Moradores alegam falta de informação e incertezas após deslizamentos no Três Moinhos e Linhares
Após interdições na Zona Leste, moradores dizem que receberam avisos para deixar as casas, mas seguem sem definição sobre auxílio, reassentamento e próximos passos

A falta de informação e orientação após os deslizamentos provocados pelas fortes chuvas é a principal queixa de moradores dos bairros Três Moinhos e Linhares, Zona Leste de Juiz de Fora. Além da destruição causada pela lama e das perdas materiais, famílias relatam que receberam avisos para deixar as casas sem explicações claras sobre para onde deveriam ir ou como acessar auxílio.
Segundo os moradores ouvidos pela Tribuna na manhã desta quarta-feira (4), os comunicados de interdição foram feitos por viaturas da Guarda Municipal que circularam pelas ruas utilizando alto-falantes. No entanto, não houve, conforme os relatos, orientação individualizada ou detalhamento sobre abrigos, cadastramento para auxílio-moradia ou acompanhamento por equipes sociais. Parte das famílias buscou abrigo na casa de parentes; algumas estão abrigadas na Escola Municipal Raymundo Hargreaves, no Bom Jardim, bairro vizinho; e outras permanecem nos imóveis interditados por falta de alternativa imediata.
A aposentada Márcia Rogéria da Silva, de 52 anos, nascida e criada no Três Moinhos, afirma que a comunidade ficou sem direcionamento após os avisos. “Passaram falando que era para sair, que estava interditado. Mas ninguém veio aqui bater na porta e explicar o que a gente faz agora”, relata.
Enquanto aguardam posicionamento oficial sobre assistência e possíveis medidas de reassentamento, moradores dizem enfrentar não apenas o medo de novos deslizamentos, mas também a incerteza diante da ausência de informações claras sobre os próximos passos.
Moradora da Rua Diva Garcia, que acumula um longo histórico de problemas com enchentes, Márcia também teve a casa interditada após o deslizamento. Sem alternativa imediata, ela afirma que permanece no imóvel porque não tem condições de arcar com os valores de aluguel cobrados, que, segundo ela, aumentaram significativamente neste período. “Eu não tenho para onde ir. Eu não tenho dinheiro para pagar aluguel de mil reais para cima”, diz. Além da dificuldade financeira, pesa o vínculo com o lugar onde nasceu e foi criada. “É muita coisa para perder. Não é só uma casa. É as nossas raízes, as lembranças. Eu vi esse bairro crescer”, afirma, ao explicar por que, mesmo com medo, resiste a deixar a região.

Local do deslizamento já foi cenário de outra tragédia há 24 anos
Márcia afirma que o deslizamento recente não é um fato inédito no bairro. Segundo ela, há cerca de 24 anos ocorreu uma tragédia no mesmo ponto onde uma criança de seis anos foi soterrada durante as chuvas deste ano, na Rua Maria Florice dos Santos. Na ocasião, duas crianças morreram. “Foi no mesmo lugar. Até hoje eu nunca esqueci”, diz.
As cenas do resgate na época nunca saíram da sua cabeça. “Os bombeiros passaram com as crianças mortas, cheias de lama, dentro da minha casa. Nunca saiu da minha mente.” Para a aposentada, a repetição do episódio mostra que o problema na área já era conhecido.
Ela conta que, naquela época, também perdeu a própria casa. O imóvel foi interditado após o deslizamento e acabou sendo demolido por risco de desabamento. “Eles demoliram a minha casa. Cortaram o auxílio-moradia e eu fiquei sem nada. Tem quase 20 anos que eu pago aluguel do meu bolso.”
No terreno da antiga casa, outro morador construiu uma residência que foi partida ao meio pelo deslizamento provocado pelas chuvas.
Ela defende que, caso a retirada definitiva seja inevitável, o reassentamento seja feito em áreas próximas ao centro da cidade. “Já quiseram me mandar para longe, para uma casa menor e ainda pagando prestação. Como recomeçar assim?”
Retorno das aulas gera incerteza para famílias abrigadas
No abrigo na Escola Municipal Raymundo Hargreaves, Luciano Oliveira Freitas, de 43 anos, afirma que alimentação, água e as condições de higiene têm sido garantidas principalmente com apoio de doações, mas que o problema maior atualmente tem sido a falta de informações sobre os próximos passos. “Até esse momento ninguém falou nada. Se vai dar casa, se vai dar auxílio, pra onde que vai levar”, relata.
Luciano conta que sua casa foi a primeira a desabar. Ele havia saído cerca de meia hora antes, por causa do aniversário de uma sobrinha. “Daí a meia hora caiu tudo. A minha não sobrou nada, nem documentação deu para pegar.” Morador da área há 22 anos, ele agora enfrenta outras dificuldades, como comprovar que era proprietário do imóvel e regularizar a situação junto ao INSS. Luciano afirma que sofreu um acidente de trabalho em dezembro e aguarda perícia médica, mas perdeu todos os documentos na queda da casa, o que pode complicar o processo de afastamento.
Pai de dois adolescentes, de 13 e 16 anos, ele diz que a família aguarda definição sobre moradia e também sobre a situação escolar dos filhos, já que a unidade da região, a Escola Municipal Antônio Faustino da Silva, está interditada. “A gente está ali aguardando o próximo passo, o que fazer, que a gente não sabe.”
Luciano defende ainda que, caso haja reassentamento, as famílias sejam mantidas próximas umas das outras. “Nós nos conhecemos, sabemos quem é quem. Não adianta colocar cada um para um lado.” Segundo ele, cerca de 40 famílias estão no abrigo e foram informadas de que precisarão deixar o local nos próximos dias, mas ainda sem definição clara de destino.

População reclama de interdição de via
Outra queixa apresentada pelos moradores é a dificuldade de acesso ao Três Moinhos após as interdições. Luís Fernando Machado, de 71 anos, teve a casa interditada e precisou se mudar provisoriamente para a residência da mãe, no Bairro Bom Jardim. Desde então, tenta retornar ao imóvel para retirar pertences como fogão, freezer e geladeira.
Ele relata que a interdição da Rua Diva Garcia no sentido bairro/Centro tem dificultado o transporte dos objetos, obrigando os moradores a fazer um desvio pelo Bairro Manoel Honório, na Zona Nordeste. Como alternativa, sugere que o trecho atualmente liberado no sentido Centro/bairro passe a operar em mão dupla para facilitar o deslocamento de quem precisa retirar móveis e eletrodomésticos.
O morador da Rua Manoel Clemente também questiona a ausência de medidas preventivas. “Se já previam isso aqui, por que esperaram acontecer? Por que não tiraram o povo antes?”, afirma. Ele lembra que, em 2014, houve, inclusive, uma simulação de evacuação na região, o que, na avaliação do morador, já indicava que a área era considerada de risco.
Comunidade se une em solidariedade
Diante da falta de direcionamento oficial, moradores têm se organizado por conta própria para apoiar as famílias atingidas. À frente desse movimento está Ricardo Medeiros de Matos, 47 anos, que participou do resgate de vizinhos dos escombros e, desde então, tem ajudado a coordenar doações e a redistribuir alimentos, roupas e materiais de higiene entre os vizinhos.
Ele também relata que moradores estão se revezando para fazer a segurança das casas interditadas e evitar furtos. “A gente está se ajudando como pode”, afirma. De acordo com ele, se não fosse a rede de solidariedade formada entre os próprios moradores, o bairro não estaria recebendo nenhum suporte.
Moradores do Linhares relatam insegurança e cobram fiscalização
No Linhares, moradores também relatam insegurança diante da previsão de mais chuvas e da ausência de orientações claras. A moradora Linamara Oliveira afirma que teme novos alagamentos, já que a água que desce do Bom Jardim pode voltar a invadir as casas. “Está vindo mais chuva. A água vai embocar aqui de novo e entrar dentro das casas”, diz. Segundo ela, as ruas precisam de mais limpeza e ainda há necessidade de desobstrução de bueiros, além do monitoramento mais frequente da área.
Ela afirma que, desde o dia do deslizamento, não recebeu visita da Defesa Civil. “Ninguém bateu na porta, ninguém deu notificação, ninguém fez nada”, relata. Embora sua casa não tenha sido interditada — apenas atingida por água, assim como na chuva do dia 15 de dezembro de 2025 —, a moradora diz que permanece com receio, especialmente por causa de um barranco na frente do imóvel e de uma árvore próxima a um poste, que, segundo ela, pode provocar acidentes caso caia.
A moradora também questiona a falta de clareza nas interdições da Rua Diva Garcia. Segundo ela, a sinalização informa que a via está interditada, mas sem detalhamento preciso da numeração, o que gera dúvidas e mantém o tráfego de carros e motos em alguns trechos. “A gente fica sem saber. De um lado está interditado, do outro não. E não tem informação correta”, afirma.
Mãe de um bebê de um ano, ela conta que chegou a deixar a casa por alguns dias, mas retornou após ser informada de que o imóvel não estava interditado. Ainda assim, diz que vive sob constante tensão. “Qualquer chuva que vem, a gente tem que sair levantando os móveis”, relata. A residência da mãe dela, de 60 anos, também foi atingida pela água. “É difícil recomeçar, porque vem outra chuva e acontece tudo de novo.”
PJF diz que assistência ocorre pelo CRAS e que acolhidos em escola serão realocados
Questionada pela reportagem, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) disse que a evacuação é uma medida de proteção baseada em avaliação técnica, e que o retorno às residências só deve ocorrer quando houver liberação após análise da Defesa Civil. A respeito das questões sobre orientação individualizada e cadastro para auxílios colocadas pelos moradores, a Prefeitura informou que a Assistência Social atua em apoio aos atendimentos da Defesa Civil, e que os CRAS estão em funcionamento para atendimento e orientações à população.
Em relação à limpeza das vias e desobstrução de bueiros, a Prefeitura afirmou que o Demlurb e a Secretaria de Obras mantém frentes diárias de recolhimento e limpeza, com equipes também aos finais de semana e atuação em dezenas de bairros. “Em locais que seguem interditados, algumas ações dependem de liberação prévia da Defesa Civil, por razões de segurança: a instabilidade do solo e o risco de novos deslizamentos podem colocar em perigo tanto moradores quanto equipes operacionais, além de máquinas e caminhões em operação. Por isso, os serviços seguem rigorosamente as liberações e interdições técnicas definidas pela Defesa Civil, priorizando sempre a preservação de vidas”, destaca a nota.
Quanto à situação das famílias acolhidas na Escola Municipal Raymundo Hargreaves, a Prefeitura ressaltou que o acolhimento emergencial nas escolas ocorre para garantir proteção imediata. “Todas as pessoas atualmente acolhidas terão novos espaços de acolhimento seguro providenciados pelo poder público. A organização desses locais está em trâmite e será divulgada pelos canais oficiais da Prefeitura. A prioridade é retomar as aulas garantindo segurança, conforto e dignidade às famílias acolhidas”, garantiu a PJF.
Por fim, a Prefeitura acrescentou que segue realizando vistorias nas áreas atingidas como etapa necessária para decisões técnicas de liberação e demais encaminhamentos, “além de ações de zeladoria nos locais afetados por alagamentos, inundações e movimentação de terra”.