Paineiras: Prefeitura informa que retorno às residências depende de nova avaliação técnica da Defesa Civil
Deslizamento deixou seis mortos no bairro; moradores relatam insegurança com rua evacuada
Fora de casa desde a tragédia, ela conta que, além do risco de novos acidentes, moradores também temem crimes no local: “Montamos um grupo e estamos fazendo vigília à noite para evitar furtos nas casas”, revela Priscila. O Executivo municipal afirmou que, desde o início das evacuações, solicitou reforço das forças de segurança e que o monitoramento das ações fica a cargo da Polícia Militar. A PM foi questionada sobre a segurança no bairro, mas não deu retorno à Tribuna até o fechamento desta edição.
A dúvida agora é quando poderão voltar para casa. Alguns moradores das ruas do Bairro Paineiras, onde foi emitido alerta de evacuação, ainda permaneciam em seus imóveis até o último domingo (1º). Residentes da Rua Engenheiro Murilo de Andrade relataram à Tribuna o sentimento de incerteza quanto ao retorno definitivo, devido à falta de respostas da Defesa Civil.
Necessidade de intervenção
A esteticista Jacqueline Pontes, que também mora na Rua Renato Cruz Frederico, disse ter alertado outros moradores sobre o risco de viver no local e sobre a necessidade de pressionar órgãos públicos para a realização de intervenções: “Me chamaram de louca, mas preciso continuar fazendo esse papel. Antes das chuvas, pedimos à Prefeitura diversas vezes para fazer obras de contenção ou podas em árvores aqui da região e é muito difícil que aconteça alguma coisa.” Jacqueline vive há anos no bairro da região central de Juiz de Fora e atualmente trabalha em casa. Pela necessidade de evacuar o próprio imóvel, está sem trabalho no momento. Ela alega que, até o último domingo (1º), não houve retorno da Defesa Civil sobre a possibilidade de voltar ou não para sua residência.

O Morro do Cristo está entre os locais citados no mapeamento de setores de risco elaborado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) e utilizado como referência pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O relatório aponta setores de deslizamentos planares e erosões do tipo de ravina no trecho onde a população do Paineiras foi afetada. Também há registro de áreas com risco de queda de blocos em locais com rocha alterada e fraturada. O documento registra ainda ocorrências e indícios de rastejos, movimentos lentos de solo que podem causar danos e, em alguns casos, evoluir para processos de maior amplitude.
Questionada sobre o acompanhamento da situação do terreno do Morro do Cristo, a PJF afirmou que monitora permanentemente o local, uma vez que o município dispõe da Carta Geotécnica de Aptidão à Urbanização e da Avaliação Geotécnica de Atrativos Geoturísticos no Morro do Cristo, elaboradas em 2024 e 2025 em parceria com a SGB. Já as atividades em campo listadas pela Prefeitura foram realizadas em abril e junho de 2024, quando foram registradas características de geologia, solos, materiais, geomorfologia e feições associadas a desastres naturais. O Executivo municipal também afirmou que vinha realizando ações preventivas e captação de recursos destinados a obras de contenção nos últimos anos.
Seis pessoas morreram no temporal da última segunda-feira (23) durante os deslizamentos do Morro do Cristo que atingiram o trecho da Rua Engenheiro Murilo de Andrade, entre a Rua Halfeld e a Renato Cruz Frederico, e da Rua do Carmelo. Naquela noite, Jacqueline conta ter ouvido um barulho como o de uma turbina de avião. Ao perceber a necessidade de sair do local, Priscila teve dificuldade de passar com os pais idosos pelos escombros que, segundo a moradora, deixaram a rua praticamente tomada pela lama. A falta de segurança no local trouxe reflexão: “Aqui não deixa de ser uma ‘área nobre’. A gente vê coisas acontecendo em regiões menos favorecidas economicamente, mas dessa vez a chuva atingiu todo mundo.”
Voluntários fazem diferença na limpeza da Engenheiro Murilo de Andrade

“Vim de São João Nepomuceno para trabalhar como voluntária”, disse uma leitora que preferiu não se identificar. No local, moradores também apontaram a importância do trabalho voluntário de limpeza da Rua Engenheiro Murilo de Andrade – a que havia maior concentração de lama após as chuvas. Pás, enxadas, botas e águas eram distribuídas pelos moradores aos voluntários na tarde de domingo (1º), enquanto caminhões, carretas e outros materiais de apoio foram trazidos pelos voluntários para auxiliar na retirada da lama.
A entrada do prédio de número 35, onde um policial penal de 36 anos foi soterrado durante o temporal de segunda-feira (23), ficou completamente bloqueada. Mesmo com o alto volume de lama, a ação de limpeza gerou impacto visível. Confira as imagens feitas pela Tribuna no dia seguinte aos deslizamentos e uma semana após o primeiro registro. Nelas, é possível perceber a quantidade de entulho removido do local.
Pouco a frente, na residência de nº 47, uma moradora que preferiu não se identificar abriu um ponto de apoio para os voluntários que vieram de longe para ajudar na restauração da rua. A mesma moradora vem de uma família que viveu anos na casa de nº 36, que, após as chuvas, já não existe mais. Ela foi tomada pelos escombros que desceram do Morro do Cristo, deixando para trás memórias de um bairro que ainda tem fragmentos do que foi a noite do dia 23 de fevereiro.
*Estagiário sob supervisão do editor Bruno Kaehler
Tópicos: chuvas / morro do cristo

