Rede de apoio oferece conforto a mulheres em tratamento de câncer
Ao longo do mês, Tribuna publica série de reportagens sobre conscientização e prevenção do câncer de mama e de colo do útero
Juiz de Fora reúne diversos trabalhos voluntários que funcionam como rede de apoio a mulheres em tratamento de câncer, oferecendo serviços de cuidado e escuta, como rodas de conversa, artesanato e atividades físicas. Este é o tema da primeira reportagem da série da Tribuna sobre conscientização e prevenção do câncer de mama e de colo do útero, que será publicada durante o Outubro Rosa.
A psicóloga Fernanda Ciribelli acredita que as redes de apoio ajudam na humanização do tratamento, abrem espaço para as pacientes colocarem as suas questões, ao mesmo tempo em que aprendem uma atividade nova, para que consigam ressignificar o processo e descobrir possibilidades para além da doença. Fernanda é especialista em psicologia hospitalar com a área de estudo em câncer de mama e trabalha na Ascomcer. “O setor de psicologia tenta retirar a paciente de ficar no lugar de doente 24 horas para elas conseguirem ressignificar essa nova fase. Muitas pacientes não sabem que podem estar em tratamento e mesmo assim fazer uma atividade física, por exemplo.”

CrôVersando
Durante o isolamento social causado pela pandemia, a professora de enfermagem Adriana de Oliveira e seu esposo Marco Antônio Nascimento começaram a fazer crochê e decidiram criar o CrôVersando: uma iniciativa voluntária que une artesanato e boa prosa. Adriana conta que começou a atividade como forma de terapia após a perda do cunhado e do filho de Marco. “Como foi bom para mim, imaginei que seria bom para outras pessoas.” Adriana e Marco começaram então a gravar vídeos conversando enquanto faziam crochê e divulgavam num canal do YouTube.
Antes da pandemia, Marco já era voluntário da Ascomcer, mas realizava outras atividades, e, com o retorno ao presencial, ele propôs levar o CrôVersando para as pacientes em tratamento de câncer. O projeto acontece todas as sextas-feiras funciona da seguinte forma: durante uma hora e meia, o grupo produz crochê, e por mais meia hora, conversam. “É um espaço para distrair, colocar para fora sentimentos negativos, é um momento mágico para nós e elas saem de lá renovadas e fortalecidas”, conta o idealizador.
Atualmente, cinco mulheres participam do projeto. Adriana conta que no último encontro, na semana passada, uma das pacientes relatou que estava muito nervosa em casa e chegou a pensar em tomar uma medicação para acalmar, mas decidiu terminar o crochê que já estava em produção e relaxou. “Para ela, estar fazendo esse trabalho é importante para mostrar que ela está bem, que ela tem condições de fazer, porque algumas pessoas olham para as mulheres em tratamento de câncer como se elas estivessem morrendo, como se fosse o fim para elas e não é, elas têm esperança, condições de trabalhar e isso ajuda muito na saúde mental delas.”
Adriana também destaca o caráter de capacitação que o projeto tem, já que ao fim da oficina as mulheres podem usar o que foi ensinado para além da terapia, como fonte de renda também. No momento, o CrôVersando é apenas para pacientes da Ascomcer.
Maple Tree
A Maple Tree é uma organização não governamental (ONG) norte-americana, que há dez anos atua ajudando pacientes em tratamento de câncer através do exercício físico. O Brasil foi o segundo país a integrar a iniciativa e, atualmente, sete nações compõem o projeto. Em fevereiro deste ano, Juiz de Fora passou a ser uma das cidades que participam do movimento, uma parceria entre o educador físico Henrique Mansur com os professores Carlos Gabriel de Lade e Antônio Paulo Castro, e a Ascomcer. Henrique conheceu a Maple Tree por meio da mastologista Alice Francisco, que trouxe a ideia para Sorocaba (SP). “O diagnóstico de um câncer é um momento muito difícil e quanto maior a rede de apoio a essa paciente, menos doloroso, menos complexo, menos difícil é passar por essa etapa”, reflete o educador físico.
As atividades voltadas para musculação e treinamento aeróbico são realizadas duas vezes por semana na Ascomcer. No total, 17 pacientes fazem uso do serviço, sendo que 12 realizam as atividades no espaço da Ascomcer e cinco são atendidas em parceria com o studio de pilates WMais, localizado na Zona Nordeste, que cedeu o espaço para atender pacientes da região que não têm condições de ir até a Ascomcer, na Zona Sul.
“Essas atividades ajudam as pacientes de várias formas, tanto na questão específica do câncer, como na diminuição do tumor e da recidiva, quanto nas consequências que o tratamento traz, como fadiga e dor. O exercício físico trabalha na questão fisiológica, mas também ajuda nas questões sociais e psicoemocionais, ajudando a enfrentar o tratamento”, explica Henrique. O projeto é gratuito e atualmente acontece apenas com pacientes da Ascomcer, mas a Maple Tree tem a meta de ampliar o atendimento para outros públicos. Para isso, precisam arrecadar recursos ou fechar parcerias. Os interessados podem entrar em contato pelo instagram @mapletreebrasil.
Projeto Vitória: tratamento para melhorar bem-estar
Quando começou a visitar os eventos sociais da Ascomcer junto com alunos de graduação e pós-graduação de estética e cosmética, a fisioterapeuta e esteticista Giselle Mauler teve a ideia de criar o Projeto Vitória com foco na saúde e bem-estar das pacientes que estão passando por tratamento de câncer no instituto. “A ideia surgiu da percepção da necessidade que os pacientes têm de se sentirem acolhidos por tratamentos que melhorem seu bem-estar”, conta Giselle.
A iniciativa voluntária realiza procedimentos terapêuticos manuais para a mobilidade e estéticos com o objetivo de melhorar os movimentos corporais, promover relaxamento, alívio da tensão e ansiedade, além da redução da dor muscular e edemas pós-operatórios. Os encontros acontecem às quartas-feiras no período da tarde na Ascomcer e são voltados para pacientes da unidade.
“O nosso propósito é instalar saúde e bem-estar através de condutas integrativas, já que a integrativa busca conhecer a causa do problema (doença) e proporcionar a melhor forma de tratamento”, explica a fisioterapeuta, afirmando que o procedimento impacta diretamente nas atividades cotidianas e na convivência familiar e social. Quem tiver interesse em colaborar como voluntário no projeto pode entrar em contato através do instagram: @espaco.gisellemauler ou @prof.gisellemauler.
Estácio oferece exames preventivos gratuitos
Durante a campanha do Outubro Rosa, o Consultório de Enfermagem do Centro Universitário Estácio Juiz de Fora vai oferecer, de forma gratuita, o exame preventivo do câncer de colo do útero, conhecido como papanicolau, e exames clínicos de mama. O exame papanicolau é o principal método para o diagnóstico precoce de lesões cancerígenas no colo do útero, além de ser indicado para detectar infecções, incluindo a provocada pelo HPV. A orientação é para que toda mulher que tem ou já teve vida sexual ativa realize o exame preventivo periódico, principalmente as que têm entre 25 e 64 anos.
De acordo com a enfermeira Eveline Silva, responsável pelo serviço, o objetivo do projeto é atender as mulheres que trabalham fora ou não têm com quem deixar seus filhos durante o dia para assim ampliar a prevenção do câncer de mama e de colo do útero para todo o público. “Fazer o diagnóstico da doença bem no início, antes que a mulher tenha sintomas, permite que o diagnóstico seja feito cedo e reduza a mortalidade por câncer de colo do útero. O exame preventivo é indolor, simples e rápido. Pode, no máximo, causar um pequeno desconforto, que diminui se a mulher conseguir relaxar”, explica a enfermeira.
Para agendar o atendimento, a paciente pode entrar em contato com o consultório através do WhatsApp (32) 3249-3609. O horário de funcionamento é das 18h às 22h, de segunda a sexta, no Campus do Centro Universitário Estácio Juiz de Fora, localizado na Avenida Presidente João Goulart 600, sala 118, no Bairro Cruzeiro do Sul, Zona Sul de Juiz de Fora.
Serviço de fisioterapia do Hospital Universitário
Além desses serviços voluntários, o ambulatório de fisioterapia pélvica e oncológica do Hospital Universitário (HU) oferece atendimento a mulheres que vivenciaram diagnóstico de câncer de mama e passaram por cirurgia, seja ela conservadora ou mastectomia e tratamento. Os encontros acontecem nas manhãs de sexta-feira no HU e são voltados para pacientes no pré e no pós-operatório. As pacientes precisam estar em acompanhamento dentro do hospital e serem encaminhadas pelos médicos para participarem do serviço. O objetivo é trabalhar as disfunções de membros superiores decorrentes da cirurgia.
De acordo com a fisioterapeuta Priscila Almeida, responsável pelo projeto, 60% das mulheres hoje vão apresentar restrição de amplitude no movimento do ombro por até um mês no pós-operatório de câncer de mama, e dessas, 30% ainda vão permanecer com alguma sequela após um ano de cirurgia. “Por isso, é extremamente importante o encaminhamento dessas pacientes para a fisioterapia, porque isso vai impactar muito, tanto na vida laboral quanto no retorno das suas atividades diárias e na qualidade de vida dessa paciente.”
Entre as atividades estão exercícios que trabalham a amplitude de movimento do ombro, como treino funcional, liberação miofascial, alongamentos, entre outros. “Nós sempre abrimos um espaço de fala para as pacientes relatarem quais dores estão sentindo, quais foram as dificuldades durante a semana com relação a sequelas deixadas pela doença, entre outras necessidades de assuntos sugeridos por elas. Recentemente, por exemplo, trabalhamos uma questão extremamente importante de ser falada, que é a sexualidade vivenciada pela mulher com câncer.”
Para Priscila, a troca entre as oitos participantes do grupo funciona como rede de cuidado dentro do SUS. “Essa oportunidade de se encontrar semanalmente, de trazer as suas angústias, dificuldades e de ver que a outra também está passando pelas mesmas situações é fundamental. Nosso objetivo como fisioterapeutas é oferecer qualidade de vida para esse paciente. Ela recebeu o diagnóstico, mas a vida precisa continuar, então a gente precisa oferecer e oportunizar uma vivência com qualidade de vida.”









