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Lixarte resiste e alça novos voos

Projeto comunitário realizado na Vila Olavo Costa agora desenvolve suas atividades na sede do Núcleo Travessia

Por Marcos Araújo

02/02/2019 às 17h31

“(…) a Lixarte é, para nós, um meio de buscar sempre alguma coisa a mais, mesmo com todas as dificuldades, tentando sempre fazer algo de melhor para a comunidade. Acredito que, se cada um pensasse um pouco, fizesse um pouquinho e ajudasse, não teríamos tantos problemas” Reginaldo Barbosa da Silva, o Bulú, líder comunitátio (Foto: Fernando Priamo)

Um gigante guerreiro de um metro e setenta centímetros, 60kg e prestes a completar 60 anos de vida no dia 9 de maio. Assim, os amigos adjetivam Reginaldo Barbosa da Silva ou Bulú, para os íntimos. Ele é o homem à frente da Lixarte – Associação de Reciclagem e Artesanato, que atua na Vila Olavo Costa, região Sudeste de Juiz de Fora, há 14 anos. Com fala mansa, simpatia no rosto e muita simplicidade, Bulú recebeu a equipe da Tribuna de chinelo, bermuda e camisa de malha, desapegado de qualquer tipo de vaidade, mas pleno de satisfação.

A alegria é justificada pelo espaço conquistado dentro da sede do Núcleo Travessia, onde a Lixarte vai começar a atuar, oferecendo oficinas de artesanato, desenho, capoeira, dança e percussão a adolescentes dos bairros ao redor da Vila Olavo Costa. Essa área da cidade é marcada por um trágico histórico de violência. Liderou, em algumas ocasiões, os índices de criminalidade no município, mas, em 2018, a Zona Sudeste, registrou uma redução nos casos, conforme levantamento do jornal que leva em conta assassinatos consumados e também as mortes ocorridas como consequências das tentativas de homicídio nas unidades de saúde, inclusive feminicídios, além de latrocínios (roubos seguidos de morte) e lesões corporais fatais. Foram 12 homicídios na região contra 24, em 2017.

A ideia de criar a Lixarte surgiu do sonho do menino Bulú, que de sua mãe aprendeu que o respeito à vida das pessoas era o que mais tinha importância neste mundo. Crescido na vila, ali ele plantou a semente para a concretização do seu desejo, mas teve que transpor diversas barreiras. “Sonhava em não ver mais garoto ser morto, porque, se você não vive direto com ele, vive-se perto do pai dele ou de alguém da convivência dele. E, de repente, recebemos a notícia de que ele foi assassinado. Dava aquele sentimento de que eu poderia ter feito alguma coisa e me questionava porque não tinha feito. Mesmo ser esse adolescente perdido para a violência distante da gente, quando temos o comprometimento com o trabalho social, isso dói muito para mim e para todos nós que estamos aqui fazendo este trabalho. Então, a Lixarte é, para nós, um meio de buscar sempre alguma coisa a mais, mesmo com todas as dificuldades, tentando sempre fazer algo de melhor para a comunidade. Acredito que, se cada um pensasse um pouco, fizesse um pouquinho e ajudasse, não teríamos tantos problemas”, filosofa Bulú.

Recursos e voluntários

Para se manter de pé, a associação corre atrás de recursos e voluntários. O lema é nunca parar. No início, as atividades aconteciam na laje da casa da mãe de Bulú. A vitória do espaço físico, apesar de outros contratempos, foi sempre o obstáculo mais árduo. Agora, com o uso das instalações do Núcleo Travessia, o projeto quer aumentar o número de participantes. “Quando tínhamos a laje, não conseguíamos concentrar grande número de adolescentes nas nossas atividades. Aí, recorríamos a um espaço ali, outro aqui. Era uma dificuldade, porque trabalhamos com apresentações culturais, que precisavam de ensaios e eventos. Com o espaço que agora temos à nossa disposição, fica mais fácil para desenvolver nossas ações e trazer a juventude para ouvir nossas palestras sobre emprego, renda, comércio justo e para as oficinas que ministramos”, anima-se o gigante guerreiro.

A Lixarte está com inscrições abertas, e os interessados em participar devem preencher um cadastro. Para tanto, basta procurar pelo Núcleo, na Rua Jacinto Marcelino 25, na Vila Olavo Costa, e falar com Bulú, que garante estar lá todos os dias para receber os interessados. As oficinas serão realizadas sempre às terças e quintas-feiras, na sede do Travessia, e não precisa pagar nada.

Resistência da própria comunidade

Lavínia Rufino de Oliveira, que também integra a dupla de rap Vozes do Equilíbrio, vai ministrar uma das oficinas do Lixarte

Além dos obstáculos estruturais e financeiros, outra forma de resistência que a Lixarte enfrenta, segundo Bulú, é da própria família dos adolescentes. “Muitas vezes, os pais não aceitam a participação deles. É uma forma de resistir, por exemplo, até religiosa, pois o filho quer fazer capoeira, mas o pai não aceita, porque relaciona essa arte à macumba. Muitos garotos vêm e participam, mas não podemos obrigá-los. Fazemos uma oferta, mostrando como funciona, como é o caminho, na tentativa de conquistá-los. Se conseguimos 50 garotos é bom, mas não conseguimos manter esse número até o fim, porque sempre há evasão por diversos motivos. Então, a gente já aprendeu a lidar com isso. Começamos com 50 e, de repente, só tem cinco, mas não desistimos”, enfatiza o líder comunitário.

 

Ele acrescenta que segurar os adolescentes nas oficinas é tarefa difícil. “Por exemplo, vamos fazer um evento e dependemos de recurso. Há a promessa de apoio do Poder Público e, na hora, ele larga a gente na mão, e o garoto pensa que nós o enrolamos. E essa falta de recurso não é só para a Vila Olavo Costa, mas para qualquer bairro da periferia. Levantamos um projeto que vai custar R$ 3 mil e alguém se compromete em bancar esse recurso. A gente realiza o projeto e, depois, querem nos dar só R$ 1 mil. Assim não há condições. Há muitos espaços ociosos, como quadras de escola de samba vazias. Se esses locais fossem usados para fazer trabalho social, isso seria maravilhoso”, vislumbra.

Bulú adverte que outro ponto deveria ser revisado para a elaboração de projetos nas comunidades por parte das instituições responsáveis. “Só olham para a formação acadêmica, mas aqui temos pessoas competentes que já estão acostumadas com esses adolescentes e têm muito a contribuir. Às vezes, os projetos aparecem aqui e tem gente com formação acadêmica, mas a pessoa não tem vínculo com a comunidade, o que ocasiona a evasão dos projetos. Se não houver esse vínculo, faltar a presença de alguém de dentro da comunidade, o projeto tende à evasão.”

 

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A educação é transformadora

A educadora social Maria Geralda vai ministrar oficina de bonecas que remete à história do passado dos escravos negros que vinham para o Brasil
(Fotos: Fernando Priamo)

A educadora social Maria Geralda, formada na Rede de Educadores de Economia Solidária do Estado de Minas Gerais, é uma das oficineiras da Lixarte. Ela vai ensinar a confecção das bonecas Abayomi. Para ela, o melhor que existe para transformar a comunidade é a educação, que considera ser a base de tudo junto com políticas públicas voltadas para os adolescentes. “A oficina que vou ministrar não se fecha apenas no modo de fazer da bonequinha e servir para dar um retorno financeiro, mas é um modo de contar a história do povo negro e empoderar nossas meninas e mulheres negras. Quem vê essa boneca amarrada quer saber a história delas, pois elas foram criadas por mulheres que eram traficadas do seu continente para outro. Elas rasgavam as suas roupas para fazer as bonecas, que serviam de distração das crianças a fim de que ficassem quietas nos navios, sem chorar, para não serem jogadas no mar”, conta a educadora.

Ela diz que o seu desejo, na Vila Olavo Costa, é resgatar a história da comunidade e reforçar as manifestações que lá já existem. “Temos poetas, sambistas, capoeiristas, batuqueiros e, por meio deles, podemos trazer paz para a comunidade e todo o seu entorno que tem um índice de violência grande, porque o Poder Público precisa ter um olhar diferenciado. Não basta trazer só polícia, mas trazer atividades para que nossos jovens tenham o que fazer”, pontua, ressaltando que a Lixarte, dentro das suas possibilidades, tenta ocupar esse vácuo, seguindo o seu regimento, prestando assistência social e cultura. “A educação não muda o mundo, mas transforma as pessoas e faz elas pensarem diferente, o que já é um começo”, prega Maria Geralda.

A adolescente Lavínia Rufino de Oliveira, 17, faz parte da Lixarte, há três anos. Ela também integra a dupla de rap Vozes do Equilíbrio e já participou de evento, em 2016, cantando nas comemorações da Semana da Consciência Negra. Seu trabalho fala de desigualdade, preconceito e do cotidiano marcado pelas despedidas de parentes e amigos vitimados pela violência. A jovem vai ministrar uma oficina, na qual pretende passar aos participantes tudo o que já aprendeu. “Esse projeto é um direito de escolha que eles têm, pois aqui é uma saída para a juventude. Agora temos o espaço e queremos chamá-los para cá e mostrar que eles podem conseguir outras coisas com aquilo que eles gostam de fazer”, afirma Lavínia, que estuda no segundo ano do ensino fundamental. “A arte e a cultura têm um papel transformador na vida das pessoas. Isso aconteceu comigo, pois eu consegui uma bolsa de estudo de inglês por meio dessas atividades. O Bulú sempre abre portas para a gente, e hoje faço, realmente, o que eu gosto e aprendi com ele.”

Segundo a secretária de Desenvolvimento Social, Tammy Claret, umas das missões do Travessia é integrar a comunidade com o equipamento. O início das atividades da Lixarte no local só reforça o compromisso da administração em estabelecer diálogo direto com a comunidade. A ideia é que outras entidades civis organizadas possam ocupar o núcleo e desenvolver projetos que auxiliam na formação dos moradores da Olavo Costa e região.

Unidos pela arte

Evaristo ministra oficinas de desenho, futebol e capoeira, das quais participa seu filho Pedro (abaixo),de 12 anos

 

Evaristo Teixeira de Carvalho, 39, e o filho Pedro Andrade de Carvalho, 12, participam da Lixarte. O pai como oficineiro de desenho, futebol e capoeira. O filho como aluno das aulas. “Queremos trazer a molecada para cá para fazer parte, aproveitar esse espaço e valorizar nossa comunidade. Eles precisam entender que a participação deles é legal, para ocupar o tempo. As oficinas estão abertas para pessoas de todas a idades e são gratuitas”, lembra Evaristo. “Eu acho muito legal, pois é uma forma de expressar o que temos em mente e reforçar a cultura do nosso povo que vem sendo destruída há muitos anos. É forma de não deixar a nossa cultura morrer e de tirar as crianças da rua”, fala com maturidade o pequeno Pedro.

Bulú, que ganhou o apelido da brincadeira de “bilú, bilú, bilú”, que era mania de sua avó, é teimoso e resistente. Como dizem os amigos: um gigante guerreiro. Junto de sua trupe de oficineiros-artistas-educadores-voluntários quer mudar a cara da periferia. Para tanto, suas palavras de ordem são: sobrevivência, futuro, felicidade, caminho e realizações.

 

 

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