Moradores pedem mais segurança em rodovia

Especialista considera estrada despreparada para receber veículos grandes e modernos
Um trecho entre os quilômetros 2 e 3 da estrada União e Indústria, próximo de Matias Barbosa, começa a ser chamado de Curva da Morte. Toda a rodovia é sinuosa e a área em questão possui uma curva acentuada. A pista passou por recapeamento há aproximadamente um ano e meio, mas os acidentes não diminuíram, pois, os condutores aumentaram a velocidade. Em 2012, foram 33 ocorrências que resultaram em 42 feridos, cinco em estado grave. Só neste ano, já aconteceram três acidentes fatais.
No acostamento do trecho, estão homenagens aos mortos. Entre flores e imagens de santos, aparece a foto de Henrique Gruppi Cortês, médico recém-formado falecido em novembro de 2010 em acidente no local. Ele tinha 25 anos quando bateu de frente com um ônibus que vinha na direção oposta. O choque deixou seu carro completamente destruído.
Segundo a técnica em contabilidade Cristina Gonçalves, que mora na região há mais de 57 anos, o movimento da via é intenso. Ela diz que já perdeu as contas de quantos acidentes foi testemunha. "Já vi caixão de tudo quanto é jeito sair de lá. São carros que caem na ribanceira e pegam fogo, além de corpos carbonizados", conta Cristina. Ela acredita que a maioria das fatalidades seja reflexo do excesso de velocidade, já que a curva acentuada faz os motoristas que correm perderem o controle. "Quando a pista era esburacada, parecia um quebra-molas natural. Depois do recapeamento, o pessoal abusa da velocidade", acrescenta.
Em busca de providencias, Cristina foi ao Departamento de Estradas e Rodagens estadual (DER) levando um abaixo-assinado no qual ela e a comunidade pediam a colocação de um quebra-molas ou radar próximo à curva. Em resposta, o DER emitiu ofício informando que as medidas solicitadas só podem ser aplicadas após estudos de outras alternativas de engenharia de tráfego. O documento aponta que, após as reflexões e a liberação de verba, será reforçada a sinalização vertical. Há ainda a alegação de que o formato sinuoso da pista impede a colocação de lombadas.
Por meio da assessoria de imprensa, o departamento disse que a rodovia é muito antiga e que todas as mudanças têm que seguir as normas do Conselho Nacional de Trânsito (Contran). Um estudo já estaria sendo feito para melhorar a via por meio de reforço também na sinalização horizontal. O departamento acrescenta, ainda, que a população é parceira do órgão e que, conforme as demandas vão chegando, são analisadas caso a caso.
Análise da Pista
O professor do departamento de trânsito da UFJF José Castañon lembra que a Estrada União e Indústria é muito movimentada, já que é uma das mais utilizadas pelos caminhoneiros para ir ao interior da Zona da Mata mineira. "É uma via de acesso para todos que vêm do Rio e também para ir a São Paulo", comenta.
Castañon concorda que a rodovia, por ser antiga, não está preparada para receber veículos grandes e modernos. O professor destaca que a pista é pequena e que os automóveis invadem a faixa contrária, principalmente se aumentam a velocidade. "Dois veículos grandes não cabem. Quem se assusta, perde controle e pode cair na ribanceira". Segundo ele, o acostamento é grande, com área de segurança, porém, se o carro cai entre o asfalto e a brita do acostamento, pode despencar pelo barranco.
Para Castañon, a solução é uso de um controlador de velocidade como o radar. "Uma sinalização horizontal e vertical mais efetiva, mostrando o risco da curva, serve de alerta, mas o ideal é um radar". Castañon acredita que a colocação de um quebra-mola é perigosa, pois força uma parada, o que pode ocasionar um choque traseiro. Em sua avaliação, o aumento da iluminação na via não é boa ideia, porque pode levar os motoristas a não visualizarem as placas.
Médico de 25 anos entre as vítimas
Umas das vítimas da Curva da Morte foi Henrique Gruppi Cortês, de apenas 25 anos. O jovem médico morava em Juiz de Fora e trabalhava no Programa Saúde da Família, em um posto de saúde de Matias Barbosa. Ele visitava os pais, que moram em São João Nepomuceno, todos os fins de semana. No dia do acidente, uma segunda-feira, Cortês saiu da casa da família direto para Matias Barbosa.
Segundo a mãe do médico, a empresária Maria José Gruppi Cortês, talvez fosse a segunda vez que o filho conduzia pela Estrada União e Indústria. "Sempre passávamos por lá, mas estávamos viajando em família e o pai dele dirigia. Quando ia de Juiz de Fora para o serviço, ele (Henrique) passava pela BR. Sabíamos que a pista é perigosa", conta. A empresária diz que já tinham presenciado outros acidentes no local e que, depois da morte do filho, nunca mais usou a via.
Henrique Gruppi Cortês havia se formado quatro meses antes do acidente. A intenção do médico era fazer residência em dermatologia a partir de janeiro de 2011 e, enquanto esperava, trabalhava em Matias Barbosa. Maria José conta que o filho era muito querido entre os pacientes. Um deles teria colocado a foto de Cortês na Curva da Morte, como forma de homenagem.
Para a empresária, alguma atitude tem de ser tomada em relação ao trecho. "As vidas tem que ser cuidadas, olhadas em todos os detalhes. Eu sei o que uma mãe passa e é muito dolorido. A intenção é que outras não sofram isso".









