Morre aposentada que lutava por Justiça

Delizete Carnaúba perdeu a filha, o genro, duas netas e uma tia, há 16 anos; condenados estão soltos
Dezesseis anos de sofrimento e muita luta não foram suficientes para que a professora aposentada Delizete Carnaúba visse a punição aos acusados de provocar a morte de cinco pessoas da família dela, em um acidente de trânsito. O episódio, conhecido como "Pega de Mar de Espanha", foi um dos desastres de maior repercussão da história de Minas. Na manhã desta sexta-feira (6), aos 76 anos, Delizete morreu, vítima de um enfisema pulmonar. Ela foi protagonista de uma batalha em busca de Justiça, que, se não falhar, terá tardado demais.
A tragédia que mudou a vida da aposentada e de seu marido, Geraldo Carnaúba, começou a ser desenhada no dia 5 de abril de 1996. No fusca da família estavam a filha única de Delizete, Adriana, 31, o genro, Júlio César, 32, e as netas Victória, 2, e Theodora, 7 meses, além da tia Isabel Benedicta, 93. Naquela Sexta-feira Santa, a família deixou a fazenda onde morava, em Senador Côrtes, e levaria Victória ao médico, em Mar de Espanha.
Ao mesmo tempo, o empresário Ismael Keller Loth saía de Mar de Espanha com destino a Bicas, em sua Blazer. O médico Ademar Pessoa Cardoso tomou o mesmo rumo, a bordo de um Tempra. Os destinos de todos eles se cruzaram em uma curva da MG-126, próximo ao distrito biquense de Santa Helena. O Fusca foi violentamente atingido pela Blazer, que veio pela contramão, matando os cinco passageiros na hora. Momentos antes, o médico e o empresário teriam feito uma aposta de R$ 2 mil, que seria vencida por quem conseguisse chegar primeiro a Bicas.
Em julgamento popular realizado em 2004, o industrial foi condenado a 16 anos de prisão pelo racha, classificado como homicídio doloso (quando há intenção de matar). O médico teve pena de 12 anos e nove meses pelo mesmo crime. No entanto, segundo a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), devido a vários recursos, os condenados continuam livres. Em maio deste ano, todos os prazos para que Ademar impetrasse recursos se esgotaram, o que pode fazer com que ele seja preso a qualquer momento. Ismael ainda pode recorrer.
Em entrevista à Tribuna, em 2005, Delizete Carnaúba desabafou: "Sofrimento não mata. Se assim fosse, diante de tanta perversidade, ao longo destes anos, eu já estaria morta. Aliás, eu preferiria ter morrido junto com eles. Eu morro um pouco a cada dia." O corpo de Delizete foi enterrado às 16h de sexta, em Bicas.








