Moradores do Graminha e Cruzeiro do Sul relatam dificuldades de deslocamento após interdição de ruas

Três ruas da região foram interditadas; moradores aguardam orientações de órgãos competentes


Por Elisabetta Mazocoli e Fernanda Castilho

01/03/2026 às 14h38- Atualizada 01/03/2026 às 16h14

Após deslizamento de terra, ocorrido na quarta-feira (25), e a consequente interdição de ruas no Cruzeiro do Sul e no Graminha que ligam os bairros com o Centro da cidade, moradores da região relatam dificuldades de deslocamento e de acesso a remédios e alimentos. O escorregamento de terra ocorreu na Rua Waldomiro Eloy do Amaral, e ruas próximas, como Benício de Souza e Joaquim Vicente Guedes, também precisaram ser interditadas. O cenário é assustador, mas não é novo: a região enfrenta problemas históricos causados pelas chuvas e pelos deslizamento. Segundo relato de moradores, até o momento, a retirada de terra foi realizada por iniciativa independente, pois o bairro também enfrenta falta de assistência da Defesa Civil de Juiz de Fora. 

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Rua Joaquim Vicente Guedes, no Graminha, foi atingida por deslizamento que deixa moradores com dificuldade de deslocamento (Foto: Leonardo Costa)

Moradoras do Bairro Graminha, Maria da Glória Lopes, 72, e Cristina Maria Guimarães, 68, contam que nos últimos dias o deslocamento estava difícil, praticamente impossível, após os deslizamentos que interditaram a avenida. Como precisavam comprar remédios e alimentos com urgência, um vizinho se ofereceu para buscar. “Não dava pra gente transitar, então fizeram essa retirada de emergência. O povo ontem ainda reclamou por abrirem a estrada, falaram que trincou, mas o asfalto já não estava bom”. Os próprios moradores também foram responsáveis por criarem “escadas” no meio dos barrancos para deslocamento sem passar pelas vias interditadas e enlameadas.  

Mas as passagens são íngremes e não possuem qualquer tipo de apoio, tornando o caminho inviável para as duas. “Eu estava vindo com sacolas,  vim orando a Deus. Vai carro daqui, vem carro de lá, como é que vou correr no meio dessa lama? Mas um jovem ali me ajudou e pegou as sacolas”, conta Maria da Glória.  Durante a conversa, as duas apontam para duas casas construídas em uma área de risco. “Acho que não vão cair não, mas vão demolir elas”, diz Cristina.

Wederson de Jesus Ribeiro Marques, 51, morador das proximidades do trecho interditado, conta que a área não costumava apresentar problemas. Porém,  notou que após obras realizadas na região, o fluxo de água na avenida aumentou, atingindo a sua casa. “Não tô dormindo, minha família está preocupada, a gente não sabe o que fazer. Queremos uma orientação, um socorro, uma notícia, se podemos ficar aqui ou não. Tá difícil ficar aqui”. Essa água também passa por outros pontos do bairro e pertence ao esgoto, apresentando outros riscos para a família, como ele destaca. Assustada com a situação, sua esposa, Glaucia Ribeiro Marques, 46, conta que a família, que agora cuida do neto recém-nascido, está receosa de continuar na casa, mas ainda não sabe para onde irá.

A cerca de 10 minutos a pé, mas já ultrapassando a fronteira entre o bairro Graminha e Cruzeiro do Sul, a casa de Luciana dos Santos Guedes, 48, precisou ser deixada. O imóvel que ela tinha acabado de quitar em 22 de dezembro apresenta todos os sinais indicados como risco pela Defesa Civil: rachaduras nas paredes, trincas no chão, desnível no terreno e um barulho oco que vem do chão, indicando possíveis vazios sob a estrutura. Ela retirou o que podia da casa, que está localizado no alto do morro e com vista pra cidade, e avisou aos vizinhos para também deixarem suas casas. Como estava no meio da noite, muitos não escutaram os barulhos que o deslizamento estava provocando. “Eu, como moradora, não quero que o meu imóvel fique de pé mais. Vou pedir para a Prefeitura derrubar, até pela minha consciência. Quando a situação melhorar, vão ter pessoas que vão querer se apropriar para morar. O medo continua, e morar ali não moro mais”, diz.

GRAMINHA - LEONARDO COSTA 03.jpgGRAMINHA - LEONARDO COSTA 08.jpgGRAMINHA - LEONARDO COSTA 04.jpgGRAMINHA - LEONARDO COSTA 07.jpgR. Valdomiro Eloy do Amaral - CRUZEIRO DO SUL - LEONARDO COSTA 11.jpgR. Valdomiro Eloy do Amaral (sob a rua) - CRUZEIRO DO SUL - LEONARDO COSTA 05.jpgR. Valdomiro Eloy do Amaral - CRUZEIRO DO SUL - LEONARDO COSTA 01.jpgR. Valdomiro Eloy do Amaral - CRUZEIRO DO SUL - LEONARDO COSTA 10.jpg
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Rua Valdomiro Eloy do Amaral, Bairro Cruzeiro do Sul (Foto: Leonardo Costa)

Bairro sofre problemas históricos

A casa em que vive Regina Londres, 65, mãe de Otto Londres, 44, foi uma das que precisou ser deixada às pressas. A família já vive no bairro há quatro décadas e estava em vias de fazer reformas no imóvel, justamente pelos riscos que estava apresentando, mas não imaginava que o estrago poderia ser tamanho: o barranco avançou e quebrou as paredes dos fundos da casa, fazendo com que a terra avançasse pelos cômodos. “Cheguei, desesperado, e comecei a cavar com a mão. Nessa hora a gente vê o quanto é pequeno”, relembra ele, que achou que a mãe poderia estar entre os escombros. Durante o tempo de deslocamento com trânsito, do local que estava, no bairro Santa Terezinha, até o Graminha, perdeu a noção do quanto tempo desde a última ligação que tinham feito.

Mas quando saiu da casa, viu que ela tinha seguido sua orientação e ido buscar ajuda com vizinhos. Estava a salvo. Mas ele, que também tem a visão de especialista pela experiência no Núcleo de Proteção e Defesa Civil (NUPDEC), programa de voluntariado, entende que a situação se trata de um problema histórico no bairro, que ultrapassa os muros de sua casa. “Quando aconteceu um desabamento aqui, há 20 anos atrás, também estávamos por aqui, vimos e perdemos amigos. Tudo fica muito evidente: o cheiro, o barulho, o ambiente fica muito tenso”, conta ele, sobre o deslizamento que deixou três mortos em Juiz de Fora, em 2002.

Defesa Civil está com alta demanda

A Tribuna entrou em contato com Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), responsável pela Defesa Civil. Em nota, eles reiteraram que em caso de insegurança, mesmo em vias onde não houve indicação formal de evacuação, e mesmo com a presente trégua das chuvas, a recomendação é sair de casa. “Quem não tiver para onde ir deve se dirigir aos abrigos disponibilizados pela Prefeitura. A linha 199, da Defesa Civil, está com altíssimo volume de chamadas. A orientação é não desligar e insistir: as ligações entram em fila de espera e são atendidas. A Defesa Civil segue em monitoramento permanente das áreas de risco e está emitindo orientações de evacuação para locais ameaçados pelos canais oficiais da Prefeitura”, disseram.

Ainda segundo a PJF, todos os trabalhos de desobstrução de vias, especialmente nos trechos com grande volume de terra e uso de maquinário pesado, passam por avaliação e monitoramento das equipes da Defesa Civil, para garantir segurança. “No caso do bairro Graminha, de forma preventiva, é necessário aguardar entre 72h a 96h (sem chuva neste período) para que o solo apresente maior estabilidade antes do início dos serviços. Equipes da Secretaria de Obras e do Demlurb seguem atuando de forma ininterrupta na liberação de vias em diversas regiões da cidade. Assim que houver condições seguras, o atendimento também será realizado no bairro, assegurando o restabelecimento da mobilidade sem colocar a população em risco”.

 

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