Morador recorda rota de fuga improvisada para salvar a família em prédio atingido no Paineiras

Tribuna conversou com vítima que residia em um dos prédios mais atingidos, e detalhou o caminho improvisado usado pela família para escapar em meio aos estrondos e à terra que invadia as casas


Por Pâmela Costa

06/03/2026 às 06h30- Atualizada 06/03/2026 às 07h13

Era noite de segunda-feira (23) e chovia intensamente em Juiz de Fora. Em seus lares, famílias se reuniam para jantar, crianças brincavam, outros assistiam televisão e tinha ainda aqueles que já dormiam. Na Rua Engenheiro Murilo Miranda de Andrade, no Bairro Paineiras, na região central, a família de “B.”, 37 anos, conversava quando escutou o primeiro estrondo. A reportagem irá se referir ao morador como “B.” para não identificá-lo. Apesar de conseguir salvar os entes, ele ressalta que não quer créditos que o coloquem como herói diante de tudo o que aconteceu. 

A primeira reação foi correr até a janela. “Mesmo no escuro, dava pra ver uma água marrom caindo na piscina nos fundos da casa do meu vizinho da frente”, conta. A casa do vizinho à qual ele se refere, hoje, são só destroços e lama.

O homem continua contando que, similar a uma onda, viu a terra caindo no pomar do vizinho. Depois, a intensidade diminuiu. A água continuou escorrendo. Embora parecia, naquela altura, que pararia por ali, o barulho já tinha sido forte o suficiente para alertar os moradores do prédio. “Meu cunhado retirou os carros que estavam estacionados na porta de casa e os colocou mais para cima”, enquanto ele e parte da família foram até a laje do prédio.

“Eu estava em cima do prédio, preocupado com a mãe do meu amigo, que mora na casa da frente. Eu não tinha o telefone dela, mas nosso amigo foi até lá e a retirou de casa. Foi quando veio o segundo estrondo”, relembra B. A partir daí, uma água barrenta começou a invadir a casa da frente, atravessando a varanda e descendo pelas escadas. Onde antes era a piscina do vizinho – que, no primeiro estrondo, ele viu ser atingida pela água marrom – troncos de árvore passaram a ocupar o espaço. O botijão de gás de alguma das residências foi levado pela água até a rua. No meio do caos, o cheiro de gás também se espalhou pela via.

O terceiro estrondo

Quando tudo começou a acontecer na vizinhança, a família de B. ainda estava espalhada pelo prédio: a cunhada no primeiro andar, a sogra no segundo, e o filho de cinco anos e a avó com Alzheimer em outro ponto da casa. Conforme o morador do Paineiras relata, houve quem pensasse em abandonar o imóvel, mas ele agradece por não terem saído – acredita que não haveria tempo, porque tudo aconteceu muito rápido. Foi então que veio o terceiro estrondo.

“Parecia que era uma comporta de hidrelétrica cedendo, foi muito forte, muito alto, veio com uma onda. Muito forte. Só deu tempo de esconder atrás da parede da escada”, lembra B., que morava no prédio de frente para o Morro do Imperador – o Morro do Cristo.

B. e o cunhado – que cortou o pé no vidro da janela da fachada agora estilhaçada –  rapidamente se mobilizaram para ir atrás da família que estava nos andares inferiores do prédio.

“Quando parou o barulho, eu desci correndo para ir atrás do meu filho, do meu sobrinho, da minha mãe e do meu pai”, relata, em uma jornada marcada por tensão e urgência.

Morador mostra rota de fuga improvisada para salvar a família em prédio atingido no Paineiras
Divisória entre o terraço dos apartamentos número 31 e 35, na Rua Engenheiro Murilo Miranda de Andrade. Buraco foi aberto por morador (Foto: Pâmela Costa)

O percurso que B. conta é o de um homem que, antes de qualquer coisa, é pai, filho e neto. Como tantos outros que, naquela semana, se voluntariaram para socorrer vítimas, ele também agiu sem hesitar. “Desci correndo, busquei meu filho e minha esposa e subi”, relata. Ao chegar ao terraço do prédio de cinco andares, quebrou a telha que funcionava como divisória entre o número 31, onde morava, e o edifício ao lado. 

Em seguida, desceu novamente para buscar a mãe e a avó. Durante o trajeto, ouviu os gritos da esposa do policial penal Reinaldo Neiva Ferreira, de 36 anos, que procurava pelo marido – que morreu no local, após ser atingido pela terra que desceu do Morro do Imperador, destruiu casas, atravessou a rua e invadiu o prédio número 31. Reinaldo, policial que gostava de correr, era esposo, filho, neto, amigo – assim como as 65 pessoas que perderam a vida devido às ocorrências das chuvas em diferentes regiões de Juiz de Fora na última semana.

B., a família e os vizinhos subiram a escada até o quinto andar, no terraço, e passaram pela abertura da parede que levava ao prédio 35, ao lado.

“Trouxe minha avó no colo, porque ela não conseguia andar. Ela foi até apavorada, porque sabia que alguma coisa estava acontecendo. E ela não gosta de ficar no colo, mas não tinha outro jeito. Agarrei ela, subi do terceiro até o quinto andar. Aí eles ficaram lá e a gente começou a tentar achar um meio de sair”, diz B.

A alternativa foi pela laje. Separados do prédio 41 por um muro, ele conta que quebrou a linha de telhas sobre a divisória e ajudou, junto com o cunhado e amigos, a passarem os familiares para o edifício ao lado – a cerca de dois metros de altura. “Minha cunhada escorregou e caiu, mas ficou bem”, recorda. Um dos vizinhos, por ser mais alto, conseguiu alcançar uma escada que estava em cima do telhado. Assim, eles conseguiram passar os idosos, os demais vizinhos e ainda retornar para pegar os animais.

Morador mostra rota de fuga improvisada para salvar a família em prédio atingido no Paineiras
Muro que separava o terraço do prédio 35 para a cobertura do apartamento do prédio 41. As telhas foram retiradas para que as pessoas pulassem para fugir. As marcas de terra permanecem no local (Foto: Pâmela Costa)

A fuga pelos terraços, que partiu da casa número 31, terminou quando chegaram no imóvel 41. Tentaram abrir a porta de uma varanda, mas ela estava trancada. Por fim, conseguiram explicar o que tinha acontecido para a moradora, que deixou todos entrarem. Então, a Polícia Militar chegou. 

“Quando estávamos saindo ainda teve outro barulho. Todo mundo saiu correndo”, ele lembra. Àquela altura, cada novo estrondo deixava a população em pânico. “Meu filho e minha sobrinha, crianças, sumiram”. Com a memória ainda nublada, B. conta, aliviado, a atuação dos militares, que levaram as crianças, em segurança, para a viatura. Todos foram até o posto de gasolina próximo do local, na Avenida Olegário Maciel.

O dia seguinte

“Agora, a gente está na luta tentando tirar tudo”, relata B. No dia seguinte à tragédia, ele quis voltar. Ainda não tinha a dimensão de tudo o que passou, os riscos que correu e a fenda que cortou a mata do Morro do Imperador ao meio. 

 

fotos 31 1
Morro do Imperador, o Morro do Cristo, após os deslizamentos na última semana (Foto: Pâmela Costa)

Na quarta-feira (4), uma vistoria técnica da Defesa Civil reforçou a retirada de 500 moradores do bairro. Segundo nota publicada pela Câmara dos Vereadores de Juiz de Fora, que teve acesso ao documento, ao todo, 148 imóveis do Paineiras estão sob risco de novos deslizamentos. 

Os moradores das Ruas Redentor, parte alta da Rua Halfeld, Renato Cruz Frederico, Rua do Carmelo e a Engenheiro Murilo Miranda de Andrade, onde ele morava, foram orientados a deixar suas casas. 

Ao ser perguntado sobre como era retornar ao local, B. revela ainda digerir tudo com perplexidade. “Por enquanto só cai a ficha quando eu paro à noite e tomo banho. Tento ser frio pra poder segurar as pontas”, afirma, agora seguro no Bairro Marumbi. Oito pessoas dividem a mesma casa enquanto tentam, pouco a pouco, se preparar para recomeçar. Para as crianças, como seu filho e sobrinha, ele ainda não soube como explicar. “Meu filho agora está mais calmo, mas ele ficava perguntando: ‘O mar tá vindo? O mar tá vindo?’.” Assim ele se referia à “onda” de terra que tomou as ruas do Paineiras. 

Família morreu no Paineiras

casa paineirasad7d4b6b-3530-44b3-858d-cd01b87167f8brinquedos
<
>
Casas no escadão da Rua do Carmelo, Bairro Paineiras. A imagem foi registrada após a conclusão do trabalho de busca pelas vítimas (Foto: Pâmela Costa)

Perto dali, na Rua do Carmelo, no mesmo bairro, outra família não conseguiu fugir após ter a casa soterrada pela terra que desceu do Morro do Imperador. Morreram Neide Aparecida Teodoro Vicente, 58, mãe de Jaqueline de Fátima Teodoro Vicente, 32 anos, e avó das crianças Sophia Teodoro Reis de Oliveira, 6, e Piettro Cesar Teodoro Freitas, 9. Na casa também estava o namorado de Jaqueline, David Pedro de Souza, que assim como as quatro vítimas, não sobreviveu.

Jaqueline chegou a ser socorrida com vida após passar horas machucada em meio aos escombros. Ela foi encaminhada para o hospital, onde morreu durante a madrugada. Enquanto parte da família ainda estava desaparecida, em uma apreensão que durou uma semana até o último corpo ser recuperado, o de Piettro, o cenário no local era de dezenas de voluntários e oficiais do Corpo de Bombeiros trabalhando incessantemente.

O barulho conjunto das enxadas que retiravam a terra e dos tratores agora deu lugar a um silêncio de luto. O local está vazio, os moradores próximos foram retirados, nada sobrou da residência da família. Entre os escombros, há sapatos, bonecas, roupas e ursinhos de pelúcia sujos de lama. Nesta quinta-feira (5), ocorre a missa em memória das vítimas.