Moradores denunciam transtornos associados a casa de acolhimento

Por conta de “sujeira, barulho e uso de drogas”, comerciante da Zona Norte diz ter sido obrigado a fechar lanchonete em frente a imóvel que abriga adolescentes com idades entre 14 e 17 anos afastados do convívio familiar


Por Tribuna

07/06/2023 às 07h47

Moradores do entorno de uma casa de acolhimento institucional na Zona Norte de Juiz de Fora reclamam de transtornos causados pelos residentes. Um comerciante, que preferiu preservar sua identidade, afirma ter sido obrigado a fechar sua lanchonete há cerca de três meses, por conta de “sujeira, barulho e uso de drogas”. De acordo com a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), o imóvel abriga oito adolescentes, com idades entre 14 e 17 anos. “Esses jovens estão afastados do convívio familiar, por determinação judicial. Eles frequentam a escola e são inseridos em outras atividades, de acordo com o interesse.”

Para quem vive ali perto, no entanto, os períodos de ócio têm incomodado. “Algumas pessoas já me procuraram reclamando da casa, porque lá eles não têm pulso, não conseguem colocar ordem, horário, então os adolescentes fazem o que querem, ficam usando drogas na frente da residência dos vizinhos”, conta um líder comunitário, que não quis se identificar, temendo represálias. Segundo ele, docentes de escolas próximas também estariam preocupados com a situação. A Tribuna optou por não divulgar o bairro na matéria, já que os acolhidos estão em situação de vulnerabilidade familiar.

A reportagem levantou não serem raros registros de boletins de ocorrência envolvendo os jovens do local e o acionamento da Polícia Militar para verificar denúncias de consumo de entorpecentes em via pública. Os adolescentes ficariam frequentemente na rua, motivando ligações anônimas ao 181, do Disque-Denúncia Unificado (DDU).

Em 13 de fevereiro, a responsável por um edifício de seis andares que faz divisa com a casa de três pavimentos registrou BO dizendo que alguns acolhidos “arremessaram frutas, ovos e lixo nas janelas de vidro e na parede de seu prédio”, causando danos também à pintura e aos azulejos, “além de perturbarem e constrangerem os moradores no período noturno”.

Ameaça de morte

O clima na instituição por vezes é tenso. No dia 9 de janeiro, por exemplo, houve o caso de uma adolescente que chegou à residência com um cachorro, contrariando as normas. Além de insistir na permanência do animal, ela teria ameaçado com um estilete quem a censurasse. Em 24 de fevereiro, dois ex-assistidos teriam entrado no imóvel sem autorização e ameaçado de morte um adolescente, 16, supostamente por dívida de drogas.

Em 1º de março, a polícia foi mobilizada para uma ocorrência de lesão corporal, mediante denúncia de que uma acolhida, de idade não informada, teria agredido o namorado em via pública. Além disso, ela teria investido contra outro residente, 15, porque ele teria falado para os vizinhos “tomarem cuidado”, pois ela estaria agressiva. Conforme a PM, a jovem teria mordido o peito do rapaz e desferido um soco contra o rosto dele. A vítima precisou ser atendida na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Norte.

No dia 26 de março, um adolescente, 14, teria ameaçado um dos responsáveis com uma barra de ferro e promovido quebradeira no interior do imóvel. Ele teria ficado exaltado por ter sido advertido sobre a proibição da compra de cigarros, após revelar receio de sair sozinho por estar sendo ameaçado de morte por uma pessoa. Durante o episódio violento, o jovem teria dado um golpe de gravata no responsável, mas outro funcionário conseguiu retirar a barra de ferro das mãos dele.

Mudar ‘problema’ de lugar

Os transtornos ocasionados pelas casas de acolhimento institucional nas regiões onde estão instaladas não são incomuns. Questionado se uma possível mudança de endereço não seria apenas mudar o “problema” de lugar, o líder comunitário que denunciou a situação diz ser a favor de mais rigidez no controle desses espaços. “Não sou contra ter uma casa dessa no bairro, mas, da forma que está, não tem jeito. Tem que haver mais disciplina. Infelizmente, esses jovens de hoje não respeitam mais nada, e temos medo que possa acontecer algo conosco ou com nossos familiares”, justifica ele, sobre o motivo da denúncia velada.

O comerciante que optou por fechar seu negócio em frente à casa de acolhimento, após funcionar sete anos no endereço, começou a sentir queda no movimento a partir de novembro do ano passado. “Ficavam embaixo da marquise do meu estabelecimento usando drogas. Os clientes começaram a mandar mensagens dizendo que não iam mais. Fechei há três meses, fiquei só no delivery. Tem mais duas lojas ao lado da minha, e os comerciantes estão preocupados.” Ele pondera se tratar de uma questão delicada. “É complicado julgar, minha mulher é assistente social, eu até entendo, mas meus clientes, não.” Agora ele se prepara para reinaugurar a lanchonete em novo ponto.

Outro lojista reclama da sujeira e do cheiro de urina nas portas dos estabelecimentos, além de palavrões gritados perto de crianças. Como há câmeras de vigilância nas imediações, os relógios de energia também estariam sendo desligados em atos de vandalismo para que as ações em via pública não fossem gravadas.

Técnicos da SAS irão verificar situação

Em seu site, a PJF explica que o acolhimento institucional visa assistir crianças e adolescentes e garantir proteção integral, em caráter provisório e excepcional. “O atendimento é para aqueles em situação de medida de proteção e em situação de risco pessoal, social e de abandono, cujas famílias ou responsáveis se encontrem temporariamente impossibilitados de cumprir sua função de cuidado e proteção.”

Em nota, a Prefeitura acrescenta que as casas de acolhimento para crianças e adolescentes possuem gestão da Secretaria de Assistência Social (SAS), com execução de Organizações da Sociedade Civil (OSCs). O espaço tratado nesta reportagem é gerido pela Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (Adra).

Sobre as denúncias de perturbação, a PJF informou que técnicos da SAS irão ao local “para verificar e orientar os adolescentes e a equipe, além de conversar com a comunidade do entorno para entender possíveis problemas de convivência”.