Acesso a armas acirra violência

Para entender como o quadro de violência juvenil foi sendo desenhado na cidade, a Tribuna fez uma viagem no tempo na segunda reportagem da série "Até quando?". O mergulho em uma década de história (ver quadro) mostrou o acirramento dos conflitos e o recrutamento de adolescentes que não sabem exatamente por que atiram ou por que tornam-se alvos. A retrospectiva mostra que, no início de 2002, os enfrentamentos ainda tinham como pano de fundo os bailes funk e ocorriam, sobretudo, nos fins de semana. Pedras, paus, facas eram os instrumentos mais utilizados, embora as ações já chamassem a atenção, em função da migração das brigas das periferias para praças, vias públicas e até para o transporte coletivo. Dez anos depois, os registros apontam para a execução de adolescentes e a facilidade de acesso a armas de fogo.
Atualmente, 255 adolescentes respondem por algum tipo de ato infracional, conforme levantamento realizado junto ao Ministério Público. Desse total, 12% estão envolvidos com porte ou disparo de arma de fogo e 21% têm alguma ligação com homicídios ou lesões corporais graves.
Derrame de armas
Dados da Polícia Civil confirmam ainda o derrame de armas na cidade e em 25 municípios da região. De janeiro a novembro, 389 foram periciadas pela Seção Técnica Regional de Criminalística da 1ª Delegacia Regional de Polícia Civil, o que significa mais de uma por dia. Pelo menos 80% delas circulavam em Juiz de Fora. Apesar da tentativa de controle desse comércio, 67% das vítimas de crime violento, este ano, foram baleadas.
O mapa da violência publicado domingo pela Tribuna confirma que os acertos de contas têm ocorrido em todas as regiões do município. Ao longo destes dez anos, foram muitas as confirmações da facilidade de se conseguir arma na cidade. Entrevistado pela Tribuna em 2008, J. chegou a ser baleado em 2007, em conflitos de gangues na Zona Norte, e relatou: "Sempre tem um que chega e oferece. Tem arma de R$ 200, R$ 400. Já me ofereceram em baile, na rua." Outro garoto integrante de uma das galeras da Zona Norte, entrevistado pela Tribuna, em 2006, também confirmou. "Tinha um 38, mas passei para frente. Consegui comprar com traficante mesmo. Paguei R$ 100."
A agente comunitária Denilda da Silva Gonçalves, madrinha do adolescente Jefferson Luiz da Silva Fernandes, morto a tiros em agosto no Monte Castelo, aos 14 anos de idade, questiona: "Se eles estão armados é porque alguém está fornecendo. Quero saber quem é o senhor das armas?"
Além do poder das armas, a massificação das redes sociais possibilitou aos jovens ganharem ainda mais espaço: os conflitos começaram a ser marcados pela internet, usada pelas gangues para ostentar os armamentos, fazer apologia ao crime e até confessar assassinatos. Meninas passaram a integrar os grupos e a incitar a violência. As brigas extrapolaram os limites, tornando-se mais visíveis na sociedade. Em muitas das rixas, terceiros saíram feridos ou ficaram expostos à morte. Crianças e mulheres foram atingidas por balas perdidas, um servidor da UFJF foi barbaramente agredido na frente dos filhos, lojistas ficaram expostos à violência gratuita ou sofreram prejuízos.
A retrospectiva mostra que a inoperância e a indiferença diante deste cenário – tanto dos órgãos públicos quanto da própria sociedade – contribuem para o quadro atual que se assemelha ao de uma guerrilha urbana. Para especialistas e autoridades ligados aos adolescentes, o mais grave é a ausência de uma política pública para a juventude. O histórico também evidencia a falha das ações de segurança e dos projetos sociais ao longo dos últimos dez anos. Foram vários os paliativos, mas que não impediram o avanço da violência juvenil.
Neste ano, em julho, 150 militares ocuparam a área de divisa dos bairros Jardim Natal e Jóquei Clube, na Zona Norte, uma das regiões de maior conflito entre adolescentes. Mas, após a operação, as ocorrências de disparos de arma e tentativas de homicídio não cessaram. Levantamento realizado pela Tribuna, considerando as ocorrências entre 22 de julho e 26 de setembro, mostra que pelo menos sete pessoas foram baleadas na região após a ação. Em 2010, a PM iniciou a escolta de jovens de bairros rivais durante os fins de semana e a Polícia Civil trabalhou na identificação dos líderes das gangues, mas, sem grandes resultados.
Processo de exclusão
Para o promotor da Infância e Juventude, Antônio Aurélio Santos, o quadro atual é resultado da "ausência de políticas públicas efetivamente sérias e da adoção de ações isoladas, de respostas emergenciais". Segundo ele, apesar de a Polícia Militar atuar na repressão, as ações são tardias. "A parte preventiva vem falhando, pois se houvesse de fato, não aconteceria tantos atos infracionais. O Ministério Público também vem cumprindo seu papel emergencial, atuando como um pronto-socorro. O que chega é encaminhado. Mas isso não adianta. O que falta na cidade são políticas públicas efetivamente sérias, educação e lazer nas periferias. E não se viu nada disso nos últimos anos. Nesse processo de exclusão, a maioria dos jovens acaba vendo, de forma equivocada, nas gangues e no tráfico, alternativas de autoafirmação."

Omissão e esquecimento social
Wedencley Alves, professor da Faculdade de Comunicação da UFJF e integrante do Instituto de Medicina Social da UERJ, voltado para projetos sobre juventude e violência, comenta a evolução dos casos ao longo da última década. Para ele, a situação é fruto da inoperância dos governos diante das demandas, das carências e da falta de perspectiva social de parcelas significativas da sociedade. "A cultura da violência é motivada por três formas de omissão: omissão diante da violência das forças do Estado contra populações marginalizadas, omissão diante da violência que representa a exclusão e o esquecimento social e omissão da violência entre os grupos em confronto com a lei." O coordenador do grupo de pesquisas Comunicação e Discursos: Saúde, Sensibilidades e Violências vai além. "Por ser um fenômeno que exige uma abordagem complexa e global, é evidente que as formas parciais de ação, que visam apenas um ou outro dos aspectos, não são eficientes para desmontar esta ‘cultura’. Se as medidas de segurança vierem acompanhadas dos excessos que conhecemos, e se não houver ações de resgate da cidadania, elas serão mais um dispositivo a naturalizar a violência entre nós. A adesão de jovens das comunidades em estado de precariedade social a atos de violência ocorre nesse cenário."
Para a diretora do Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância da PUC-Rio, a professora Irene Rizzini, é preciso que as políticas públicas repensem a sua atuação diante de uma realidade na qual os jovens são estimulados a perpetuar a violência. "Nós não podemos simplificar o que é complexo em todo o planeta. Pensar na trajetória desses jovens que hoje estão em conflito com a lei é pensar em todos os aspectos da vida que eles estão vivendo, pensar que eles precisam de programas sociais bem cuidados para ajudá-los a sair dessa situação. Simultaneamente a essas ações, precisamos atender aqueles em situações muito vulneráveis e que encontram a porta escancarada para a rua, facilitando seu aliciamento."
Outro problema enfrentado por esse grupo é o estímulo ao consumo, levando estes meninos e suas famílias a realizarem esforços equivocados. "As famílias dos trabalhadores lutam contra coisas muito poderosas, como o consumo e a desvalorização do esforço e do trabalho. Muitas delas realizam esforços equivocados para adquirir coisas de marca, porque pensam, equivocadamente, que vestir um tênis caro os tornará melhores ou iguais aos outros meninos", afirma a Doutora em psicologia social, Maria Aparecida Cassab.
Irene Rizzini faz coro. "A influência dos meios de comunicação sobre a infância e juventude é um problema mundial. Muitas mães, como aquela mostrada na matéria de domingo da Tribuna, gastam o que não podem para dar o que o filho quer na intenção de protegê-lo, acreditando que, desta forma, eles não precisarão roubar ou entrar para o tráfico na sua comunidade. O fato é que esses meninos sofrem uma pressão imensa de estarem bem vestidos para serem aceitos e até mesmo para não serem constantemente parados pela polícia. Quem é pobre, negro e luta para ser aceito não tem como dizer não ao consumismo ou virar as costas para isso, dizendo que está tudo bem, porque não está."








