Polícia recebe imagem de atentado ao Porta dos Fundos; vídeo mostra integralistas

Mesmo grupo teria feito ataque na Unirio no fim do ano passado, queimando bandeiras e faixas antifascistas


Por Denise Luna, Mariana Durão e Marcelo Godoy para Agência Estado

26/12/2019 às 14h08- Atualizada 26/12/2019 às 14h36

integralistas
Vídeo que circulou nas redes sociais mostra militantes mascarados (Foto: Reprodução/YouTube)

A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga a participação de um grupo que se diz integralista no atentado contra a sede da produtora do canal Porta dos Fundos. Na quarta-feira (25), os integrantes desse grupo divulgaram um vídeo com imagens do ataque no YouTube, mostra reportagem da edição desta quinta-feira (26) do jornal “O Estado de S. Paulo”. O jornal confirmou que as imagens são da ação contra a produtora.

No vídeo, integrantes do grupo que se autodenomina Comando de Insurgência Popular Nacionalista da Grande Família Integralista Brasileira aparecem mascarados e leem um manifesto enquanto imagens do ataque com coquetéis Molotov são exibidas. A filmagem é feita por uma câmera que acompanha a ação. São três os homens que jogam os coquetéis e um que filma.

O mesmo grupo teria feito um ataque na Universidade Federal do Estado do Rio (Unirio), em Botafogo, no fim do ano passado, queimando bandeiras e faixas antifascistas. A polícia do Rio examina essas imagens e outras de câmeras de segurança que registraram o atentado contra a produtora, no Humaitá, no Rio.

O vídeo das câmeras de segurança mostra o momento em que pelo menos três pessoas – duas em uma caminhonete, uma em uma motocicleta – participaram do ataque à fachada do prédio, com duas bombas incendiárias, às 4 horas da véspera de Natal. Ninguém foi ferido, e o fogo foi apagado por um segurança do prédio.

“O Porta dos Fundos condena qualquer ato de violência e, por isso, já disponibilizou as imagens das câmeras de segurança para as autoridades”, informou na quarta-feira o grupo em nota. O texto afirma ainda que o Porta espera que os responsáveis pelos ataques “sejam encontrados e punidos”.

O caso está sob investigação da 10.ª DP (Botafogo) como crime de explosão. O ataque pode ainda ser enquadrado na lei antiterror, que define como terrorismo o ato de usar explosivo “por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião” com a finalidade de “provocar terror social”.

Polêmica

O canal de humor virara alvo de críticas desde o lançamento do especial de Natal A Primeira Tentação de Cristo, na Netflix. A produção mostra um Cristo gay, interpretado por Gregório Duvivier, com um namorado. O personagem é surpreendido por uma festa, em que é revelado que ele é Filho de Deus e fora adotado por José e Maria. Um abaixo-assinado online pediu a retirada do programa da Netflix.

No dia 19, a Justiça do Rio negou liminar a um pedido de uma associação religiosa para que programa fosse removido do site.

A decisão afirmou que não havia motivos legais para a remoção. Segundo a Justiça, determinação diferente da sua seria “inequivocamente censura decretada pelo Poder Judiciário”.

Em nota, os integrantes do grupo disseram ainda que seguirão em frente, “mais unidos, mais fortes, mais inspirados e confiantes que o País sobreviverá a essa tormenta de ódio, e o amor prevalecerá junto com a liberdade de expressão”.

Polícia Civil cria força-tarefa para investigar atentado ao Porta dos Fundos

A Polícia Civil do Rio criou uma espécie de força-tarefa para investigar o atentado. “Houve de fato um perigo grave e concreto contra o segurança, que caracteriza uma tentativa de homicídio”, disse o subsecretário de Planejamento e Integração Operacional da Polícia Civil do Rio, Fábio Barucke, em referência ao funcionário presente no local no momento do ataque.

Barucke e o delegado titular da 10ª DP, Marco Aurélio de Paula Ribeiro, reuniram-se na manhã desta quinta-feira com o ator João Vicente de Castro, integrante do Porta dos Fundos, para tratar do ataque e de suas possíveis consequências. “Confiamos totalmente no trabalho da Polícia Civil. O Rio de Janeiro não precisa de mais violência e a gente precisa cortar esse mal pela raiz. O que aconteceu foi um atentado à liberdade de expressão”, disse Castro, em breve declaração ao sair da sede da Secretaria de Polícia Civil, no Rio.

Responsável direto pelas investigações, o delegado Ribeiro afirmou que é verídico o vídeo que circulou nas redes sociais em que integrantes do grupo que se autodenomina Comando de Insurgência Popular Nacionalista da Grande Família Integralista Brasileira aparecem mascarados e leem um manifesto enquanto imagens do ataque com coquetéis Molotov são exibidas. Sua autoria, entretanto, ainda está sendo investigada. O material está sendo analisado pela Delegacia de Repressão a Crimes de Informática.

A Frente Integralista Brasileira afirma, em nota publicada em seu site, que repudia a tentativa de associar o movimento ao ataque. A frente diz ainda que desconhece o grupo em questão e que o estatuto da frente proíbe o uso de máscaras para fins de militância.

Os policiais em princípio não enquadraram o crime na lei antiterror porque ela prevê uma conduta lesiva à organização da sociedade e ao Estado. “Nos parece que foi um ataque direcionado a uma vítima determinada”, explicou o delegado. Se o caso vier a ser considerado terrorismo sua análise seria da competência da Justiça Federal.

A 10ª DP poderá contar com o apoio de todo o aparato da Polícia Civil do Rio, com delegacias como a DRC e Homicídios, além de peritos e da inteligência da corporação. O foco da força-tarefa é frear qualquer iniciativa similar.

“A preocupação da polícia é demonstrar para a sociedade que essa conduta é grave e que eventuais repetições deste comportamento também serão punidas”, afirmou Ribeiro. “A polícia vai tomar conta e apurar todas as condutas que impliquem em manifestação de opinião e de expressão religiosa das pessoas”, disse Ribeiro.