Revolta contra isolamento no Graminha leva moradores a retirar contenção e abrir passagem
Sem respostas sobre interdições após chuvas, moradores dizem estar isolados com acessos bloqueados e ônibus com rota incompleta; retirada das barreiras gerou confusão e Guarda Municipal foi acionada
Moradores do Graminha, na Zona Sul de Juiz de Fora, retiraram as barras de contenção instaladas na Avenida Joaquim Vicente Guedes para abrir passagem para veículos no início da noite desta quarta-feira (4), após dias de isolamento provocado pelas fortes chuvas. O bairro tem somente duas entradas – pela própria Joaquim Vicente Guedes e pela Estrada União Indústria – e, segundo relatos, ambas seguem interditadas desde os deslizamentos, o que tem dificultado a circulação de moradores e o acesso ao transporte público.
A Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) fechou a entrada pela Avenida Joaquim Vicente Guedes de forma preventiva, diante do risco de novos deslizamentos no trecho, e moradores afirmam que a medida deixou a comunidade sem alternativa de deslocamento e sem orientação clara sobre como proceder. Com a retirada das barreiras por conta própria nesta quarta, houve confusão no local, e a Guarda Municipal foi acionada.
No último domingo (1º), a Tribuna esteve na região e registrou que moradores do Graminha e do Cruzeiro do Sul já relatavam dificuldades para se deslocar e até para conseguir remédios e alimentos após interdições causadas por deslizamento.
Moradora do Graminha, Maria Fernanda Da Cruz Nunes, 24, conta que desde a manhã de terça-feira (24), quando houve os primeiros deslizamentos de terra, um dos acessos ao bairro foi impedido e, desde então, a circulação tem sido afetada por fechamentos e reaberturas pontuais. A moradora do local conta que uma iniciativa independente solicitou máquinas para remover a terra e liberar o acesso, mas logo houve outro deslizamento.
Diante dessa situação, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) instalou barras de contenção para impedir o trânsito na via. Segundo Maria Fernanda, desde a primeira ocorrência, o órgão liberou a passagem em alguns momentos, mas logo voltou a fechar o acesso novamente.
Com os impedimentos, desde então a linha de ônibus que cobre o bairro tem feito a rota incompleta, somente até a entrada do bairro, deixando muitos trabalhadores sem transporte público. A trabalhadora conta que conseguiu passar pela via com a sua moto em alguns dias, pois logo retornaram a instalar a contenção.
“A população está revoltada, não temos acesso pela rua, nem ônibus. Na semana passada, muitas pessoas ficaram em casa e outras passaram a pé por uma trilha que fizeram. Acho válido impedirem a passagem, mas que seja feito, para proteção, quando forem resolver a demolição das casas interditadas e as obras de contenção. Poderiam colocar um micro-ônibus para levar as pessoas que moram lá para baixo. Deixaram as pessoas isoladas, como um ‘se virem aí, peguem um helicóptero’.”
André Medeiros, 36 anos, também morador do bairro, conta que após dias sem assistência e esclarecimentos da Prefeitura de Juiz de Fora, os moradores abriram a via por conta própria, o que considera perigoso. De acordo com ele, independentemente das últimas chuvas que afetaram o município, as interdições e riscos nesta via são recorrentes e trazem transtornos aos moradores. “A prefeitura apareceu para fechar novamente e não deu nenhuma orientação do que fazer em casos de emergência, sem apresentar meios alternativos de circulação e sem previsão de abertura. Tem pessoas correndo risco de vida, porque o bairro não tem UBS, não tem supermercado.”
Outro morador do local, André Luis Fernandes, 47, disse que somente pedestres e motociclistas têm conseguido passar pela via, mesmo com a contenção. Como conta, sua esposa e sua filha, assim como seus vizinhos dependem dessa passagem para se deslocar ao trabalho e à escola.
O que diz a PJF
A Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) afirmou que as interdições de vias na região do Graminha foram adotadas “por motivo de segurança”, diante dos riscos que ainda permanecem após as fortes chuvas que atingiram o município. Segundo a Administração municipal, a medida busca preservar “a segurança da população e também das equipes de servidores que atuam nas áreas afetadas”.
A PJF disse ainda que “compreende e lamenta os transtornos enfrentados pelos moradores”, sobretudo em relação ao acesso ao bairro e ao transporte coletivo, mas reforçou que, neste momento, a prioridade é evitar novos incidentes. De acordo com a Prefeitura, a liberação das vias “depende de análises técnicas realizadas pelos órgãos competentes”, que verificam “as condições do terreno e a estabilidade das encostas antes de qualquer reabertura”. A administração municipal afirmou que, “assim que houver condições seguras”, as liberações serão realizadas.
Em nota, a Prefeitura informou que as atualizações sobre interdições e mudanças no trânsito e no transporte coletivo estão sendo divulgadas “pelos canais oficiais” e também “atualizadas no aplicativo Cittamobi”. Por fim, a PJF declarou que segue trabalhando para “mitigar os transtornos enfrentados pelos moradores”, mas enfatizou que as decisões estão pautadas “acima de tudo, pela segurança”.
A Prefeitura não respondeu especificamente sobre a tentativa de retirada bloqueio, mas a Tribuna apurou que a Guarda Municipal voltou a isolar a entrada bairro.