Juiz-forano perde tempo e paciência no trânsito de 6ª

O trânsito nas sextas-feiras em Juiz de Fora tem se tornado mais lento e difícil do que nos demais dias da semana, exigindo paciência de motoristas e atenção redobrada de pedestres. Para se certificar de que os nós no tráfego são maiores neste dia do que nos demais, a Tribuna foi às ruas na tentativa de mostrar o que acontece. A equipe de reportagem traçou o mesmo percurso e, durante cinco semanas, circulou de carro por ele às quartas e sextas-feiras, sempre a partir das 17h30. O tempo de demora para concluir o trecho às sextas foi de até 32 minutos a mais, confirmando que o problema vem se agravando nas ruas com a proximidade do fim da semana. As retenções acontecem principalmente nos horários de pico, mas, em dias de chuva, como nessa sexta-feira (4), a lentidão se estende ao longo do dia. O levantamento foi realizado em três quartas-feiras (28 de agosto e 4 e 25 de setembro) e nas quatro sextas-feiras de setembro (6, 13, 20 e 27).
O traçado escolhido, com saída do mesmo ponto, levou em conta a circulação pelos principais corredores de tráfego da cidade. O menor tempo observado foi na quarta-feira, 28 de agosto, com uma hora e 25 minutos, e o maior, na sexta-feira, dia 6 de setembro, véspera do feriado do dia 7: uma hora e 57 minutos. Saindo do Bairro Poço Rico, pela Avenida Francisco Bernardino, a reportagem seguiu em direção ao Bairro Quintas da Avenida, passando pelo Mergulhão da Avenida Rio Branco. De lá, foi para o Bairro Santa Terezinha, pela Rua Alencar Tristão, chegando à Avenida Brasil, onde retornou para a Avenida Rio Branco até a Rua Barão de Cataguases. Na Avenida Olegário Maciel, o carro continuou até a Rua Espírito Santo, descendo para a Rua Santo Antônio e, em seguida, passando pela Avenida dos Andradas e Avenida Getúlio Vargas, de onde retornou para a redação do jornal, na Rua Espírito Santo esquina com Avenida Brasil.
Neste período, alguns pontos de estrangulamento foram observados tanto nas quartas quanto nas sextas-feiras. Na Avenida Brasil, entre as pontes de Santa Terezinha e Manoel Honório, por exemplo, o trânsito não fluía, sendo necessários 15 minutos para vencer o trecho. Mas o maior impacto no tempo cronometrado se deu na Avenida Francisco Bernardino, entre o início da via e o Mergulhão. No dia 13 de setembro, uma sexta-feira, este trecho foi vencido em 42 minutos, enquanto, nas três quartas-feiras observadas, o traçado foi concluído entre sete e nove minutos.
Condutores
"Com certeza, é o dia mais complicado. Muitos trabalhadores saem de ônibus até quinta-feira e, na sexta, usam os carros
para passear depois do expediente, enquanto outros viajam. Esta situação é somada a problemas crônicos, como a falta de sincronia nos semáforos no Centro, que fica mais evidente neste dia. Na Rua Fonseca Hermes, por exemplo, (via de acesso entre as avenidas Francisco Bernardino e Getúlio Vargas), a gente chega a gastar até 40 minutos, em um trecho pequeno", disse o presidente da Associação dos Taxistas de Juiz de Fora, Luiz Gonzaga Nunes, profissional do volante há 30 anos. Segundo ele, o problema tem se agravado gradativamente nas duas últimas décadas, e o cenário atual seria bem diferente daquele observado no início dos anos 1990. "Era muito mais fácil trabalhar. Agora está difícil. Além do mais, gastamos mais embreagem, mais combustível. Ficamos mais cansados e estressados."
Trânsito de passagem
Morador de Ubá, o representante de vendas Vaine Marcos Abraão, 38, trabalha durante a semana no Rio de Janeiro e retorna para a cidade natal, toda sexta-feira, passando por Juiz de Fora. Segundo ele, esta rotina se repete há dez anos, mas, nos últimos tempos, o percurso tem se tornado difícil. "Levo cerca de 50 minutos entre o Cascatinha e o Grama. Em outros dias da semana, ou fora dos horários de pico, faço o mesmo percurso em 20. Antes o engarrafamento começava na Avenida Itamar Franco, no São Mateus, agora as retenções são sentidas já próximo ao shopping, no Cascatinha." Conforme Abraão, o que mais o instiga é o fato de não ver grandes obras viárias para alterar esta realidade, como é no Rio. "Trabalho a semana toda e fico doido para chegar a minha casa. Sei que preciso manter a calma, mas às vezes não consigo. Esta lentidão deixa o condutor nervoso e estressado."
Calor e chuva
No comparativo entre as quartas-feiras, a diferença no percurso totalizou 12 minutos. Mas na primeira, dia 28 de agosto, o céu estava claro, e não havia possibilidade de chuvas. Já na seguinte, o dia foi marcado pela instabilidade no tempo, e as precipitações ocorreram durante vários momentos, exigindo a conclusão do caminho em 1 hora e 37 minutos. O mesmo tempo necessário nesta semana, quando retenções na área central se tornaram comuns devido a abertura de mais uma faixa exclusiva para ônibus na Avenida Getúlio Vargas. O aumento do volume de automóveis neste dia foi sentido, principalmente, na Avenida Brasil, entre os bairros Santa Terezinha e Manoel Honório, na Avenida Olegário Maciel e na Rua Santo Antônio.
Embora o levantamento tenha sido realizado nesta área, outros corredores de tráfego são conhecidos pelos engarrafamentos causados em horários de pico, que se agravam no início e no fim da semana. É o caso da Avenida Brasil, entre o Viaduto Augusto Franco e a Ponte Nelson Silva, altura do Bairro Poço Rico, Avenida Itamar Franco, Rua João Pinheiro, no Jardim Glória, Rua Dom Silvério, em Santa Luzia, e Rua São Mateus, bairro homônimo.
‘Importante é manter calma’
Dados do Pelotão de Policiamento de Trânsito (PPTran) da Polícia Militar apontam que, curiosamente, nos horários de pico, há menos registros de acidentes que em momentos considerados mais tranquilos. Em julho de 2013, conforme estatísticas do pelotão, foram contabilizadas 600 ocorrências no município, sendo apenas 22% no período conhecido como terceiro turno, entre 18h e meia-noite. Conforme o comandante do pelotão, tenente José Lourenço Pereira Júnior, isso ocorre porque, nestes horários, o trânsito é mais lento, e o número de batidas menor. "Em dias da semana, sexta-feira fica apenas em terceiro lugar no total de registros, com 95 ocorrências. Perde para segunda-feira, com 115, e quarta, com 107." Em seguida, aparecem terça-feira (87), domingo (77) e quinta (62).
Sobre a intensificação do tráfego na sexta-feira, e o aumento das retenções, tenente Júnior avalia que isso ocorre pelo fato de Juiz de Fora ser uma cidade polo e receber muitos trabalhadores e estudantes do entorno que, no fim da semana, voltam para suas casas. "Muitas vezes, dependendo dos horários, eles preferem os automóveis particulares aos ônibus intermunicipais."
Para tentar reverter este quadro, o comandante sugere maior uso do transporte público ou, ainda, a carona solidária entre conhecidos. "Se há muitos amigos trabalhando no mesmo local, por exemplo, eles podem optar pelo rodízio de carros e a carona solidária. Mas, de um modo geral, é muito importante manter a tranquilidade no trânsito, pois pequenos acidentes podem resultar em situações graves, como brigas."
Ensino comprometido
Instrutor de autoescola com sede na Rua Espírito Santo, no Centro, Fernando Batista Gomes, 43 anos, afirma que o trânsito lento, principalmente na sexta-feira, compromete o aprendizado do aluno. "Ele não pode fazer duas aulas seguidas, por causa da biometria e, em alguns horários, fica impossível até sair desse gargalo do Centro. Tento usar a criatividade para não comprometê-los. Por exemplo, na sexta-feira, priorizo aulas no Bairro Vila Ideal, porque o acesso é facilitado."
Ele também cita o estresse causado no trânsito como um fator prejudicial, tanto para o aluno como para o instrutor. "Na sexta-feira, observamos pouca paciência dos outros motoristas. É necessário manter a calma e passar essa tranquilidade para o aprendiz."
Settra diz ser difícil alterar semáforos
A Settra não tem estudos que mostram a diferença no volume de tráfego nos dias da semana que incluem a sexta-feira. Isso porque, conforme a subsecretária Operacional de Transporte e Trânsito, Iza Machado, segunda e sexta-feira são considerados dias atípicos e, estudos de engenharia são baseados em condições normais. "Sexta-feira é um dia em que os dados oscilam muito, por isso não o usamos nas pesquisas."
Sobre a possibilidade de planejar o trânsito para este dia, Iza afirma ser uma ação difícil, principalmente porque não há um padrão de tráfego nas sextas-feiras. "O que tentamos fazer é tomar algumas atitudes pontuais, mas não em dias da semana e sim relacionadas aos horários. Na Avenida Getúlio Vargas, por exemplo, fizemos um levantamento do atraso que os ônibus estavam sofrendo entre 18h e 20h. Percebemos que os coletivos estavam fechando até o cruzamento com a Avenida Rio Branco. Realizamos algumas alterações nos tempos dos semáforos, que está dando resultados. Mas em dias específicos é muito difícil atuarmos, justamente pela dificuldade em mensurar esta alteração."
Ainda segundo a subsecretária, uma série de fatores explica o fato de o trânsito na sexta-feira ser mais intenso. Entre eles, ela também cita o fato de a cidade abrigar muitos estudantes da região que, aos fins de semana, vão embora de carro. "O que fazemos é pedir atenção redobrada aos agentes, já que é difícil alterar o esquema dos semáforos de forma imediata. Temos 140 cruzamentos (com sinais), e um único funcionário não conseguiria visualizar a realidade de todos eles. Não temos câmeras para isso. Além disso, se alterarmos o tempo de um, podemos causar retenções em outros."
Necessidade de mais atenção aos ciclistas
Se o trânsito na sexta-feira é tumultuado e incômodo aos motoristas, para os ciclistas, a situação é ainda mais alarmante. Além do aumento do volume no tráfego, as pessoas que usam esta modalidade precisam conviver com outros riscos, agravados pela imprudência de condutores. Na sexta-feira, dia 23 de agosto, a Tribuna conversou com o capixaba Rafael Darrouy, 27 anos. O estudante de medicina é membro do Ciclistas Urbanos Capixabas (CUC) e veio a Juiz de Fora convidado por um grupo de ciclistas locais para conhecer o trânsito. Com a bicicleta e duas câmeras acopladas (uma próximo à roda traseira e outra no capacete), Darrouy topou o desafio de percorrer ruas e avenidas da cidade com objetivo de identificar pontos positivos e negativos. E ele encontrou vários.
"Apenas durante a manhã, tomei três finas (fechadas). Se não tivesse a experiência que tenho, poderia me acidentar", disse, citando algumas características observadas em Juiz de Fora. "Aqui os ciclistas são mais educados. Encontrei poucos transitando pela calçada. Por outro lado, os motoristas são mal educados. Não respeitam nosso espaço. Também senti falta dos paraciclos (suporte para estacionar bicicletas), o que contribui para falta de incentivo à modalidade. Estive na Secretaria de Trânsito e nem lá havia os equipamentos. Tive a oportunidade de conversar com o secretário e sugeri que, no projeto de mobilidade urbana, haja atenção aos ciclistas e incentivos para instalar os dispositivos, assim como é em Vitória (ES), onde vivo atualmente."
Cicloativista
Desde 2011, Rafael tem um blog na internet em que aponta os principais problemas de trafegar sobre duas rodas em Vitória, no Espírito Santo. "Morava no Canadá e, quando voltei ao Brasil, defini que adotaria a bicicleta como estilo de vida. Logo no primeiro dia, sofri um acidente e, a partir daí, tive a ideia de instalar as câmeras com intuito de flagrar imprudências." Hoje seu blog conta com mais de 50 mil acessos por mês. Além de Juiz de Fora, ele esteve em Maceió (AL), onde também percorreu ruas da cidade para mostrar o comportamento dos motoristas perante os ciclistas.
Sobre Juiz de Fora, comparado aos outros dois municípios, o estudante afirma ter se surpreendido com algumas peculiaridades. Uma delas é a faixa exclusiva para ônibus, na Avenida Rio Branco. Outra seria a existência da Área Azul que, segundo ele, colabora para o uso democrático do espaço público. No entanto, ele sugere: "Ainda faltam ciclovias em avenidas de grande fluxo."








