Criminosos de JF investem em armamentos para enfrentar polícia
A crescente audácia dos bandidos é visível nas ocorrências diárias em Juiz de Fora. Só no último mês, em pelo menos três situações, suspeitos trocaram tiros com a Polícia Militar em bairros distintos. As ocorrências evidenciam ainda que a criminalidade vem se armando cada vez mais e se preparando para o enfrentamento, com acesso facilitado a armas e equipamentos de uso restrito ou de venda controlada, como os coletes à prova de bala. Somente no último mês, dois desses coletes foram recolhidos com traficantes. Para o coordenador do Centro de Estudos e Pesquisas em Segurança Pública da PUC/Minas (Cepesp), Luis Flávio Sapori, os episódios recentes de disparos contra à polícia e de apreensões de armas de maior poder letal entre os criminosos devem acender o sinal de alerta na cidade. um sinal de preocupação que aponta para a maior preparação e sofisticação do tráfico de drogas na cidade
Conforme noticiado pela Tribuna, no dia 30 de outubro, três adolescentes suspeitos de efetuar disparos na Praça Jeremias Garcia, em Benfica, Zona Norte, trocaram tiros com policiais militares durante a fuga pelas ruas do Bairro Vila Esperança. No dia 24, o suspeito de arrombar uma loja em São Pedro, na Cidade Alta, também disparou contra policiais no momento da perseguição. Um dia antes, uma viatura da Rotam foi alvejada durante patrulhamento no Bairro São Benedito, região Leste, e um militar do Grupo de Ações Táticas Especiais chegou a ser atingido por estilhaços.
A Tribuna conversou com um homem que foi abordado pela PM na Cidade Alta por estar usando um colete balístico, que acabou apreendido. "Estava usando mesmo, porque já levei cinco tiros e quase morri por conta de tráfico." Indagado sobre a origem do aparato, ele respondeu que "é fácil conseguir. Você compra pela internet mesmo. Este (o apreendido com ele) era produto de roubo, que eu consegui e enchi com mais placas de aço". Já no São Benedito, o suspeito preso após as viaturas terem sido recebidas à bala, estava com duas pistolas carregadas de uso restrito, uma 380 milímetros e outra ponto 40, e também usava um colete à prova de balas. Na região do confronto, uma carabina ponto 30, arma semelhante a um fuzil, foi localizada pelos policiais em um matagal.
Arsenais
Em setembro, a Polícia Civil apreendeu um arsenal de armas e munições diversas em uma ação que desmantelou um esquema típico de crime organizado, envolvendo assassinatos encomendados e aluguel de armamento para o tráfico na Zona Norte da cidade. Segundo o delegado que comandou a operação na Vila Esperança, Rodolfo Rolli, o arsenal apreendido não surpreendeu. "Esperávamos até encontrar mais armas e estamos atrás de uma pistola 9mm. Mas eles tinham muito poder de fogo, porque apreendemos vários materiais utilizados para recarga de munições, o que mostra se tratar de crime organizado."
Já em junho, foram encontrados pela PM, em uma casa do Bairro Jardim Natal, também Zona Norte, uma granada, um simulacro de pistola 9mm, 65 cartuchos para fuzil 762, sendo 43 deflagrados, outros oito do mesmo calibre de festim. Também foram localizadas 17 munições intactas e três usadas de 9mm, seis projéteis calibre 380, cinco de 38 e um cartucho já deflagrado ponto 50. No mesmo endereço, ainda foram recolhidas vestimentas do Exército: cinco casacos militares, quatro calças, duas jaquetas, três bonés, boina, cinto e coturno.
‘Crime não pode tomar territórios’
Para o coordenador do Centro de Estudos e Pesquisas em Segurança Pública da PUC/Minas (Cepesp), Luis Flávio Sapori, que já ocupou o cargo de secretário de Segurança Pública do Estado de Minas Gerais, as recentes e recorrentes ocorrências de enfrentamento de policiais e de apreensão de armas de maior potencial servem como alerta. "Essa situação é um sinal amarelo. Não podemos relacionar isso ao fechamento do cerco ao crime no Rio de Janeiro, pois Juiz de Fora tem uma dinâmica própria, não sofre essas consequências. Não que isso não mereça atenção, merece e muita. As lideranças (do crime) estão crescendo, novas estão aparecendo, e elas estão se armando mais. Há ainda a ligação do tráfico com as gangues juvenis, o que faz com que conflitos banais do dia a dia, tornem-se confrontos armados, resultando em homicídios. Esse é o cenário de Juiz de Fora e merece ser visto com cautela."
Segundo Sapori, "as polícias precisam evitar que a criminalidade tente se apoderar de territórios da cidade, pois os bandidos estão dando sinais de que querem fazer isso." Segundo ele, há duas maneiras práticas de impedir que esse domínio ocorra. "É preciso que invistam na investigação dessas lideranças e desses grupos e que façam uma repressão mais intensa. Não basta apreender armas e prender, é preciso marcar presença ostensiva nesses territórios, não por um dia, mas por semanas e até meses, com intenção de dar a mensagem, o recado para esses grupos."
Conforme o assessor de comunicação organizacional da 4ª Região da PM, major Sebastião Justino, as medidas necessárias vêm sendo adotadas. "Essas ações não vão afastar a polícia. Pelo contrário, onde estiverem os bandidos, estaremos lá para fazer valer a presença do Estado. As medidas já vêm sendo adotadas com as apreensões desses tipos de armamentos e prisões."
PM e Civil garantem ter estrutura
A discussão sobre a necessidade de aparatos de segurança para que as polícias possam equiparar seu poder de fogo com o dos bandidos foi reforçada com a morte de um cinegrafista no Rio de Janeiro, durante confronto entre traficantes e policiais em uma favela no último fim de semana. Em meio ao debate, o especialista em segurança pública, Luis Flávio Sapori, diz que não acredita ser necessário aumentar o armamento das polícias. Ele defende que o caminho é a mudança das ações preventivas e repressivas. "As polícias de Minas estão muito mais equipadas do que há alguns anos, os armamentos são suficientes."
O assessor de comunicação da PM, major Sebastião Justino, garantiu que os aparatos são suficientes. "Hoje só sai sem colete quem quer, mesmo assim, indo contra determinação do comando." O assessor também explicou que o efetivo segue uma normatização de uso progressivo da força nas ações, e que os armamentos só são utilizados em situação extrema e em legítima defesa, já que a intenção é a preservação da vida. Ele destacou ainda que os militares são treinados nas áreas de inteligência e de percepção.
Já a assessoria de comunicação da Polícia Civil em Juiz de Fora informou que, como a linha da corporação é investigativa, ao contrário da PM, que é ostensiva, o uso de equipamentos de segurança, como coletes balísticos é mais indicado em operações. Nesses casos, ainda conforme a assessoria, toda equipe deslocada tem os aparatos necessários à disposição. A corporação acrescenta ainda que as últimas turmas formadas pela Academia de Polícia em Belo Horizonte (Acadepol) vêm recebendo kits com algema, arma e colete. Apesar disso, em algumas delegacias, o relato de policiais é de não há coletes para todos os investigadores e que muitas peças estão com validade vencida ou prestes a vencer. "Na nossa delegacia, por exemplo, só tem dois coletes, para quatro investigadores," afirma um policial, que preferiu não se identificar. Outra reclamação é quanto à escassez de munições. "Nós é que temos que comprar," reclama.








