‘Ciência sem fronteiras’ em JF é referência nacional
A oportunidade de aprendizado no exterior tem se tornado o foco de muitos estudantes universitários. Além da grade curricular tradicional dos cursos, as experiências pessoais e a bagagem cultural têm cada dia mais peso na formação profissional dos alunos, que buscam os programas de intercâmbio para preencher essas lacunas. O “Ciência sem fronteiras” (CSF), projeto do Governo federal que visa a internacionalização da ciência e tecnologia brasileiras por meio de bolsas de intercâmbio e da mobilidade internacional, chegou em 2011 para “reduzir as distâncias” entre o Brasil e os centros de ensino estrangeiros. As metodologias individualizadas adotadas pelas universidades são o grande diferencial para que o programa se consolide. Em Juiz de Fora, o IF Sudeste, por exemplo, tem sido considerado referência nacional do programa.
Devido ao sucesso na cidade, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) pediu autorização para divulgar o modelo de gestão adotado pelo IF Sudeste/JF, conforme o assessor de relações internacionais do instituto, Wagner Belo. “É recurso público. Os alunos têm que saber que, atrelado a isso, existe uma responsabilidade social. Isso não é turismo sem fronteiras, é estudo”, observa.
Em comparação com as demais instituições que oferecem o programa, o IF Sudeste/JF optou por beneficiar uma menor quantidade de estudantes. Foram até hoje, desde 2011, 77 beneficiados. Para Wagner, essa é uma maneira de monitorar todos os passos do aluno. “Sei o nome de todos. Além disso, ainda vou ao encontro deles, faço visitas in loco no país, onde converso com os professores, com as universidades, estabeleço convênios”, afirma o assessor.
O instituto conta ainda com uma estagiária responsável por acompanhar o bem-estar dos participantes e com uma pedagoga, que cuida do progresso acadêmico. O estudante do curso de engenharia mecatrônica Breno Luiz de Oliveira estudou durante um ano na Coreia do Sul e confirma a didática rigorosa estabelecida no IF. “No instituto, eles ficam em cima, pedem relatórios, procuram saber se estamos bem e conversam com nossos pais.”
O “Ciência sem fronteiras” exige que os alunos entreguem apenas um relatório final, após o encerramento de todas as atividades realizadas durante o programa, mas a metodologia adotada pelo IF Sudeste requer mais de seus estudantes. Eles também precisam enviar um relatório mensal das ações desenvolvidas.
“Hoje, nós temos tudo relatado por escrito, o que nos ajuda a fazer a validação das disciplinas”, complementa Guido Gouvêa Cunha, também aluno de engenharia mecatrônica. Sua mãe, Rosa Maria, comenta que há uma forte ligação entre os pais e o instituto, o que facilita a comunicação com os filhos. “Ficamos mais tranquilos com esse contato direto.”
UFJF
Com mais de 619 bolsas implementadas, a UFJF cobra dos alunos o plano de estudo das disciplinas que serão cursadas no exterior e o relatório final exigido pelo programa. Segundo a secretária de relações internacionais da instituição, Rossana Melo, não é necessário mais do que isso para controlar os participantes. “Às vezes, escutamos que não tem cobrança, que o estudante está solto, mas eu discordo plenamente, não temos que cumprir o papel de pai e mãe. O aluno passa pelo processo, assina termo de compromisso, sabe de todos os detalhes. Ninguém vai ficar em cima dele, inclusive, sou contra isso.”
Participantes apontam falhas no programa
Apesar dos benefícios obtidos ao estudar em universidades estrangeiras conceituadas, como aprender uma nova língua e conhecer a cultura de um outro país, muitos participantes do “Ciência sem fronteiras” (CSF) apontam lacunas no programa. Saulo Custodio, aluno da engenharia de produção na UFJF, conta que ficaria, inicialmente, seis meses na Austrália para estudar inglês pelo programa. Caso fosse aprovado no teste de comprovação da proficiência no idioma, ficaria por mais um ano para cursar disciplinas de sua graduação. No entanto, ele afirma que a segunda etapa de sua estadia foi conturbada, pois faltaram orientações. “O Governo não forneceu esclarecimentos sobre o curso de graduação, datas e prazos. As universidades australianas também não souberam orientar. Foram momentos bem difíceis e de muito estresse.”
Para Sérgio Mayrink, estudante de engenharia elétrica da UFJF, que esteve por um ano na França, o pouco conhecimento das instituições sobre a estadia e o rendimento do aluno é uma grande falha. “O programa exige apenas um relatório final, depois da conclusão de todas as atividades, e não toma conhecimento dos problemas que enfrentamos durante nosso período no exterior.”
A “total liberdade” dada ao intercambista também é apontada por Bárbara Arantes, aluna do curso de design da universidade, como um grande problema. Segundo ela, que ficou um ano na Coréia do Sul pelo programa, a falta de controle dá margens para que o aluno faça o “turismo sem fronteiras.” “Fiscalizar é o meio de tornar as coisas mais sérias e valorizar quem se dedica”, complementa.
A demora ou falta de um retorno do Governo também incomoda os estudantes. Após a conclusão do programa, os alunos deveriam receber um relatório com sugestões e reclamações, mas muitos ficam sem respostas. “Retornei há oito meses e ainda não recebi nenhum feedback”, lamenta Bárbara.
Validação das disciplinas
Outro impasse levantado pelos intercambistas é a dificuldade de validar aqui as disciplinas que cursaram no exterior. As divergências entre as cargas horárias e ementas, conforme eles, são as principais barreiras para legitimar no Brasil os estudos em outro país.
Segundo a secretária de Relações Internacionais da UFJF, Rossana Melo, a dificuldade na validação pode acontecer, pois algumas disciplinas não possuem os mesmos nomes e conteúdos das ofertadas pela instituição base do aluno. No entanto, ressalta que as coordenações de curso podem analisar os casos e conceder os créditos. “Depende muitos dos coordenadores de cada curso, eles podem verificar a paridade das ementas. Mas ainda existe uma certa resistência, o que eu acho errado. O professor poderia ser mais flexível.”
No IF Sudeste/JF, a validação não é uma escolha dos coordenadores de curso, garante o assessor de relações internacionais do instituto, Wagner Belo. “A validação deve ser feita sempre, desde que os estudantes tenham cumprido os requisitos estabelecidos. Para aderirmos ao programa, precisamos aceitar o acordo de adesão, com uma cláusula que assegura que as atividades cursadas no exterior serão aproveitadas aqui.”









