Robô do INSS negou mais da metade dos pedidos de aposentadoria analisados automaticamente

Auditoria interna e decisão do TCU colocaram em debate o uso de sistemas automatizados na análise de benefícios previdenciários.


Por Evellyn Nascimento

19/06/2026 às 15h57

Robô do INSS negou mais da metade dos pedidos de aposentadoria analisados automaticamente

Uma auditoria realizada pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) revelou que mais da metade dos pedidos de aposentadoria e outros benefícios analisados de forma automática foram negados. Os dados reacenderam o debate sobre o uso de sistemas automatizados na Previdência Social e levaram o Tribunal de Contas da União (TCU) a exigir mudanças no modelo de análise.

Atualmente, cerca de metade dos requerimentos recebidos pelo INSS passa por avaliação automatizada, sem participação direta de servidores. A ferramenta foi criada para acelerar a concessão de benefícios e ajudar a reduzir a fila de espera, mas os números levantaram questionamentos sobre a eficiência e a transparência do sistema.

Mais de 280 mil pedidos foram negados

Segundo a auditoria interna do INSS, divulgada pela Folha de S.Paulo, 543.419 requerimentos foram analisados eletronicamente no primeiro semestre de 2025. Desse total, 280.231 acabaram indeferidos.

Na prática, isso significa uma taxa de negativa de 51,57%, superior ao número de pedidos aprovados pelo sistema automatizado.

Quando um benefício é negado, o segurado precisa apresentar novos documentos, fazer um novo requerimento ou recorrer administrativamente da decisão. Especialistas apontam que esse processo pode aumentar a demanda dentro do próprio INSS, já que muitos casos retornam para nova análise.

Problemas no Meu INSS também preocupam

A discussão ocorre em um momento em que o Meu INSS, principal plataforma digital da Previdência Social, enfrenta críticas de usuários que relatam dificuldades de acesso e instabilidades.

O sistema reúne mais de 100 serviços e registra cerca de 105 milhões de acessos por mês. Apesar disso, segurados frequentemente relatam lentidão, falhas durante a solicitação de benefícios e dificuldades para concluir requerimentos.

Especialistas ouvidos pela Folha afirmam que esses problemas podem ter um impacto ainda maior do que as negativas automáticas. Em alguns casos, usuários não conseguem sequer concluir o pedido, o que impede a entrada do requerimento na fila oficial de análise.

TCU determinou mudanças em até 180 dias

Diante das falhas identificadas, o Tribunal de Contas da União determinou que o INSS, o Ministério da Previdência Social e a Dataprev promovam ajustes no sistema em até 180 dias.

Entre os pontos apontados pelo órgão estão a necessidade de maior transparência nos critérios utilizados para as decisões automatizadas e o fortalecimento dos mecanismos de revisão das negativas emitidas pelo sistema.

A expectativa é que as mudanças aumentem a segurança jurídica dos processos e reduzam possíveis erros que afetam diretamente os segurados.

Fila de benefícios ainda supera 2 milhões de pedidos

Os desafios envolvendo a automatização acontecem em paralelo aos esforços do governo federal para reduzir a fila de benefícios previdenciários.

Em fevereiro de 2025, o estoque de requerimentos pendentes ultrapassava 3 milhões. Dados mais recentes apontam que o volume caiu para cerca de 2,19 milhões de pedidos em maio, o menor nível registrado em aproximadamente um ano e meio.

Apesar da redução, especialistas alertam que falhas tecnológicas e um elevado número de negativas automáticas podem dificultar novos avanços no combate à fila, especialmente se parte dos pedidos precisar retornar ao sistema para reanálise.