Lojas arrombadas em série

Lojistas reuniram-se para buscar uma solução
"Estou à mercê de delinquentes", a afirmativa é da comerciante Adriane Vaz, que teve sua loja de roupas invadida três vezes, num período de um mês e meio. Como ela, outros proprietários dos bairros São Mateus e Alto dos Passos, na Zona Sul, e Poço Rico, na região Sudeste, estão assustados com uma série de arrombamentos seguidos de furtos e assaltos contra estabelecimentos comerciais. Os crimes têm ocorrido nas madrugadas, quando o policiamento é reduzido e, só nessa terça-feira (1º), mais dois casos foram registrados. Um deles aconteceu na loja de Adriane localizada em um trecho da Rua São Mateus entre as ruas Oswaldo Aranha e Carlos Chagas, onde um conjunto de lojas foi alvo de, pelo menos, três crimes em apenas quatro dias. A situação levou os proprietários a realizarem uma reunião na tarde deessa terça-feira, com a solicitação da presença da Polícia Militar, a fim de discutirem a insegurança no local. Durante o encontro, que não teve a participação de representante da PM apesar do convite dos lojistas, os comerciantes decidiram pela implantação de segurança privada, com a instalação de câmeras externas e contratação de vigilantes, já que se consideram vulneráveis diante da onda de criminalidade e desamparados pelo Estado. "Minha loja foi inaugurada no último dia 7 de agosto e foi alvo de criminosos três vezes. Isso é um absurdo! Estou começando um negócio agora e estou muito assustada", afirma Adriane. No estabelecimento dela, o criminoso conseguiu forçar a porta de vidro, criando uma folga suficiente para poder "pescar" uma peça de vestuário da vitrine. No último sábado, o local já havia sido invadido. Na ocasião, conforme boletim de ocorrência registrado às 6h, a fechadura da porta foi danificada, sendo levados vários anéis.
Dois dias depois, na segunda-feira passada, um comércio de suplementos alimentares na mesma calçada também foi vítima. Segundo o registro policial, por volta de 1h, policiais militares foram acionados e contataram o comerciante responsável. A porta de vidro foi danificada, sendo levados um televisor de 42 polegadas, além vários produtos. "Com o furto da televisão tive prejuízo de R$ 2.500. Pagamos impostos e estamos impotentes, já que o Estado não nos garante segurança. Fecho minha loja todos os dias e não sei como vou encontrá-la no dia seguinte", dispara o proprietário Cléber Reis.
Ruas mais afetadas
Conforme as vítimas, as ruas mais afetadas com os arrombamentos são: São Mateus, Carlos Chagas, Oswaldo Aranha e Doutor Romualdo. "Esse circuito todo está sendo alvo de arrombamentos. Está virando uma terra sem lei. Além dos flanelinhas, que ficam coagindo a gente e arranham nossos carros, e dos usuários de drogas no final da Carlos Chagas, ladrões estão entrando nas lojas de madrugada. Está todo mundo ficando assustado", desabafou o corretor de imóveis Cláudio Cunha. Apesar de a maioria dos estabelecimentos da área contar com equipamentos de segurança, como alarme e monitoramento por câmeras, a ousadia dos bandidos tem superado os empecilhos."Temos a loja há oito meses. Ainda não fomos furtados, mas todas as vizinhas já foram. Só estamos esperando quando a nossa vai ser, porque estamos completamente sem segurança", afirma Cláudia Ribeiro, dona de uma loja de chocolate no trecho.
Região de bares também é alvo
No Alto dos Passos, vizinhos alertaram a PM, por volta das 3h30 dessa terça-feira, sobre o arrombamento em um bar, na Rua Severiano Sarmento. Uma das portas de aço que protegem o imóvel foi levantada, supostamente com um pé de cabra. Pela manhã, policiais conseguiram localizar os proprietários, que verificaram também a subtração de um televisor de 42 polegadas. Apesar da pequena abertura feita na porta, o espaço foi suficiente para o ladrão entrar no local e retirar a TV, que ficava suspensa.
"Fizeram uma alavanca na porta e retiraram o equipamento. Há dois meses, já haviam invadido o bar e levado bebidas, mas, daquela vez, não sabemos como entraram", disse o gerente do estabelecimento, 29 anos. "Outros bares da região também já foram alvo de furto. Infelizmente, isso está constante. Até determinado horário há policiamento, mas do período em que fechamos até amanhecer, fica deserto, não há movimentação" completou. Consenso entre as vítimas é a demora para se conseguir atendimento da Polícia Militar. Todas reclamaram do tempo que se leva esperando a chegada dos policiais desde o momento de acionamento pelo 190. No caso do furto a loja de roupas, a proprietária Adriane Vaz contou que comunicou o crime à PM às 4h, mas que somente às 10h a viatura compareceu ao local. "Fiquei na loja esperando até às 6h. Fiquei cansada, com fome e desisti de esperar. O registro foi feito seis horas depois do acionamento."
Demora no atendimento
Comandante da 32ª Companhia da PM, responsável pelo patrulhamento da região Sul, capitão Ricardo Schaffer, explicou que, em função da reunião de Integração da Gestão em Segurança Pública (Igesp), realizada na tarde dessa terça-feira, ele não pode comparecer ao encontro com os comerciantes no São Mateus, mas garantiu que nesta quarta-feira irá procurá-los a fim de ouvi-los e traçar estratégias para melhorar a segurança na região. A respeito da demora nos atendimentos a ocorrências, o militar assegurou que irá investigar o que pode estar acontecendo, com o objetivo de sanar o problema. Quanto às ocorrências, capitão Schaffer afirmou que têm sido disponibilizadas patrulhas nos locais e horários de maior incidência dos crimes, inclusive com equipes específicas para casos de arrombamentos. Ele ainda assegurou que a PM vem trabalhando na identificação dos suspeitos com o propósito de solicitar à Justiça a prisão preventiva de cada um.
Onda de assaltos no Poço Rico
Uma recente onda de assaltos na região do Bairro Poço Rico, na Zona Sudeste, está amedrontando moradores e proprietários de estabelecimentos comerciais. O caso que mais chocou a população foi o de uma mulher, 28 anos, atingida dentro do carro com um tiro disparado por um assaltante em fuga, no último dia 19. Pelo menos outras duas ocorrências foram registradas nos dias seguintes. Para os moradores, o quadro comprova a vulnerabilidade da segurança do bairro. "A situação piorou de uns tempos para cá. Não há uma semana que não somos surpreendidos por um crime nas redondezas", reclama uma dona de casa, 32. Uma funcionário pública, 42, que mora no local há 15 anos indigna-se. "Morávamos em um bairro pacato. Agora isso acabou. Temos assaltos ao comércio no meio da manhã." Ela ainda ressalta que, depois que foram demolidas 15 casas que serviam para ponto de consumo de crack, na Rua Mariana Evangelista, no dia 26 agosto, os usuários que habitavam o local se dispersaram pelo bairro. "Infelizmente, são pessoas que nos assustam ". Um comerciante, 37, alega que nem câmeras de segurança estão conseguindo inibir os criminosos. "Eles estão audaciosos e nem ligam de mostrar a cara. As autoridades precisam se mobilizar. Se não há efetivo suficiente para a PM, porque não são abertos concursos? O que não pode é a população se sentir acuada", questiona.
Retrospecto
No caso do tiro contra a carona de um carro, a informação é de que ela estava em um Focus, que trafegava pela Avenida Francisco Valadares, no sentido Poço Rico/Vila Ozanan. Quando passava perto de uma loja de materiais de construção assaltada, o motorista diminuiu a velocidade. Nesse momento, houve um disparo que atingiu a mulher na região torácica. O tiro teria sido feito em uma suposta tentativa de roubar o automóvel para a fuga. Um adolescente, 17, foi apreendido como suspeito de efetuar o disparo. Um revólver calibre 32 foi encontrado escondido na calça dele. Dez munições deflagradas e uma intacta foram recolhidas.
Na sexta-feira dia 20 de setembro, um disque cerveja foi assaltado por um jovem de 22 anos armado, na Rua Viscondessa Cavalcante, por volta das 10h da manhã. Ele teria levado uma bolsa preta com R$200, além de um celular. Conforme a PM, o suspeito entrou no estabelecimento e apontou a arma para a vítima, 53, anunciando o assalto e mandando que ela ficasse quieta e entregasse tudo. O jovem teria, inclusive, mostrado o lugar onde o dinheiro fica guardado. O suposto autor foi visto por testemunhas fugindo em uma bicicleta, passando por um beco de acesso à via férrea. Os policiais fizeram buscas em sua casa, mas só apreenderam uma camisa. Entretanto, durante rastreamento pelo bairro, a PM prendeu um jovem de 19 anos, suspeito de ser coautor do crime. Ele estava com a bicicleta usada na ação e seria o dono do veículo.
Mais recentemente, na terça-feira, 24, o dono de uma padaria, na Rua da Bahia, foi assaltado depois que já tinha encerrado o expediente e fazia o fechamento do caixa, junto com um cliente que também permaneceu dentro da padaria. Ao saírem, foram abordados por dois homens armados e obrigados a voltarem para o interior do estabelecimento. Foram levados R$120 em dinheiro, telefone e documentos pessoais das vítimas. A polícia fez rastreamento pela região, mas ninguém foi encontrado.
Área recebe monitoramento da polícia
De acordo com o comandante da 135ª Companhia da Polícia Militar, responsável pelo patrulhamento na região do Poço Rico, capitão Mário Cesar Polidoro, a corporação vem trabalhando de forma estratégica para melhorar a segurança na área. Segundo ele, os pontos de maior incidência de ocorrências policiais já foram mapeados e contam com monitoramento. Além disso, o militar afirma que as viaturas destinadas ao atendimento à população, quando não estão empenhadas em registros específicos, estão realizando o patrulhamento permanente da região. "O objetivo é ter a presença de mais policiais nas ruas, para garantir mais segurança para população, e também inibir a ação de delinquentes".
O capitão ressalta que a comunidade pode colaborar denunciando qualquer movimentação suspeita e presença de pessoas estranhas ao redor das casas e dos estabelecimentos comerciais. "Sempre que perceberem algo que saia da rotina do local, a PM deve ser avisada por meio do 190", enfatiza o militar, lembrando que Disque Denúncia 181 também pode ser utilizado para esse tipo de comunicação. No caso da mulher que foi baleada no carro, depois de um assalto, capitão Floriano afirmou que a PM deu uma resposta imediata à população com a prisão do suspeito.
A assessoria de comunicação da Polícia Civil informou a 6ª Delegacia, que responde pela investigação de crimes na área do Poço Rico, trabalha para identificar os suspeitos envolvidos nas ocorrências, para posterior providências e prisões necessárias. Esclareceu ainda que, no último dia 17, foi preso em virtude de mandado de prisão o autor de assalto cometido contra uma distribuidora de frigoríficos, na região Sudeste, onde o suspeito junto com dois adolescentes entraram no local e trancaram os funcionários na câmara frigorífica, roubando R$ 800 e uma televisão. Na mesma região, o mesmo suspeito também junto com um adolescente roubou R$ 14 mil de uma empresa. Segundo a assessoria, o suspeito pode estar envolvido no homicídio de um adolescente de 14 anos, morto por uma bala perdida em uma troca de tiros no Bairro Santo Antônio, no início desse mês.
O delegado Leonardo Bueno Procópio, titular da 6ª Delegacia, disse que já solicitou à Vara da Infância e Juventude o acautelamento de dois adolescente apontados nas investigações como os principais suspeitos da maioria dos crimes contra o patrimônio com violência na região Sudeste. Segundo ele, a retirada destes jovens das ruas irá contribuir para a diminuição significativa destes casos.









