Falhas na estrutura e na segurança da rodoviária

Lonas colocadas para minimizar problema com goteira
Banheiros limpos, novos guichês de tarifas e funcionários uniformizados. As melhorias recentes no Terminal Rodoviário Miguel Mansur, porém, não conseguem esconder problemas, como falhas na estrutura e na segurança. Se quem circula esporadicamente se contenta com as benfeitorias, quem trabalha ou usa o local com mais frequência relata desconforto e medo. Comerciantes e usuários questionam que as falhas vão desde problemas nos bebedouros, falta de energia até a presença de goteiras em dias de chuva. "Quando chove, se bobear, é melhor ficar lá fora do que aqui, porque molha tudo", dispara uma balconista de lanchonete, 32 anos. "Aqui é um verdadeiro queijo suíço. O pior é que os usuários pagam taxas dentro da rodoviária e não têm conforto, e os lojistas, além de pagarem aluguel e condomínio, por vezes, têm prejuízos com as goteiras. A loja aqui ao lado já chegou a ficar inundada", comenta Alexandre Monteiro, proprietário da banca de jornais do terminal.
Um sobrevoo realizado pela Tribuna na área revelou o motivo de tantas goteiras. Boa parte do telhado está coberta por plásticos e outra apresenta ferrugens. Até mesmo dentro do terminal é possível constatar as emendas feitas com silver tape (fita aluminizada usada em reparos de tênis), na tentativa de minimizar os alagamentos. "Já estou cansada de secar o chão. Quando chove, escorre pela parede, pinga no balcão e molha toda lanchonete. A gente é obrigada a por balde e ficar secando o tempo todo", conta outra atendente de lanchonete, 19.
Para o bilheteiro Wellerson Gomes, a falta de estrutura dificulta o atendimento. "Não há sequer um gerador. Outro dia ficamos sem luz quase quatro horas depois de um acidente. Quando chove, também é assim. Não conseguimos atender ninguém. Além disso, ficamos suscetíveis a furtos e roubos, pois não há segurança." Outro agente de viagens, 30, reforça. "Quando a luz acaba, só conseguimos vender passagem enquanto o no break dos computadores fica aceso."
Insegurança
Com relação à insegurança, o clima fica mais tenso no fim da tarde e durante a noite por conta da presença de pedintes e dependentes de droga, que chegam a cobrar pedágio de quem utiliza o acesso dos fundos, pela passarela do Fábrica, ou para carros na área de carga e descarga. Prostituição, venda e consumo de drogas e comércio de produtos roubados também ocorrem no local. Na terça-feira da última semana, um dos rapazes ofereceu um relógio sem procedência para a reportagem por R$ 20. Sem policiamento, usuários e comerciantes se sentem reféns. "Fica complicado, pois trabalhamos com encomendas e ficamos aqui até tarde. Quando chega a noite, temos que fechar tudo com receio. O grupo que fica aqui atrás intimida os pedestres, forçando-os a dar dinheiro", conta um bilheteiro, 30 anos.
Sinart garante soluções ainda este ano
Com mais de 16 mil metros quadrados de área construída, o Terminal Rodoviário Miguel Mansur foi projetado na década de 1980 e inaugurado em 1988. Apesar de ser responsabilidade da Settra, desde 2000 o espaço é concedido à Sinart.
Nos 25 anos de existência, o terminal nunca sofreu grandes intervenções na estrutura, mesmo recebendo um fluxo anual de dois milhões de usuários. Em 2010, ano em que foi renovada a concessão da Sinart por mais dez anos, os problemas no chegaram a ser tema de audiência pública na Câmara Municipal, quando foram apontadas necessidades de reforma e adequação do espaço.
No site oficial da Sinart, a informação é de que a rodoviária "está completamente reformada, a partir de investimentos de mais de R$ 3 milhões nos últimos cinco anos". Mas, em entrevista à Tribuna, o gerente da empresa, Artur Rodrigues Bittencourt, explica que muitas das intervenções ainda estão em andamento, mas diz que a previsão é de finalização das obras até o fim do ano.
"Realizamos várias melhorias ao longo dos anos. E, na renovação do contrato, foram incluídos itens como contrapartida da Sinart, entre eles a revisão do telhado, a recuperação do estacionamento, a troca do sistema de para-raios, a recuperação do pátio de manobra dos ônibus e a aplicação de piso tátil no terminal. A troca do sistema de para-raios foi realizada, assim como a recuperação da pista de manobra. O estacionamento foi automatizado, e estamos finalizando a recuperação do piso com data prevista para junho. Já o telhado, que é o item que mais demanda atenção, está sendo recuperado. Já foram realizados investimentos de R$ 300 mil com impermeabilização e reparos de dois mil metros lineares de calha e 1.500 metros quadrados de telhas substituídas, mas é uma ação que precisa ser bem planejada para não afetar a operação do terminal. Colocamos algumas lonas para minimizar o problema, mas, até dezembro, mais R$300 mil serão investidos para solucionar as goteiras", garante Artur, ressaltando que boa parte do telhado danificado está no setor desativado do terminal. "Um terço da rodoviária não é utilizada como terminal, apenas como depósito."
Subsecretário de Mobilidade Urbana da Settra, Mauro Branco destaca que a fiscalização da concessão é realizada de perto pela secretaria, que está atenta aos problemas. "Temos funcionários que atuam diretamente no terminal para verificar tudo." O subsecretário adiantou que, além das obras em finalização para melhoria dos serviços, já está em estudo a reformulação dos acessos ao terminal, com readequação dos fluxos da Avenida Brasil, com pequenas intervenções estruturais.
‘Insegurança predomina, e não há a quem recorrer’
O problema da insegurança é recorrente. Em 2011, ano em que um jovem de 25 anos foi esfaqueado no terminal, em plena luz do dia, a Tribuna denunciou a situação. Na época, a reportagem foi abordada duas vezes de forma agressiva pelos homens que ocupam o acesso entre a passarela e a rodoviária. Após as denúncias, câmeras foram instaladas na área, mas não conseguiram impedir as abusos. "Eles estão agressivos. Um dia desses, um deles quis agredir o motorista de um caminhão que descarregava aqui, porque ele negou a dar-lhe o dinheiro", conta um gerente de cargas, completando. "A insegurança predomina, e não há a quem recorrer, não há polícia, e os guardas municipais aparecem esporadicamente."
A situação faz com que usuários evitem ficar muito tempo no terminal, sobretudo à noite ou de madrugada. "Faço residência médica em São Paulo, mas minha família é daqui, e uso a rodoviária pelo menos duas vezes por mês. Observo que falta policiamento ou fiscalização para dar segurança aos usuários, apesar de, em termos de limpeza e organização, ter havido melhorias significativas. Como sempre viajo à noite, já chego na hora de o ônibus sair para evitar ficar aqui", comenta a médica Sheyla Lisboa, 28. A dentista Martha Bellini Lovisi tem a mesma opinião. "Não há segurança. Toda semana viajo de madrugada para o Rio e retorno no outro dia à noite. Nunca vejo policiamento. Pelo contrário, vejo pedintes e até prostituição."
O gerente da Sinart, Artur Rodrigues Bittencourt, diz que a empresa que administra o local está ciente da situação, mas explica que os funcionários não têm poder de polícia. "Instalamos 32 câmeras, seis só na área mais crítica, e repassamos as imagens à polícia." Subsecretário de Mobilidade Urbana da Settra, Mauro Branco diz que há espaços estruturados disponibilizados para a Polícia Militar e para a Guarda Municipal no terminal, e que as corporações têm atuado em rondas diárias e, de forma especial, em datas de grande movimento de passageiros.
A Polícia Militar diz que reconhece a necessidade de policiamento na área, sobretudo por se tratar de uma das principais portas de entrada da cidade. "Temos conhecimento da situação e consideramos a região dos fundos do terminal e da passarela como um ponto crítico, que carece de atenção. Uma viatura realiza o patrulhamento na região e na Rua Bernardo Mascarenhas por conta do fluxo de pedestres intenso", explica o assessor de comunicação organizacional do 27º Batalhão, tenente Jean Amaral. Questionado sobre o posto montado no terminal, o assessor explica que a unidade é utilizada apenas como ponto de apoio para fazer o Registro de evento de defesa social (Reds). "Hoje não é planejamento da PM reabrir os postos de policiamento comunitário (PPCs)."









