Prejuízo na assistência a soropositivos
Parte dos 1.100 pacientes soropositivos cadastrados no Serviço de Assistência Especializada (SAE) do SUS – referência no atendimento a pessoas com HIV positivo para 95 municípios da Zona da Mata – está sem atendimento regular desde o ano passado, devido à saída de dois dos três infectologistas da equipe. Com o desfalque, o registro de novos usuários no programa DST/Aids está suspenso. Embora a nomeação de dois novos médicos para o setor tenha sido publicada em 31 de março, última quinta-feira, a situação pode se prolongar por pelo menos mais 60 dias, devido aos prazos legais para que os servidores assumam o cargo, estendendo para cinco meses o período de assistência defasada. Alguns usuários, que precisam de acompanhamento trimestral, ficarão sem atendimento por mais de um semestre.
Usuária do SAE há três anos, desde que foi diagnosticada com HIV positivo, a cabeleireira I., de 30 anos, foi consultada pelo infectologista em novembro de 2010. Ela deveria ser novamente avaliada em fevereiro deste ano, mas, embora já tenha realizado todos os exames solicitados pelo médico, incluindo hemograma completo e testes específicos para controle da imunidade, não consegue marcar a consulta. Minha preocupação é ficar sem acompanhamento e ter algum problema que possa me levar a uma internação. Não faço uso do coquetel, porque consigo manter a imunidade controlada, e, por isso, tenho que ter um cuidado ainda maior com a minha saúde. Agora apareceram manchas pelo meu corpo, e o posto do bairro (Uaps) não pode me atender. Preciso de um encaminhamento do SAE, já que posso estar com algum problema que, caso não seja rapidamente descoberto, vai atrapalhar todo o tratamento, reclama.
Segundo a titular da Ouvidoria de Saúde do município, Samantha Borchear, o órgão registrou, desde o início do ano, 37 queixas sobre a falta de médicos no setor. A estimativa é que o número represente apenas 10% do total de usuários prejudicados, que, por esse cálculo, poderia chegar a 370. Há pacientes que vêm de outros municípios e, quando chegam aqui, não conseguem consultar. O problema foi denunciado pelo vereador José Laerte Barbosa (PSDB), no Minuto da Saúde, na Câmara Municipal, há cerca de um mês. Segundo o vereador, a situação ainda dificulta a prescrição e retirada de remédios, já que não há profissional que avalie o exame de sangue com contagem de CD4, isto é, da quantidade de células que apontam o grau de defesa do organismo do infectado. A partir do resultado desse teste, é feita a receita da medicação, podendo haver aumento ou redução das doses que compõem o coquetel a cada avaliação. Sem essa receita, o paciente não pode retirar o medicamento. A situação está ficando crítica.
O subsecretário de Vigilância em Saúde, Ivander Mattos Vieira, confirma o desligamento de dois dos três infectologistas que compõem a equipe do SAE, mas nega que tenha ocorrido desassistência. O que não está sendo feito é o registro de novos pacientes para acompanhamento, mas o procedimento será reaberto assim que as vagas forem preenchidas. Segundo o coordenador do programa DST/Aids, Rodrigo Almeida, o SAE deveria operar com quatro infectologistas, enquanto o HPS deve manter mais dois especialistas em seu quadro, para urgência e emergência. A rede de assistência a soropositivos ainda inclui o Hospital Universitário (HU) da UFJF e o Hospital Doutor João Penido.
Sistema recebe pacientes de outros 95 municípios
Os dados mais recentes do DataSUS, do Ministério da Saúde, apontam que, em fevereiro, Juiz de Fora contava com quatro infectologistas cadastrados em toda a rede pública. Além de prestar assistência à população local, o sistema recebe pacientes de outros 95 municípios da região que têm a cidade como referência para tratamentos ambulatoriais e emergenciais, chegando a 1,6 milhão de usuários. O panorama é preocupante, principalmente, no período que antecede uma possível epidemia de dengue. Embora o subsecretário de Vigilância em Saúde, Ivander Mattos Vieira, garanta que não há necessidade de especialista para o diagnóstico e tratamento da doença, o parecer e acompanhamento do infectologista podem ser precisos em casos graves, com indicação de internação.
Qualquer profissional clínico e de urgência e emergência está apto a fazer o diagnóstico e assistir às suspeitas de dengue, não sendo essencial que o primeiro atendimento seja realizado por um infectologista. Isso só seria necessário se houvesse pacientes graves, o que não é o caso, explica Ivander. A Linha-guia de Atenção à Saúde para Dengue, da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, não dispõe sobre a formação do profissional atuante na assistência a pacientes com dengue, porém coloca como recurso necessário para o atendimento a todas as classificações de risco a presença de médico com qualificação específica.
Juiz de fora contabiliza 321 casos confirmados de dengue, e mais 147 sob investigação. Embora o número tenha caído 77% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram notificados 1.402 casos, ainda há risco de epidemia. Em todo o ano de 2010, 9.441 pessoas foram contaminadas pelo vírus transmitido pelo Aedes aegypti, das quais 97 tiveram complicações e foram consideradas graves. Foram comprovadas 17 mortes em decorrência da doença.









