Carroças dobram tempo de retenções no tráfego
Um acidente envolvendo uma carroça, que descia pela Rua Antônio José Martins e acabou derrubando material de construção sobre um carro que estava estacionado na Avenida dos Andradas, chama atenção para a circulação deste tipo de veículo de tração animal no Centro e até mesmo em corredores do polígono central de Juiz de Fora onde este tráfego é proibido (ver arte). Além do risco de acidentes, são frequentes os flagrantes de desrespeito à legislação municipal, como o presenciado pela Tribuna, na Avenida Rio Branco, próximo à Catedral Metropolitana, em horário de rush, por volta do meio-dia. A carroça levava outros dois cavalos amarrados, complicando ainda mais o escoamento do tráfego na via, onde circulam, em média, 37 mil veículos diariamente. Segundo especialistas, situações como esta são responsáveis por dobrar a fila de automóveis na rua em horários de maior movimento, o que complica o tráfego já sobrecarregado. Outro flagrante foi feito na mesma avenida, entre a São Sebastião e a Floriano Peixoto, onde o carroceiro chegou a estacionar na calçada. Também foram encontradas carroças na Floriano Peixoto e no Viaduto Augusto Franco, onde há sinalização proibindo este tipo de trânsito. Outro abuso foi registrado na Rua José Kalil Ahouagi, onde um carroceiro circulava na contramão.
Atualmente cerca de 150 carroças estão cadastradas para exercer a função de fretamento, de acordo com a Secretaria de Atividades Urbanas (SAU). Conforme o consultor e mestre em políticas de transporte e trânsito José Ricardo Daibert, a lentidão das carroças pode ser comparada ao transtorno ocasionado por uma obra que fecha uma das faixas de circulação. Segundo ele, a fila de veículos, em momentos de pico, pode até dobrar, aumentando em 50% o tempo do percurso. "Se a retenção já provoca, por exemplo, uma fila de cem metros, a carroça vai ser responsável por transformá-la em outra, de 200 metros. Daibert faz uma analogia do sistema de trânsito ao de uma rede de água, com várias tubulações. "Quando se fecha uma delas, retendo o fluxo, as outras saídas ficam comprometidas."
Para o especialista em engenharia de transporte José Luiz Britto Bastos, a circulação de veículos de tração animal deve ser extinta, não apenas na área central, como também em alguns bairros. "Não se justifica, em pleno século XXI, termos este tipo de veículo na cidade. É um entrave para todos porque atrasa o trânsito e coloca a vida do condutor, do pedestre e até do animal em risco."Britto argumenta que o número de automóveis em circulação no município é crescente, e já ultrapassa a marca de 190 mil. "O problema é complexo, porque nossas ruas não acompanharam o aumento da frota. As carroças pioram a situação ainda mais." De acordo com o especialista, a Prefeitura deveria tomar medidas mais enérgicas a fim de proibir a atividade. "É um veículo lento que atrapalha a fluidez."
Na opinião da secretária de Atividades Urbanas (SAU), Sueli Reis, são poucos os carroceiros que desrespeitam as determinações previstas no Código de Posturas, e a dificuldade de puni-los é grande, porque o flagrante é dificilmente identificado. Perguntada sobre a posição do Executivo diante da possibilidade de proibir o trabalho na área urbana, a secretária afirma que atualmente não existe esta hipótese. "Estas pessoas não têm habilidades para ter outra função. Estão há muitos anos nesta atividade." Para evitar irregularidades, como as flagradas pela Tribuna, Sueli afirma que os servidores da SAU vão intensificar a fiscalização, principalmente na área central, onde, em vários trechos, obras em andamento já prejudicam a boa fluidez do trânsito.
Conforme a chefe do Departamento de Fiscalização da SAU, Graciela Vergara Marques, a legislação não prevê multa para quem desobedece às leis. "Não há como aplicar a penalidade. Por isso a secretária mantém diálogo aberto com estas pessoas para que eles se conscientizem." Para Graciela, mesmo que houvesse a possibilidade de multá-los, este não seria o caminho, principalmente pela situação social e financeira dos carroceiros.
Proibição é debatida com comunidade
O vereador Noraldino Júnior (PSC) deve se reunir, na próxima semana, com representantes de entidades ligadas à proteção de animal. O objetivo é coletar cerca de 18 mil assinaturas na cidade (o que representa 5% do eleitorado) para que seja criado um projeto de iniciativa popular que trate da situação dos carroceiros e abusos contra animais no município. Noraldino espera que, em um prazo de dois anos, o serviço de transporte por veículos de tração animal seja extinto na cidade. A ideia é que a Prefeitura proíba, após aprovação do projeto, que novos profissionais exerçam a atividade. Para quem já atua no ramo, a proposta é que haja inserção em programas de qualificação profissional.
Segundo Noraldino, a proposição surgiu a partir da opinião da população e de uma conversa com os próprios carroceiros. "Além de atrapalhar o trânsito, eles admitem que o trabalho é desgastante porque são obrigados a ficarem embaixo de chuva e sol quente. Sem contar que alguns tratam os animais como objeto, e isso não está correto."








