Moradores precisam viajar 437 km para fazer perícia do INSS porque não há médico disponível na região

Moradores do interior do Ceará viajam até 437 km para perícias do INSS e enfrentam altos custos e dificuldades.


Por Leticia Florenco

08/06/2026 às 20h21

Moradores precisam viajar 437 km para fazer perícia do INSS porque não há médico disponível na região
(Foto: Marcelo Casal Jr./Agência Brasil)

Para milhares de moradores do interior do Ceará, conseguir acesso a um benefício do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) tem significado enfrentar longas viagens, gastos elevados e uma rotina desgastante.

Em alguns casos, a busca por uma perícia médica obrigatória exige deslocamentos superiores a 400 quilômetros, transformando um procedimento administrativo em uma verdadeira prova de resistência.

A situação tem chamado atenção por atingir justamente pessoas que já se encontram em condição de vulnerabilidade, seja por doença, deficiência ou incapacidade para o trabalho.

Caso de Parambu expõe dificuldades do sistema

O município de Parambu, localizado no sertão cearense, tornou-se símbolo desse problema. Apesar de possuir uma agência da Previdência Social, a cidade não conta com atendimento regular de perícia médica.

Como consequência, moradores são frequentemente encaminhados para municípios distantes. O caso de Luis Tadeu de Freitas, de 54 anos, ilustra essa realidade.

Para cumprir uma perícia agendada pelo INSS, ele precisou viajar aproximadamente 437 quilômetros até a cidade de Russas.

A viagem exigiu o apoio de familiares, motorista, hospedagem e alimentação, gerando despesas que se aproximaram de um salário mínimo.

Para famílias que dependem exclusivamente dos benefícios previdenciários, esse custo representa um peso financeiro significativo.

Crescimento dos deslocamentos preocupa especialistas

Dados do Ministério da Previdência Social mostram que o problema não se limita a um único município. Em todo o Ceará, mais de 156 mil beneficiários precisaram se deslocar para outra cidade a fim de realizar perícias médicas em 2025.

O número representa um aumento expressivo em comparação aos anos anteriores, revelando uma ampliação da dependência de unidades localizadas longe da residência dos segurados.

Especialistas apontam que o cenário evidencia a dificuldade de distribuição dos médicos peritos e a falta de estrutura adequada em diversas regiões do interior.

Beneficiários temem perder a única fonte de renda

Para muitos segurados, comparecer à perícia não é uma opção, mas uma obrigação. A ausência pode resultar na suspensão ou bloqueio do benefício, comprometendo a renda familiar.

Esse temor leva inúmeras pessoas a realizarem viagens exaustivas mesmo quando enfrentam problemas graves de saúde. Alguns beneficiários precisam ser transportados em ambulâncias ou veículos adaptados devido à condição física debilitada.

Em muitos casos, o dinheiro gasto para comparecer ao atendimento poderia ser utilizado para medicamentos, alimentação ou tratamentos médicos.

Distância afeta principalmente população mais vulnerável

Advogados previdenciários destacam que os mais prejudicados são trabalhadores rurais, idosos, pessoas com deficiência e segurados de baixa renda.

Grande parte dessas pessoas depende integralmente dos recursos pagos pelo INSS para sobreviver.

Quando o atendimento é marcado em cidades distantes, surgem dificuldades relacionadas ao transporte, hospedagem e acompanhamento por familiares ou cuidadores.

Segundo relatos de profissionais que atuam na área, há situações em que segurados acabam desistindo do processo por não conseguirem arcar com os custos da viagem.

Debate sobre limite máximo de deslocamento

Embora não exista uma lei nacional determinando a distância máxima para realização das perícias, decisões recentes da Justiça Federal têm alimentado o debate.

Em julgamentos realizados pela Justiça Federal da 5ª Região, foi adotado o entendimento de que o local da perícia deveria ficar, preferencialmente, a até 70 quilômetros da residência do segurado.

A medida busca evitar deslocamentos excessivos e preservar o caráter alimentar dos benefícios previdenciários.

Contudo, esse entendimento ainda não possui força de lei e não obriga automaticamente o INSS a seguir esse limite em todos os casos.

Famílias enfrentam espera prolongada

Além da distância, muitos segurados convivem com outro problema: a demora para conseguir atendimento.

Há situações em que a perícia é marcada para vários meses após o pedido inicial. Em alguns casos, o prazo pode chegar próximo de um ano, aumentando a insegurança financeira das famílias que aguardam uma resposta do órgão.

Para quem necessita de recursos para custear medicamentos, tratamentos ou cuidados especiais, a espera prolongada representa mais um obstáculo.

Falta de peritos continua sendo desafio

O Ministério da Previdência Social afirma que trabalha para ampliar o acesso às perícias médicas no interior do Ceará por meio da contratação de novos profissionais, reorganização das agendas e fortalecimento das unidades regionais.

Mesmo assim, a escassez de médicos peritos continua sendo um dos principais desafios para reduzir os deslocamentos e acelerar os atendimentos.

Enquanto a estrutura não é ampliada, milhares de segurados continuam percorrendo centenas de quilômetros para garantir um direito que deveria estar mais próximo de suas casas.