Poço Rico cobra medidas para amenizar concentração de moradores de rua
Comerciantes e moradores relatam sensação de insegurança em decorrência do uso de drogas no bairro; população em situação de rua teria aumentado no entorno nos últimos meses
Rente ao muro que separa a via pública da linha férrea, na Rua da Bahia, no Poço Rico, bairro localizado na Zona Sudeste da cidade, cresce, a cada dia, o número de barracas improvisadas. Quando a Tribuna esteve no local pela última vez, em julho de 2018, cerca de dez pessoas dividiam o espaço. Meses depois, já em 2019, quando a reportagem retornou ao ponto, o número de moradores em situação de rua era maior, mas não foi possível precisar o total, uma vez que muitos estavam no interior das pequenas moradias de papelão, caixas de madeira, plástico e restos de tecidos. Na extensão do espaço, havia ainda cobertores, colchões e utensílios espalhados, alguns de uso coletivo.
Comerciantes e residentes do bairro afirmaram que, apesar das tentativas do Poder Público de tirar aquelas pessoas da rua, conduzindo-as para abrigos, a situação persiste, pois eles sempre retornam ao local e montam novas “moradias”. O maior agravante, segundo as pessoas ouvidas pela Tribuna, é que os moradores de rua acabam virando vítimas do crack, uma vez que a droga é difundida entre eles. “Alguns, não todos, fumam a pedra de dia, de forma visível. É uma situação triste e assusta a comunidade, que se sente encurralada”, afirma uma mulher, que prefere não ser identificada.
Para os antigos moradores, as obras do viaduto perto do campo do Tupynambás têm atraído traficantes e viciados, o que gera o aumento de pessoas em situação de rua no bairro. “O que antes era visto na Rua Khalil Ahouagi mudou de endereço. A nova cracolândia fica nas proximidades do viaduto”, denuncia um morador, que também não quis se identificar. “O tráfico acontece 24 horas por dia. Os usuários consomem drogas aos olhos de todos e sem receios. Podemos ver o tráfico de drogas atrás do muro da linha do trem. Eles ficam com pequenas quantidades a fim de escapar de possíveis flagrantes, que são repassadas para atender viciados que vagam em busca de qualquer coisa que possa ser transformada em dinheiro”, afirma o residente.
O dono de uma mercearia ressalta que, além do vício de drogas, muitos andarilhos, que também consomem bebida alcoólica ao longo do dia, colocam em xeque a segurança do bairro. “Todo mundo aqui já passou por um assalto ou tem medo de andar na rua em determinados momentos. Normalmente, aqueles que já estão por aqui há muito tempo são mais tranquilos e conhecidos. O problema é quando há novatos, o que gera atrito entre eles com muita frequência. Durante a madrugada, é possível ouvir as brigas. Há uma população flutuante que aparece e vai embora do nada e é a que causa mais conflitos. Essa situação se arrasta há cerca de dez anos”, lamenta o comerciante.
Outra moradora aponta preocupação com os pontos onde são acumulados entulhos, como na Rua da Bahia. “Há poluição visual, sujeira e falta de higiene. A MRS faz a limpeza do local, mas eles sujam de novo. O mesmo acontece com as ações da Prefeitura, que retira os andarilhos do local, mas eles sempre voltam. É necessário medidas efetivas”, solicita.
Problemas antigos
O presidente da Associação de Moradores do Bairro Poço Rico, Alexandre Reis, ressalta que as situações apontadas pelos entrevistados são antigas e que, ao longo dos últimos dois anos, período em que ele integra a associação, diversos contatos já foram feitos com a Prefeitura. “Sempre alegam que não podem fazer muita coisa, a não ser a retirada do material, já que as pessoas devem ter respeitado o direito de ir e vir e só podem ir para os abrigos de livre e espontânea vontade”.
Ele lembrou que, depois da instalação da Associação Municipal de Catadores de Materiais Recicláveis e Reaproveitáveis (Ascajuf) no bairro, a concentração de andarilhos aumentou. “Eles vendem o material no galpão e acabam ficando por aqui. O grave é que entre as pessoas em situação de rua a polícia já localizou foragidos da justiça e criminosos que se misturam a elas e observam a rotina do bairro para cometer furtos contra residências, lojas e carros. A PM também alega que pode atuar em casos de flagrante, mas também não pode retirá-los do local”, destaca. Ele ainda acrescenta: “A situação da insegurança é grave, pois já tive um primo assaltado, agredido e que ficou inconsciente. Houve também tentativa de estupro. Depois das 19h ninguém anda no bairro. Neste horário, ninguém volta a pé do Centro para o bairro apesar de ser perto, pois as pessoas têm medo. É preciso usar ônibus ou Uber.”

Iniciativas para melhoria do entorno
Conforme Alexandre, a associação elaborou um projeto para revitalização do entorno da linha férrea que foi enviado à MRS para avaliação. A iniciativa tem como meta intervir nos dois lados da Rua da Bahia e na Rua Pinto de Moura. “Nossa intenção é a instalação de uma área de convivência e um pequeno centro comunitário com sala de reunião, copa e uma sala para a Polícia Militar fazer registro de ocorrências, além de uma horta comunitária. É uma tentativa de revitalizar e ocupar o espaço para amenizar essa situação. Tudo ainda está na fase das articulações, mas vamos nos empenhar para que esses projetos possam ser concretizados”, ressalta o presidente da associação.
A assessoria de comunicação da MRS afirma que, por se tratar de assuntos de ordem pública, relacionados à segurança e à inclusão social, são tópicos sobre os quais não pode atuar diretamente, pois não tem meios, nem o direito enquanto uma empresa privada. Apesar disso, pontua a assessoria, por liberalidade e por interesse em segurança para a comunidade, a MRS vem mantendo diálogo com a Associação de Moradores e promovendo algumas melhorias no local, tais como a intensificação das limpezas (com periodicidade mensal) e instalação de lixeiras próximas a passagem em nível da região.
A empresa informou que a Associação de Moradores encaminhou à concessionária estudo preliminar de renovação da margem da linha férrea no trecho do Poço Rico. Contudo, como o projeto prevê a utilização de áreas integrantes da faixa de domínio da MRS, será necessária a eventual avaliação técnica do projeto, bem como a anuência da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
Ações preventivas e repressivas
A assessora organizacional da 4ª Região de Polícia Militar (4ª RPM), tenente Sandra Jabour, afirma que a PM atua de formas preventivas e repressivas com o objetivo de reduzir a criminalidade na área de abrangência do 2º Batalhão, onde está localizado o Bairro Poço Rico. Segundo ela, em casos de situação suspeita, os militares podem se dirigir ao local, fazer uma abordagem e verificar se há algum tipo de crime, e inclusive consultar o prontuário de suspeitos para constatar se há mandados de prisão em aberto. Todavia, se nada for confirmado e não houver uma demanda de moradores no momento, a PM não tem como agir, pois não pode prender alguém pelo fato de ser morador em situação de rua. “Não podemos cercear o direito do cidadão de ir e vir”, enfatiza a tenente.
Ela destaca que a PM procura sempre trabalhar priorizando o diálogo com os residentes dos bairros e ressaltando os valores do policiamento comunitário. “Reiteramos que, em caso de suspeitas, o 190 deve ser acionado para que a situação seja verificada. Outra estratégia adotada é a Rede de Vizinhos de Protegidos, que faz fluir as informações, possibilitando as providências”, pontua, acrescentando: “Em casos envolvendo moradores em situação de rua, é importante um trabalho em parceria com a Prefeitura, pois se trata de uma questão social, a qual a PM não tem como resolver sozinha”.
Rota da Prefeitura
A Secretaria de Desenvolvimento Social (SDS) informa que o Bairro Poço Rico faz parte da rota de ações contínuas da abordagem social da Prefeitura e também das ações conjuntas, promovidas pela pasta juntamente com a Secretaria de Atividades Urbanas (SAU), o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (Demlurb), a Guarda Municipal e a Polícia Militar, que ocorrem, pelo menos, duas vezes ao mês. A secretaria ressalta que as pessoas em situação de rua são constantemente convidadas a frequentar os serviços disponíveis para a garantia da cidadania. No entanto, só são encaminhados caso aceitem. De acordo com a legislação brasileira todos possuem direito de ir, vir e permanecer, frisa a pasta, em nota.









