Policiais suspeitos de atirar em via pública
Dois policiais militares são suspeitos de balear duas pessoas na noite de domingo, em um final de semana marcado pela violência na cidade. O caso mais grave aconteceu no Bairro Ipiranga, Zona Sul, quando um cabo da PM, de 47 anos, teria atirado com uma pistola 380 contra a cabeça de uma mulher, 51. O crime ocorreu após um desentendimento na porta de um bar, na Avenida Darcy Vargas. Alvejada na região frontal do crânio, na presença do marido e da filha, a vítima foi socorrida pelo Resgate e, até a noite de ontem, permanecia em estado grave na sala de urgência do HPS. A tentativa de homicídio assustou a população, já que pelo menos sete tiros teriam sido disparados em via pública em meio a moradores, incluindo crianças. Uma casa próxima ao tiroteio, na esquina da Rua Antônio Amaral Tostes, também foi atingida por balas. A outra ocorrência que teria envolvido um policial militar aconteceu no final da mesma noite, em frente à quadra de uma escola de samba na Avenida Brasil, região central. Um homem, 28, foi baleado na perna e atribuiu os tiros a um sargento da PM e a um segurança, que o teria agredido com um soco no rosto e o colocado para fora da quadra. Um jovem, 22, teria tentado intervir e também foi expulso, levando uma pancada na testa. Já na parte externa, o funcionário da casa e o suposto policial teriam discutido com a dupla, quando disparos foram feitos.
A violência praticada por policiais militares – fardados ou fora de serviço – vem chamando a atenção. Há um mês, um soldado da PM, 28, já havia sido autuado por tentativa de homicídio após atirar contra um morador de rua, na Rua Viscondessa Cavalcante, Poço Rico, região Sudeste. A vítima foi baleada quando se preparava para dormir, junto com a companheira, 27, grávida de oito meses. O tiro atingiu a perna do homem, que foi medicado e liberado. O policial estava de férias quando cometeu o suposto crime. Já no município de Santos Dumont, subordinado à 13ª Região de Polícia Militar (RPM), um jovem de 15 anos também foi atingido por tiro na nuca, que teria sido disparado acidentalmente por um PM na última quinta-feira.
O especialista em segurança pública Robson Sávio classifica a situação como da maior gravidade. Isso representa um retrocesso da segurança pública em Minas. Todas as recomendações internacionais, como o manual da Cruz Vermelha para uso da força – parâmetro usado por polícias democráticas, inclusive referenciado pela PMMG – estabelecem que, quando há riscos para terceiros, o policial nunca deve efetuar disparos. Aqui no Brasil é quase um modismo fazer o contrário. Em qualquer evento, o policial sai atirando no meio da rua.Para o estudioso, além da falha no treinamento dos homens que atuam nas ruas, Minas Gerais carece de mecanismos de controle da polícia, situação agravada pelo acirramento da rivalidade entre as corporações Civil e Militar do estado.
O comandante da 4ª Região da Polícia Militar (RPM), coronel Ronaldo Nazareth, argumentou que casos de policiais atirando a esmo não são comuns na região. O militar tem um regulamento muito rígido na questão disciplinar. Mas se ele está de folga, utilizando a arma dele – e não da corporação -, não temos controle direto sobre ele para evitar esses casos. Mas o policial sabe das consequências. Falta de orientação e instrução sobre como usar a arma não é. Para o coronel, a punição aos suspeitos, caso comprovados os crimes, deve ser severa, para servir de lição, dar resposta à sociedade e mostrar que a PM não compactua com isso. O comandante considera que os casos são isolados diante do efetivo de mais de 1.600 policiais em Juiz de Fora e mais de 3.500 na região subordinada à 4ª RPM.
Ouvidoria
De acordo com o último balanço semestral da Ouvidoria Geral do Estado de Minas Gerais, 641 manifestações – a maioria denúncias, críticas e reclamações – relacionadas à atuação de policiais militares foram formalizadas em todo o estado no segundo semestre de 2011. Do total, 46 se referiam a homens da 4ª RPM, com sede em Juiz de Fora e responsável pelo policiamento em 86 municípios da região. A unidade local só perde no ranking para a 1ª RPM de Belo Horizonte (150 manifestações) e a 2ª RPM de Contagem (51).
Disparo feito em tumulto na frente de bar no Ipiranga
No caso da mulher de 51 anos baleada na cabeça, a assessoria da Secretaria de Saúde informou que o projétil ficou alojado na região craniana frontal da mulher, que, até a noite de ontem, permanecia sedada e respirando com a ajuda de aparelhos. O atirador fugiu em um carro e ainda não havia sido localizado. A assessoria de comunicação do 27º Batalhão da PM informou que estão sendo realizadas buscas pelo suspeito, que é lotado na 32ª Companhia, mas está afastado das atividades por licença médica. Ele deverá ser apresentado à Polícia Civil, e a PM vai instaurar procedimento administrativo para apurar a conduta dele como militar.
De acordo com o boletim de ocorrência, o crime aconteceu por volta das 20h30. A PM recebeu informações de que estariam ocorrendo disparos no endereço e encontrou a vítima caída no chão, ensanguentada. Houve aglomeração de pessoas, e várias delas estariam revoltadas, gritando que quem teria atirado seria um policial militar. Uma enfermeira, 23, contou aos militares que estava no bar, quando viu o suspeito sacar e carregar a arma, disparando em seguida. Ela conseguiu se abaixar e escapou ilesa, sendo a primeira a prestar socorro à mulher.
Um homem, 39, relatou que viu o suspeito chegar em um carro preto e reclamar de um veículo parado irregularmente na via. Alguns frequentadores do bar teriam conversado com ele, e a vítima teria se aproximado. Neste momento, o marido dela teria seguido na direção deles para saber do que se tratava, e houve os disparos. Relatos com outras versões foram colhidos pela PM. No hospital, a filha da mulher baleada, 17, disse que o suspeito estava em um Gol preto, quando um motociclista teria esbarrado no carro dele e foi agredido com um tapa. Em seguida, o pai da adolescente teria se aproximado para verificar o que estava acontecendo, e a mãe dela teria ido atrás para tirar o marido da situação, quando ocorreram os tiros.
Peritos da Polícia Civil realizaram os levantamentos no local e recolheram sete cápsulas calibre 380 deflagradas, além de três projéteis. Segundo o assessor de comunicação do 27º Batalhão da PM, tenente Flávio Luiz de Campos, como não se trata de crime militar, já que o cabo não estava em serviço, o caso será investigado pela Polícia Civil. Temos informações de que ele tomou rumo ignorado. Estamos tentando localizá-lo para tomarmos as providências cabíveis e apresentá-lo ao delegado. Até o fechamento desta edição, estavam sendo feitas diligências a fim de localizar o suspeito.
Homem diz ter sido baleado por sargento
No caso ocorrido em frente à quadra de uma escola de samba na Avenida Brasil, região central, o policial militar suspeito teria sacado a arma e feito um disparo, enquanto o segurança teria atirado mais duas vezes com a mesma arma. As vítimas – o rapaz de 28 anos baleado e o amigo dele, de 22 – foram socorridas pelo Resgate e levadas para o HPS. Segundo a Secretaria de Saúde, a bala transfixou o joelho esquerdo do homem de 28 anos. Ele permaneceu internado em observação, aguardando parecer do setor de cirurgia vascular, mas seu estado era considerado estável. Conforme a PM, o jovem agredido teve corte contuso no rosto, sendo medicado e liberado. Nenhum dos suspeitos foi localizado.
O assessor do 2º Batalhão da PM, tenente Marcelo Alves, disse que, como se trata de um crime comum, o inquérito corre por conta da Polícia Civil, que recebeu, via boletim de ocorrência, todas os detalhes sobre o suspeito. Ao fim desta investigação, conforme o assessor, se ficar provada a participação do policial, haverá a abertura de um procedimento administrativo por parte da PM.
Jovem em coma
Até a noite de ontem, continuava internado, em coma, na Santa Casa, em Juiz de Fora, o adolescente, de 15 anos, morador de Santos Dumont, atingido por tiro acidental na nuca, disparado por um policial, na última sexta-feira. De acordo com a assessoria de comunicação do hospital, a vítima respira com a ajuda de aparelhos. Conforme familiares do jovem, momentos antes de ser baleado, ele teria furtado uma caixa de morango de um supermercado. Uma funcionária do estabelecimento teria presenciado o crime e acionado a PM. Após rastreamento, o garoto teria sido encontrado, mas recusou a se entregar. Neste momento, o tiro teria sido disparado. Ontem ninguém do 9º Batalhão da PM em Barbacena, subordinado à 13ª Região da PM, foi encontrado para comentar a situação do policial.








