Trotes disseminam preconceito

Estudante de jornalismo carrega placa
Embora a cidade não tenha histórico de violência na recepção aos calouros, discussões sobre os limites dos trotes aplicados aos novos alunos da UFJF foram reacendidas esta semana. Além do caso do novato, 17 anos, que precisou ser atendido no Hospital de Pronto Socorro (HPS) após ser encontrado caído embriagado em plena Avenida Itamar Franco (antiga Independência), na segunda-feira, outra situação chamou a atenção para as brincadeiras vexatórias: estudantes de jornalismo foram identificadas por meio de placas com dizeres preconceituosos, como "cara de sapatão" e "cara de puta".
A situação ganhou repercussão nas redes sociais, depois que a professora da Faculdade de Educação Daniela Auad publicou fotografia e texto de repúdio ao trote constrangedor. "O que vamos fazer para que a orientação sexual das pessoas e a sexualidade das mulheres não possa ser utilizada como xingamento contra elas?", diz trecho do texto, compartilhado e curtido inúmeras vezes no Facebook. A professora, que é homossexual, afirma que a menina que usava a placa "cara de sapatão" se mostrava constrangida. "Tem que haver um trabalho de acolhida a esses calouros, e não de exclusão por meio de preconceitos. A UFJF há de assumir o que acontece com a comunidade acadêmica para além de seus muros, pois não deixamos nossa identidade de aluno, professor ou servidor em um cabide quando saímos do campus."
Para a psicóloga Eliana Balena, apesar de o trote ser uma prática perpetuada, não quer dizer que seja saudável. "A ridicularização e a exposição da intimidade dos calouros já deviam ter sido substituídas por atividades mais racionais. É improvável que os alunos participem por prazer, mas, sim, por uma tentativa de não ficar fora do grupo. Aquele que se posiciona contrariamente é ainda mais rechaçado."
O coordenador de Graduação da universidade, Fabiano Leal, explica que o trote é proibido dentro do campus. "Mas dadas as proporções que essas brincadeiras de mau gosto têm assumido fora dos nossos muros, tenho certeza que a UFJF estudará dispositivos legais que nos permitam coibir de forma mais eficaz essas ações, antes que situações mais graves ocorram." As universidades federais de Viçosa (UFV) e São João del Rei (UFSJ) já trabalham nesse sentido. As duas instituições têm resoluções internas que proíbem a prática dentro e fora de seus campi. "Divulgamos para os calouros que, caso sejam abordados para trote na cidade e se sintam assediados física ou moralmente, denunciem ao nosso serviço de vigilância", explica a pró-reitora de Assuntos Comunitário da UFV, Sylvia Franceschini. Já na UFSJ, boletins de ocorrência são registrados quando há situação de sujeira ou depredação do patrimônio público, assim como de humilhação. "Nos preocupamos que o trote ultrapasse o limite do constrangimento e da violência. Queremos que nossos alunos sejam bem recebidos, e não expostos ao ridículo", destaca o pró-reitor de Ensino, Dimas de Resende.
O coordenador do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFJF, Felipe Fonseca, afirma que o órgão vê o trote como confraternização entre os alunos, mas que veteranos não podem humilhar ou impor ações aos calouros. Quanto ao caso específico das placas com identificações preconceituosas, a secretária de Comunicação da universidade, Christina Musse, lembra que a ouvidoria da instituição recebe denúncias de abusos nos trotes, pelo endereço [email protected] ou pelo telefone 2102-3380.








