Achei que todo mundo tivesse morrido, e só ontem consegui reencontrar minha irmã, que foi salva por um vizinho, e fiquei sabendo que minha mãe e meu irmão não conseguiram se salvar", contou a garota à Tribuna, ontem, quando voltava do sepultamento da família. Ainda sem compreender a tragédia, mostrava as escoriações causadas durante o momento que descia pela enxurrada, em meio a móveis, carros e escombros.
Letícia, a irmã de 7 anos, também viu a morte de perto, mas foi salva por um herói. O mecânico de fogões Wellington Luís Melo, Magal, como é conhecido na cidade, estava em casa, no segundo andar, quando ouviu gritos de socorro. "Os vizinhos estavam iluminando a água para ver um carro que tinha descido na enxurrada. Fiquei curioso e vim para janela. Vi a mulher gritando e fiquei sem reação. Logo depois, veio a menina. Não tive dúvidas e pulei na água, que, na hora, estava com uns quatro metros de altura. Não enxergava nada, tive que procurá-la, mas consegui segurá-la e ficamos agarrados na árvore. Ela chorava muito, pedia para eu não deixá-la ir. O vizinho jogou uma mangueira. Amarrei várias vezes na cintura dela e subimos para a laje dele. Até que ontem as tias vieram buscá-la", relatou Magal, que tem uma filha da mesma idade de Letícia. "Ontem (segunda), quando deitei abraçado à minha filha, tive a certeza que faria tudo de novo. Foi pouco o que fiz. Lamento não ter pulado atrás da mãe dela. Só queria ter tido mais dez segundos para agir." Na manhã de ontem, os corpos de Aparecida Alves e Igor Alves Moraes foram sepultados. Além das duas vítimas, um homem morreu soterrado e uma quarta pessoa está desaparecida.








