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Retenções diárias revelam saturação do tráfego na UFJF


Por EDUARDO VALENTE

08/04/2012 às 07h00

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O trânsito no Campus da UFJF se transformou em um caos, com retenções em vários momentos do dia (ver quadro) próximo aos pórticos Sul e Norte e abusos de motoristas, que não dão vez aos pedestres nos traffic calmings instalados no anel viário. Apesar do fluxo intenso, que tira a paciência de quem enfrenta a lentidão no local com frequência, a universidade não tem um estudo técnico sobre o impacto deste tráfego. Apenas um levantamento realizado no ano passado por bolsistas da instituição, a pedido da Pró-reitoria de Infraestrutura, confirma o traçado como o principal caminho para os que seguem da Cidade Alta para a Zona Sul e vice-versa. O estudo aponta que entre 60% e 70% do fluxo são de veículos que estão de passagem. O levantamento foi feito em um dia útil, no período entre 7h e 8h30, mostrando que o mesmo carro que entrava por um pórtico saía pelo outro minutos depois.

Apesar de não haver dados sobre o número real de veículos que circulam no campus, na Avenida Itamar Franco (antiga Independência) próximo ao Pórtico Sul, são 70 mil automóveis transitando por dia, de acordo com a Settra. A secretaria chama a atenção, porém, para o fato de que não se pode afirmar que todos têm a universidade como destino. O total foi apontado em contagem volumétrica realizada pelo órgão no local antes da instalação do conjunto de semáforos e como parte de um estudo conjunto feito em outras interseções da cidade.

Construído na década de 1960, sem o objetivo de atender à demanda externa, o anel viário é hoje um lugar saturado. O crescimento populacional da região do Bairro São Pedro, que saltou de 29.313 habitantes no ano 2000, para 38.711 em 2010, conforme dados do último Censo Demográfico do IBGE, e o consequente aumento de automóveis têm causado um nó também no tráfego do entorno.

Perigo constante

Em alguns pontos do campus, os pedestres precisam esperar vários minutos até conseguir oportunidade de travessia. Mesmo com os redutores de velocidade, os condutores dificilmente dão preferência aos transeuntes. O excesso de velocidade e a imprudência dos motoristas são apontados por especialistas como agravantes, principalmente em horários de maior movimento, como 8h, 13h e 17h. Em um dos casos flagrados pela Tribuna, na sexta-feira, dia 30 de março, às 13h30, o estudante de economia Igor Lira, 20 anos, precisou aguardar a passagem de 17 carros para, finalmente, atravessar em cima da faixa para pedestres, próximo ao Pórtico Norte. O jovem estava acompanhado da estudante de história Amanda Mazzoni, 20. Eles só concluíram o trajeto após um breve intervalo no fluxo. Segundo Amanda, casos como esse são frequentes. "Geralmente quem permite nossa passagem são estudantes ou servidores. " A auxiliar de biblioteca Daniela Toretta, 27, afirma que a situação fica pior nos horários de pico. "Infelizmente não são todos que respeitam o trânsito."

Casos de imprudência de pedestres também foram presenciados. Algumas pessoas atravessam em locais não indicados, onde a velocidade dos veículos é superior aos 40km/h, regulamentados pelas placas de sinalização.

Acidentes

Em março, a Polícia Militar registrou dois acidentes perto da Faculdade de Educação Física, em direção ao Pórtico Sul. No dia 27 de março, um carro, conduzido por uma jovem de 22 anos, quase caiu no lago, batendo no meio-fio. A vítima foi socorrida e encaminhada ao HPS com ferimentos leves.

Na opinião do engenheiro e especialista em trânsito José Roberto Castanõn, a tendência é de que o quadro se agrave. "A UFJF não pode se responsabilizar por um problema que é da Prefeitura. O Executivo deveria tomar algum tipo de providência. O campus não foi feito para atender a demanda que hoje existe."

O pró-reitor de Infraestrutura da UFJF, Paschoal Roberto Tonelli, afirma que o trânsito está complicado em toda a cidade e não apenas no campus. "Nosso problema é apenas o reflexo de um crescimento desorganizado na Cidade Alta." Ele diz que um convênio está sendo negociado entre a universidade e a PM para trabalharem, juntos, a educação no trânsito.

‘Universidade não é passagem’, diz especialista

Embora não haja solução a curto prazo, a Settra recebeu, há cerca de dois anos, um estudo, sugerindo uma via alternativa que ligaria a Zona Sul à Cidade Alta. A pesquisa é de autoria do engenheiro e especialista em trânsito, José Roberto Castanõn, também membro do Departamento de Transportes da Faculdade de Engenharia da UFJF. Ele explica que o sistema viário da universidade foi elaborado na década de 1960 e, desde então, a única grande modificação ocorreu na reforma do anel, elaborada por ele, em 2005, e executada no ano seguinte. Na ocasião, foram planejadas ações para reduzir a velocidade dos carros no campus, como implantação de mão única, construção de plataformas de travessias e iluminação específica nas faixas para pedestres.

"É importante deixarmos claro que a universidade não é passagem. É um espaço da União em Juiz de Fora. Acontece que o volume de automóveis aumentou, e ninguém tomou providências nos últimos 30 anos." Conforme o estudo realizado por ele, se as intervenções sugeridas fossem adotadas, o número de veículos entrando no campus diminuiria consideravelmente. A alternativa proposta partiria do Pórtico Sul da UFJF, onde os automóveis circulariam em direção ao Dom Orione até o Estádio Municipal. Ao entrar pela Rua W, à direita, os condutores seguiriam até chegar à Avenida Presidente Costa e Silva, na altura da UPA de São Pedro. "Quando verificamos a situação do Pórtico Norte, descobrimos que, do total de veículos que passam em frente ao local, 60% entram no campus. A nova rota, somada às intervenções para desestimular o uso do anel viário, diminuiria os atuais transtornos."

A assessoria de imprensa da Settra confirma a existência da pesquisa, mas afirma que atualmente avalia outra concepção, que está sendo revista e, por isso, ainda não será divulgada.

 

Sugestão para criar binário em ruas do São Pedro

 

Na opinião do engenheiro e especialista em transporte Cézar Henrique Barra, o volume elevado de automóveis no Campus da UFJF é reflexo da ampliação do número de graduandos nos últimos anos e da forte expansão que ocorre na Cidade Alta. Hoje são cerca de 18 mil estudantes na UFJF. Até 2008, eram aproximadamente dois mil novos alunos a cada ano. Esse número atualmente chega a  3.500.

Sobre os condomínios residenciais criados na região, Barra explica que grande parte foi criada para atender a demanda da classe média alta. "Estas pessoas, de um modo geral, não utilizam o transporte público. Cada um anda no seu carro e, pela falta de alternativas, passa por dentro da universidade. Os dois pórticos da UFJF já estão estrangulados, não apenas nos horários de pico. E o problema é ainda maior no Pórtico Norte." Morador de um condomínio próximo ao Bairro São Pedro, o economista Roberto Lourenço, 54, diz não ser possível utilizar o transporte público onde mora. "São poucas as linhas de ônibus, e o meu trabalho, no Centro, exige flexibilidade. Não é comodismo, é necessidade."

Para tentar minimizar os transtornos naquela área, a Settra realizou um estudo que prevê a ampliação das atuais duas pistas da Rua José Lourenço Kelmer para quatro (duas em cada sentido). As intervenções aconteceriam entre as ruas Virgulino João da Silva e Aristóteles Braga, além da expansão de pistas no campus próximo ao portão Norte. O fluxo seria controlado por meio de semáforos. De acordo com a assessoria de imprensa da pasta, a viabilidade da obra é negociada com a instituição, mas o pró-reitor de Infraestrutura, Paschoal Roberto Tonelli, afirma que esta mudança é considerada inviável. "Perderíamos um grande terreno da UFJF para a construção de pistas. Pelo menos nesta gestão, esta proposta não será aprovada." Uma  alternativa apontada por ele seria proibir que os veículos, saindo do Pórtico Norte, realizem a conversão à esquerda, em direção à Rua José Lourenço Kelmer. "Ainda vamos apresentar esta ideia. Um binário naquela região iria amenizar o afunilamento. A mão única seria implantada na Costa e Silva em direção ao Centro, já a rua do córrego (Pedro Henrique Krambeck) teria a circulação inversa."