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Criança de 11 anos é pega ao tentar furtar moto


Por DANIELA ARBEX E MICHELE MEIRELES

08/06/2016 às 07h00- Atualizada 08/06/2016 às 08h21

Uma criança de 11 anos e um adolescente de 14 foram flagrados, na noite de segunda-feira, tentando furtar uma motocicleta no Bairro Manoel Honório, Zona Leste da cidade. Segundo informações do documento policial, por volta das 20h, o dono da Honda CG, um homem de 29 anos, percebeu que os meninos tentavam ligar a moto usando um alicate e uma chave de fenda. Como não conseguiram, os garotos tentaram empurrar o veículo, mas foram surpreendidos pelo adulto. Eles foram detidos por populares até a chegada da Polícia Militar. A pouca idade dos garotos e a ousadia da ação surpreenderam a própria polícia. O caso lembra o do menino Ítalo, de 10 anos, morto na semana passada, em São Paulo, após furtar um carro de luxo. Na fuga, o garoto paulista foi baleado na cabeça por um policial.

Embora com desfechos diferentes, as ocorrências envolvendo as duas crianças, a de Juiz de Fora e a de São Paulo, têm muito em comum. Elas revelam a morte da infância e a incapacidade das políticas públicas de ajudar crianças pobres e negras, em sua maioria, a crescerem dentro de um sistema real de garantia de direitos com acesso a educação, a saúde, ao lazer e a cultura.

O comandante da 70ª Companhia da PM, capitão Carlos Vilaça, se mostrou preocupado com a participação de uma criança em um ato infracional e lamentou o fato de a polícia ter chegado na vida desse menino pelo aparato da repressão. “A família, que é a primeira referência da criança, está degradada. A escola, que é a segunda, também passa por problemas referentes à valorização profissional e uma educação voltada somente para direitos, esquecida dos deveres. Como policial, cidadão e, principalmente, como pai me choca uma ocorrência como essa pela gravidade da questão, que vai muito além da ação da Polícia Militar. A ocorrência por si só é o ápice de uma situação de vulnerabilidade social na qual esse menino está inserido por ausência da família e do aparato estatal. O contato que eu gostaria de ter com uma criança de 11 anos seria um contato preventivo, por meio de projetos sociais, porque o papel da Polícia Militar nesse caso é o de propagador de direitos sociais e não um papel repressivo.”

A psicóloga Nathália Meneghine lamentou o fato de a sociedade assistir passivamente a finais de vida precoces e trágicos. “Esses meninos são privados da infância, porque não vivem situações próprias desse período de vida, que é o lúdico, o brincar, a proteção familiar. Da mesma forma, eles não vivem a fase adulta, porque morrem muito cedo. Nunca me esqueci de um menino que atendi há alguns anos e que tinha sido pai na adolescência. Ele me disse que tinha que fazer filho cedo, porque sabia que ia morrer”, disse.

Segundo Nathália, o recorte racial e de renda está presente na juventude que morre no Brasil. Os negros e pobres são os mais atingidos. “Enquanto a política de segurança pública for pensada apenas pela ótica da repressão, meninos assim continuarão existindo, pois eles são produtos da nossa sociedade. Como um menino de 11 anos chega a isso? Precisamos pensar que esse é o resultado do funcionamento da nossa sociedade. O retorno da exclusão é a violência. A segurança pública não pode estar dissociada das políticas sociais, intersetoriais, do cuidado compartilhado”, destaca a psicóloga.

Abandono afetivo

No episódio do furto da moto no Manoel Honório, a criança de 11 anos foi entregue a sua mãe. Já o adolescente de 14 foi apreendido. Apesar de terem referência familiar, os dois meninos da cidade que cometeram o ato infracional têm vínculos fragilizados. O abandono afetivo, aliás, também é uma realidade na classe alta, mas para os filhos de famílias com melhor renda há outros caminhos. Filho da pop star Madona e do cineasta Guy Ritchie, Rocco Ritchie, 15 anos, foi fotografado recentemente embaixo de uma ponte, em Londres, fazendo uso de álcool e supostamente de droga. Geralmente, crianças envolvidas em atos infracionais são muito sozinhas, sem cuidados e sem a proximidade de um adulto que possa transmitir para elas valores humanos.

“A falta de afeto e a falta de um lugar na sociedade produzem situações que nos causam horror, como essa do furto da moto e a da morte do menino de 10 anos em São Paulo. Esse não é um discurso de vitimização do menino, mas de responsabilização da sociedade como um todo. Isso diz respeito a cada um de nós. Temos que abrir os olhos para um sistema que não é só uma mãe, um menino e uma família. É preciso mais igualdade de acesso e de qualidade de vida. O que cada um de nós deve fazer para essa sociedade ser mais inclusiva?”, questiona a psicóloga Nathália Meneghine.