Comunidades reféns de brigas entre gangues rivais
Pai do Jardim Natal. Mãe do Jóquei Clube. Uma criança de 7 anos no meio do caminho. Separados, o pai não pode entrar no bairro da mãe e vice-versa. Por conta da guerra urbana travada entre os dois bairros, a menina está sendo tolhida de uma convivência familiar mais harmônica. "Quando ela quer vê-lo, tenho que levá-la até o meio do caminho. Ele ou os avós descem e a pegam. Ele não pode vir aqui vê-la ou buscá-la, e eu não posso entrar lá no Jardim Natal", explica a mãe da menina, uma dona de casa, 20.
A história é real e resume o cotidiano vivido pelas comunidades de ambos os bairros, reféns da rivalidade que tem resultado em mortos e feridos. Apesar de vizinhas, as áreas são territórios inimigos. Somente uma trilha separa geograficamente as duas regiões. Conhecido pelos moradores como Faixa de Gaza – em referência à região de conflito entre israelenses e palestinos – ou Beco da Matança, o pequeno caminho de terra, paradoxalmente, também é o que une as áreas violentas. Juntos, os dois bairros concentram 30% das 71 tentativas de homicídio registradas na Zona Norte, segundo dados levantados pela Tribuna, em parceria com a Ronda Policial, da Rádio Solar AM. Somente este ano, de 1º de janeiro a 10 de julho, 22 pessoas foram atingidas por criminosos. Dezessete foi o número de feridos somente no Jóquei, bairro que lidera o ranking de tentativas de homicídio este ano. Outros cinco foram baleados no Jardim Natal.
Os números lembram os de uma guerrilha urbana, e a situação não é recente, mas vem se intensificando nos últimos anos. O alarmante é que agora, além de serem obrigados a se adaptarem ao clima de hostilidade, os moradores estão na linha de tiro, sendo alvos das brigas diárias e dos tiroteios inesperados. No dia 16 de junho, três moradores do Jóquei Clube foram atingidos, entre eles uma mulher, 24, que chegou a perder o movimento da mão por conta do tiro. No mesmo episódio, uma residência sofreu mais de dez perfurações à bala na Rua Antônio Armando Pereira.
Rotina nos bairros
A Tribuna esteve nos bairros no intuito de entender o que está acontecendo na região e constatou que, além dos riscos, os direitos básicos de quem vive nos dois bairros estão sendo cerceados. Moradores não podem ir e vir. Não podem conviver com vizinhos com tranquilidade. Não podem nem mesmo deixar as crianças brincarem nas ruas. Não podem desfrutar de momentos de lazer, soltar pipa ou ver televisão.
"Tenho 57 anos. Conheço e respeito todo mundo no bairro. Moro ali (mostrando a casa) e tive que tirar a minha televisão da sala por conta dos tiros. Agora só tenho TV nos cômodos de trás. Estamos reféns dessa situação. Íamos ter festa da igreja e não teve por conta dessas brigas", conta o pedreiro, do Jóquei.
Outro pedreiro, 25, mas morador do Jardim Natal, também relata temor ao sair à rua. "Estamos com medo, pois o cara que tomou o tiro aqui não tinha nada a ver com essa briga. Era um trabalhador e estava construindo uma casa aqui no beco. Mas os meninos do Jóquei vieram e deram três tiros nele. Estou aqui na rua, ‘viajando’ na pipa, mas a gente tem que ficar ‘ligado’ porque a qualquer momento chega um carro e é tiro para todo lado. Os conflitos acontecem entre os adolescentes, mas sobra para todo mundo. Eu mesmo trabalho com três pessoas que moram no Jóquei e não há problemas entre a gente. Mas eles sofrem represália dos moradores de lá. E eu também aqui não sou olhado com bons olhos."
Para Denilson Abreu Romano, membro da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da OAB, a situação é extremamente grave. "A OAB pugna pelo respeito aos direitos fundamentais do cidadão, pela retomada da ordem democrática de direito em nossa cidade. É inaceitável que munícipes estejam compelidos e constrangidos em seus sagrados direitos de ir e vir, sejam ou não moradores da localidade. Todos devem ter acesso a logradouros públicos, obviamente não sofrendo agressões em suas integridades físicas e psíquicas, ressalvando-se, também, seus bens e patrimônios."

Atores dos confrontos confirmam ameaças
As situações de violência são confirmadas não somente pela comunidade, como pelos próprios atores dos confrontos. "Já está sobrando até para inocente. Em um domingo (dia 14 julho), quem foi atingido foi um morador que não tem nada a ver com as brigas. Se estão vindo aqui atirar em inocente, vamos lá também", diz em tom de ameaça um adolescente, 16, do Jóquei Clube.
No outro lado, no Jardim Natal, as declarações são as mesmas. Na tarde de uma terça-feira, em um salão improvisado em uma garagem, dois adolescentes envolvidos nas rixas confirmaram as afrontas. "Eles é que vieram aqui e mataram um inocente perto da trilha. Depois fomos lá", conta o rapaz, 16.
Diante da realidade sangrenta, o medo de ser a próxima vítima é unânime. Perto do ponto final do Jóquei, na Rua Benjamin Marques, onde em 27 de junho dois jovens foram alvos de disparos, moradores não gostam de comentar os episódios: "Fico com medo de falar moça", dispara uma jovem. "O que a gente presencia aqui é assustador. Em um dia desses ouvi gritos: ‘tira as crianças da rua que vem o pessoal do Natal. Vi quatro meninos chegando armados pelo escadão", conta um vigia, 48, que trabalha no Jóquei.
"Não temos tranquilidade. No domingo cedo (14 de julho) vieram, deram tiro e atingiram um morador. Outro dia foi às 16h. Essa região em torno do ponto final do 701 (linha do transporte urbano) é ainda pior, pois é a divisa dos dois bairros. Naquele pasto, os meninos do Jardim Natal dão sinal de que virão para o Jóquei. Soltam foguetes, se comunicam e invadem o Jóquei. Se começa o movimento lá, já sabemos que é hora de entrar para casa, de colocar as crianças para dentro", conta uma auxiliar de cozinha, 45.
Uma estudante, 15, relata o clima de tensão. "Outro dia mesmo estava descendo para ir para o colégio e deram três tiros, era de dia. É muito ruim viver assim. Não podemos andar na rua livremente, passear com as crianças nem no domingo. Até as meninas estão sendo ameaçadas, dão tiro em quem estiver junto dos garotos, estão atirando em pessoas inocentes", desabava.
"Toda nossa vida é alterada por essa rotina de brigas: temos que mudar horários, evitar alguns lugares com medo de sermos confundidos. Às vezes, as escolas fecham por conta disso e não temos nem onde deixar nossos filhos. Como trabalho, fico preocupado. Mas vamos vivendo o dia a dia, convivendo com os riscos e pedindo a Deus proteção", desabafou um vigilante, 34.
Mortes em uma briga sem fim
Diney, Luan, Lucas, Helder, Thiago, Dona Laura, Malabin, Pacheco. Nomes e apelidos dos oito jovens que não conseguiram escapar da morte durante os confrontos registrados nos últimos anos. Quatro baques de cada lado, oito famílias destruídas. "Quando morreu, eu estava grávida. Era um menino, como ele queria. No começo foi muito difícil aceitar. Não gostava nem de conversar com os meninos, não gostava de passar na rua. Agora estou melhor, pois a vida continua", conta uma adolescente, 17, mãe de um menino de 10 meses, filho de uma das vítimas da rivalidade entre os bairros.
Entre os adolescentes envolvidos, o único medo parece ser o da perda. "Já levei tiro, mas não fui atingido. Consegui sair. Disso não tenho medo. O que tenho medo é de, para me atingir, fazerem algo com a minha família. Já perdi quatro amigos, e se é ruim perder amigo, imagina perder parente?", desabafa um adolescente, 16. Indagado se não seria a hora de dar um fim a essa rivalidade, ele é taxativo. "Hoje não acaba. Se tivesse como voltar no tempo, se meus amigos não tivessem morrido, quem sabe essa briga poderia ter um fim. Quem sabe?"
Ações policiais
Por ser considerada uma zona quente pelas autoridades, a região é alvo constante de ações das polícias Civil e Militar, como a operação "Impacto seguro", que aconteceu no último dia 23, quando 15 pessoas foram presas, sobretudo por tentativas de homicídio. A Polícia Militar informa que várias são as frentes de atuação dos militares no sentido de garantir a segurança da população. Recentemente houve a divisão da Zona Norte em duas companhias de polícia, e a corporação se apoia, ainda, em serviços como "Ambiente de paz "e as "Patrulhas de prevenção a homicídios". Especificamente na área do Jóquei Clube, em sua divisa com o Bairro Jardim Natal, a PM lança mão da "Patrulha de prevenção ativa" (PPA), capacitada para, em parceria com a Polícia Civil, atuar na identificação e prisão de autores dos crimes.
À frente da 3ª Delegacia de Polícia Civil, responsável pela apuração dos crimes na Zona Norte, o delegado Rodolfo Rolli, não se espanta de a área concentrar o maior número de tentativas de homicídio por três motivos: alta concentração demográfica, rivalidades e tráfico de drogas. "Existe uma batalha antiga por áreas de tráfico entre Jóquei e Jardim Natal. Isso colabora, inclusive, para casos de acertos de contas, no qual um grupo investe contra o outro em ações armadas. É uma desforra cíclica. Há sempre uma turma tentando eliminar um elemento da outra." Rolli também enfatiza que a Zona Norte é carente no que diz respeito à questão social. "Faltam equipamentos culturais, esportivos, praças públicas e iluminação. Essa necessidade colabora com a violência."
Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social (SDS), um Curumim, voltado para crianças e adolescentes, entre 5 e 14 anos, foi inaugurado este ano no Jóquei, e a previsão é de que comece a funcionar no dia 12. A secretaria destacou também outros projetos sociais, como Casa do Pequeno Jardineiro e Casa da Menina Artesã.
A violência entre os jovens da cidade, abordada essa semana na série "Por um triz", foi tema de debate nesta quinta-feira (1), no programa "Rádio vivo", da Rádio Solar AM. O radialista Marcelo Juliani, ao lado dos jornalistas Renata Brum e Marcos Araújo, da Tribuna, e Gláucio Grigori, da Rádio Solar, recebeu a delegada da Polícia Civil, Sheila Oliveira, e o assessor de comunicação organizacional da Polícia Militar, major Jeferson Ulisses Pires.
‘Não tínhamos intenção de matá-lo. Só queríamos bater’
Na busca por revelar a origem dos conflitos, a Tribuna ouviu um dos jovens do Jardim Natal que participou do assassinato do jardineiro Valdiney Fernandes de Paiva, 18, em 28 de abril de 2007. A vítima, que era morador do Jóquei Clube, foi um dos primeiros a ser morto em razão da rivalidade entre os bairros. Ele foi agredido brutalmente com pedradas e sofreu esmagamento de crânio. O jovem que participou da agressão passou por acautelamento e hoje, com 22 anos, diz ter mais consciência dos atos cometidos quando tinha 16. Ele revela que a intenção não era matar.
Tribuna – De onde surgiu essa rivalidade?
Jovem de 22 anos – Veio com o tempo e hoje passa de geração a geração. Não havia briga entre o Jóquei e o Jardim Natal. O Jardim Natal não ‘fechava’ com o Milho Branco, mas houve uma desavença com os meninos do Jóquei no Parque de Exposições e foi tomando outras proporções. Matamos o Diney, e, a partir daí, a rixa cresceu, piorou.
– Você foi detido?
– De imediato não. A polícia veio aqui e apreendeu só um. Mas depois fui. Fiquei no Instituto Jesus por dez meses.
– E você se arrepende?
– Não tínhamos intenção de matá-lo. Só queríamos bater, mas aconteceu. Hoje vejo que não vale a pena, que essa briga não leva a nada. Mas só hoje tenho essa consciência.
– E como você vive hoje?
– Sei que não posso ir lá no Jóquei. E sei que mesmo aqui, ainda sou alvo para eles. Isso não acaba.
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