Cidade tem paralisação recorde entre médicos

Uaps de Santa Luzia ficou sem médicos; pacientes tiveram de retornar para casa
Cerca de 85% da classe médica local aderiram à paralisação de ontem, que afetou a rede pública e os convênios médicos, segundo informação dos organizadores do movimento. Por conta do protesto, o atendimento foi suspenso em cerca de 80% das unidades de atenção primária à saúde (Uaps) do SUS, enquanto os atendimentos secundários foram interrompidos. Já os procedimentos de urgência e emergência seguiram em ritmo reduzido. Pela primeira vez, convênios médicos também foram alvo do movimento, com suspensão nas consultas. De acordo com o presidente do Sindicato dos Médicos, Gilson Salomão, a manifestação atingiu um grau inédito de participação no município, mostrando que a categoria nunca esteve tão insatisfeita com as condições de trabalho. Já entre os usuários, a mobilização dividiu opiniões.
Durante a manhã, mais de cem representantes da classe, segundo a organização, deixaram a sede do Sociedade de Medicina e Cirurgia, na Rua Braz Bernardino, seguindo em passeata pela Rio Branco, em direção ao Calçadão da Halfeld. A caminhada causou algumas retenções no trânsito da via e adjacências por cerca de meia-hora. Em seguida, o grupo seguiu até o PAM-Marechal, na Rua Marechal Deodoro, onde permaneceu, distribuindo panfletos sobre as reivindicações.
Salomão admitiu ser impossível executar uma mobilização do tipo sem prejuízos à sociedade. Como ele frisou, não só os juiz-foranos foram afetados, como a população de toda a Zona da Mata, que depende dos serviços de saúde prestados na cidade. "Mas é o único jeito de o Poder Público entender que vamos seguir em frente." Em relação às operadoras de saúde, ele criticou a "política cruel de reajuste nos honorários e a interferência no trabalho médico". Já em relação ao SUS, ele enfatizou a falta de perspectiva de plano de carreira, além das péssimas condições de trabalho.
O delegado do Conselho Regional de Medicina (CRM), José Nalon de Queiroz, lembrou que não há periodicidade nos reajustes salariais dos médicos, enquanto os usuários são penalizados com aumentos sucessivos nos valores cobrados pelos planos de saúde. Como reforçou, a manifestação teve como interesse principal chamar a atenção para a necessidade de uma negociação mais aberta. "Caso contrário, pode haver uma paralisação por um tempo mais prolongado." Ele lembrou também a remuneração precária oferecida aos médicos do SUS, que ganham cerca de R$ 1.200 por 20 horas semanais de trabalho.
A secretária adjunta da pasta municipal de Saúde, Marilene Fabri, disse que a paralisação já era esperada e, apesar da falta de médicos nas Uaps, as estruturas que ficaram abertas, como as duas unidades de pronto atendimento (UPA), conseguiram atender à demanda sem que ficassem sobrecarregadas. "É lógico que causa transtornos para o usuário, mas é um momento em que temos que respeitar essa tramitação dos médicos." De acordo com ela, as negociações da categoria são feitas com a Secretaria de Administração e Recursos Humanos. Já a assessoria da Prefeitura informou que reiniciou o diálogo com o Sindicato dos Médicos para o acordo coletivo deste ano.
Usuários afetados reclamam do protesto
A paralisação deixou insatisfeito quem teve o atendimento prejudicado. É o caso da diarista Jandelamar Souza, de 44 anos, que tinha uma consulta com ortopedista marcada para ontem, no PAM-Marechal. Ela sente dores na coluna e havia agendado a visita ao médico em janeiro, mas, quando chegou ao local, não havia expediente. "Acho que deveriam se mobilizar sem prejudicar a população. Agora vou ter que correr atrás para remarcar." Já o motoboy Otávio Moreira, 49, reclamou da demora no atendimento no HPS. Ele caiu de moto e machucou o joelho, durante a manhã. "Só há duas pessoas na minha frente, e já aguardo há mais de meia-hora por atendimento", relatou.
Rede particular
No Centro Comercial Alber Ganimi, na Rua Espírito Santo, Centro, onde há concentração de consultórios, alguns médicos fecharam as portas durante todo o dia, segundo uma das recepcionistas. "Entre os que vieram, muitos atenderam somente às consultas particulares." Mesmo assim, ela afirmou que não houve reclamações ou clientes visitando o prédio equivocadamente. Na Avenida Rio Branco, o Edifício das Clínicas teve situação semelhante. No Centro de Ultrassonografia, por exemplo, os médicos deixaram de atender aos dez clientes que haviam marcado consultas por meio de plano de saúde. Segundo a gerente do local, Cecília Ferreira, a atitude não prejudicou os pacientes, já que tiveram os procedimentos remarcadas para hoje. Segundo ela, não tinha como deixar de aderir ao movimento. "Já faz tempo que há uma insatisfação entre a categoria."
Segundo a assessoria da Unimed, maior plano de saúde na cidade, embora tenha havido o protesto, nenhum tipo de reclamação foi registrado no serviço de atendimento ao consumidor (SAC). Também a AME não registrou reclamações de usuários. Já a assessoria da Santa Casa informou que não tinha detalhes sobre as consequências da manifestação em relação ao Plasc.









