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JF já registra 50 assassinatos, metade de todo o ano passado


Por Renata Brum e Marcos Araújo

09/04/2013 às 06h00

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O corpo de um homem não identificado, localizado com dois tiros na cabeça, no Bairro Ipiranga, Zona Sul, é a 50ª vítima de homicídio registrado em Juiz de Fora este ano, conforme levantamento da Tribuna. O crime ocorreu cinco horas depois de um rapaz de 27 anos ter sido morto no Furtado de Menezes, Zona Sudeste, com, pelo menos, quatro perfurações de arma de fogo. O número de óbitos violentos, ocorridos em três meses e uma semana, já é mais da metade do total de assassinatos cometidos no município em 2012, quando 99 pessoas pessoas perderam a vida em função desse tipo de crime e quase o total contabilizado em 2011, ano no qual a cidade acumulou 52 casos. O maior avanço da criminalidade violenta foi registrado na Zona Norte(19 registros, o que representa 38% dos casos), seguido de perto pela região Sudeste (15, ou seja, 30%) (ver quadro na capa do jornal). De acordo com especialistas, o cenário pode ser comparado ao que ocorreu com muitas capitais brasileiras, onde os homicídios cresceram proporcionalmente ao aumento da disponibilidade de armas de fogo. A situação foi agravada na cidade com o desvio de armamentos que já haviam sido entregues ao Exército pela Polícia Federal e retornaram ilegalmente às ruas, como mostrou denúncia da Tribuna em 15 de março.

Dos 50 assassinatos, 40 foram praticados com armas de fogo, ou seja, 80% do total. Para o membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e coordenador do Núcleo de Estudos Sociopolíticos da PUC Minas, Robson Sávio, os números mostram a relação direta armas-mortes. "Há uma tendência em demonizarmos a droga, em jogar o aumento da violência na conta do tráfico. Com certeza, faz muitas vítimas, mas não é o tráfico em si o responsável isolado. Os jovens que querem se dar bem no tráfico se armam, mas outras pessoas também. E a quantidade de armas disponíveis e, paralelamente, a falta de controle do Estado resultam no quadro atual. Tanto que, no Brasil, 40% a 45% dos homicídios têm motivações fúteis. E por quê? Porque as pessoas estão armadas. A arma é o vetor dos homicídios."

O estudioso destaca ainda que "Juiz de Fora assiste a um padrão de violência que já aconteceu nas capitais." Fato que, segundo ele, pode ser explicado por uma conjugação de fatores. "Um deles é o recrudescimento do tráfico, levando ao aumento da disputa por espaços, e tudo isso tem relação com armamentos, pois eles buscam poderio nas armas. Então, quanto mais disputa, mais armas, mais mortes."

Assessor de comunicação da 4ª Região da Polícia Militar, major Paulo Alex Moreira concorda. "Há uma correlação estreita entre drogas e armas. Até mesmo no atendimento das ocorrências, o autor, por vezes, relata: ‘Matei porque ele me ameaçou por conta de uma dívida de droga que eu tinha’." Ainda segundo Paulo Alex, as estatísticas também apontam para a mesma direção. "Tecnicamente temos 37 ocorrências, com 39 vítimas de homicídios porque registramos somente as mortes no local ou as que aconteceram antes do encerramento do Registro de Evento de Defesa Social (Reds). E das 37 ocorrências, 31 têm ligação com o tráfico ou uso de drogas, rixas ou vingança. Apenas seis casos tiveram outras motivações."

O assessor ainda destacou a preocupação com a atual situação. "Há um indicativo de que os cidadãos infratores estão tendo acesso aos armamentos que foram para a rua ilegalmente. Tanto que, na comparação do primeiro trimestre do ano passado com o deste ano, houve um aumento de 55% no número de apreensões, crescendo de 67 para 104. Mas, diante dessa conjuntura, temos atuado em várias frentes para minimizar as mortes, acirrando o contato com as polícias Civil e Federal, acompanhando os casos de lesão corporal, tentativas de homicídios e agressões que têm probabilidade de virar novos homicídios, e realizado operações pontuais repressivas."

Assim como a PM, a Polícia Civil está preocupada com a multiplicação das armas em circulação. Como aponta o delegado chefe da 1ª Delegacia Regional de Polícia Civil, Paulo Sérgio Xavier Virtuoso, o aumento dos crimes fatais está diretamente ligado à facilidade de obtenção dos artefatos. Ele observa que a instituição vem trabalhando de forma a dar uma rápida resposta no que tange à identificação da autoria dos homicídios, como forma de colaborar com sua redução. O policial destaca que, em 2012, a Polícia Civil atingiu índice de 76% de apuração dos casos. "Esse ano, já temos 64% dos assassinatos com suas autorias apontadas e com seus pedidos de prisão devidamente solicitados à Justiça."

Já Robson Sávio enfatiza que, para o controle das mortes violentas, é preciso uma mudança de paradigma. "É preciso uma governança nova. A Polícia Militar precisa deixar de apagar incêndio, deixar de agir na improvisação e passar a trabalhar com planejamento e diagnóstico. Por outro lado, a polícia judiciária, que hoje está deficitária, não é capaz de decifrar os crimes e dar uma resposta rápida na identificação. É preciso também mais agilidade na Justiça Criminal. Hoje, somente 8% dos autores de homicídios são processados integralmente. Isso sinaliza que matar no Brasil não dá punição." O especialista em segurança pública ainda defende a necessidade de políticas públicas. "O Poder Público local também precisa agir simultaneamente, oferecendo oportunidades de emprego e renda, lazer, escola em tempo integral e assistência social. Sou um dos idealizadores do programa estadual ‘Fica vivo’, de redução de homicídios, mas também sou crítico e sei que um município, com força de vontade, pode fazer melhor do que o projeto prevê."

Há pelo menos sete anos, a cidade aguarda a implantação do projeto em Juiz de Fora, entretanto, a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) informou que não há data para a implementação, porém, adiantou que o titular da pasta, Rômulo Ferraz, estará na cidade no dia 10 de maio para discutir as questões.

 

 

Adolescente confessa morte no Ipiranga

Nesta segunda-feira (08) o delegado Eurico Cunha Neto, da 1ª Delegacia de Polícia Civil, informou que um adolescente, 17, apresentou-se à unidade e teria confessado o crime cometido no Bairro Ipiranga, alegando que a motivação seria uma dívida de droga que teria com a vítima. O adolescente alegou que teria dado roupas e uma bicicleta à vítima em troca de droga, porém, só teria recebido uma parte do combinado. "Ele afirmou que pegou a arma emprestada de outro menor de idade e atirou contra o suspeito quando ele saía de um bar," disse Eurico. O suspeito foi ouvido e liberado, sendo instaurado um procedimento de apuração de ato infracional. Um revólver de calibre 32, que teria sido utilizado no assassinato, foi apreendido e encaminhado para a perícia.

Eurico também confirmou que, até esta segunda, o corpo da vítima aguardava por identificação no IML. Ela foi localizada caída no chão, na Rua Bady Geara, por volta das 4h de domingo. Segundo o boletim da Polícia Militar, uma testemunha teria acionado os policiais até o local. O homem negro, de aproximadamente 30 anos, já estava sem vida e apresentava sangramento na região da cabeça. A vítima usava blusa de cor vermelha, bermuda clara e calçava chinelos.

Já no sábado, Luís Fernando Souza da Silva, 27, foi morto com tiros no dedo indicador da mão esquerda, no braço direito, tórax, pescoço e algumas perfurações na cabeça. Ele foi encontrado pela PM, por volta das 23h, na Rua Carneiro da Silva, no Furtado de Menezes. Como apontado no documento policial, moradores se recusaram a dar informações aos policiais, temendo represálias. Entretanto, a motivação do fato, conforme a PM, seria o tráfico de drogas, uma vez que dois suspeitos foram identificados e, apesar das buscas, não foram capturados. A PM também recolheu, próximo ao corpo de Luís Fernando, alguns cartuchos deflagrados e outros intactos, além de R$ 102 na roupa da vítima.

Responsável pela 6ª Delegacia, na Região Sudeste, segunda área com maior índice de mortes violentas, o delegado Carlos Eduardo Rodrigues informou que abriu inquérito para investigação do caso e afirmou que os homicídios registrados esse ano na sua região já estão apurados. "Praticamente todos já têm autoria identificada. Só nos resta chegar ao nome do autor de um homicídio consumado e outro tentado", garantiu o delegado, afirmando que, na maioria dos casos, vítimas e autores possuem alguma ligação com o tráfico de entorpecentes.