Mineiridades: a troca dos bancos pelos tanques
Nesta segunda matéria da série ‘Mineiridade’, visitamos uma cervejaria que pulsa no alto de Tiradentes. Saboreie conosco!

“Se dez vidas eu tivesse, dez vidas daria pela liberdade da minha pátria.” A frase é atribuída a Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Se vivesse atualmente, com certeza metade dessas vidas seriam tomando uma boa cerveja artesanal mineira. Em sua própria terra. Há quem diga que o próprio gostava da vida boemia, especialmente da cachaça.
Historiadores contam que o mártir da inconfidência mineira, prestes a ser enforcado, deu-se a liberdade de escolher um último pedido: uma cachaça lhe foi trazida. Bem, a terra por onde andou carrega a bebida pelos becos e botecos da cidade. Porém, atrelado à aguardente da terra, desta vez os tanques chamam a atenção, onde o “fruto” da cevada nos leva aos cantos de uma das principais cervejarias de Tiradentes: a Duquim.
Trocando os bancos pelos tanques, André Geraldo Batista criou a Cervejaria Duquim. “Eu sempre pensei isso: quando eu estivesse um pouco mais velho, criaria um negócio pra mim”, relembra o proprietário. A oportunidade surgiu há cerca de seis anos, quando decidiu deixar a estabilidade da carreira nos bancos para investir em um empreendimento voltado ao turismo e à experiência gastronômica. Inicialmente, entrou no projeto ao lado de outros sócios, incluindo um especialista em cerveja artesanal.


“Hoje eu sou o cervejeiro”, resume. A partir dali, passou a estudar produção artesanal, desenvolver receitas próprias e buscar formação técnica na área cervejeira, transformando a antiga ideia de empreender em uma marca ligada diretamente à identidade turística e gastronômica de Tiradentes.
A cervejaria está localizada no alto da cidade, há cerca de 5 minutos do centro histórico, na Rua Alvarenga Peixoto. A localização estratégica contribui para que os clientes ‘desafoguem’ do centro movimentado para aproveitar o sossego periférico da cervejaria. O espaço é pet friend, diferentemente da maioria dos estabelecimentos em Tiradentes. Com dois andares muito bem distribuídos, quem visita a cervejaria tem a oportunidade de se deliciar com uma cerveja artesanal enquanto acompanha a produção em olho nu. “Você está in loco no lugar que a cerveja está sendo feita”, comenta André.
André conta que o projeto avaliou inicialmente três grandes polos turísticos, dentre dois mineiros: Ouro Preto (MG), Paraty (RJ) e Tiradentes (MG). “A cidade apresentou diferenciais decisivos: turismo consolidado; público qualificado; ticket médio elevado e incentivo municipal às microcervejarias”, abordou o dono em relação à escolha.
Há de se destacar que a Prefeitura Municipal de Tiradentes apoia o segmento por meio de programas como a Lei Dalma, que disponibiliza recursos financeiros para projetos culturais e coletivos do município. A legislação municipal aparece como um dos fatores mais relevantes da cidade. Além da isenção de tributos, a cidade oferece espaço fixo para microcervejarias no Largo das Forras.


Para André, o principal diferencial da Cervejaria Duquim está justamente na autenticidade construída ao longo dos últimos anos. “A gente tem identidade. A gente tem um produto que ninguém tem”, afirma. Segundo ele, foi essa característica que permitiu a permanência da cervejaria em um cenário econômico instável e altamente competitivo. “Se a gente não tivesse isso, a gente não estaria aqui”, completa.
A proposta do empreendimento vai além da venda de cerveja artesanal: envolve experiência, turismo e conexão com a cidade. As receitas são próprias, produzidas dentro da própria cervejaria, aberta ao público, onde turistas acompanham parte do processo de fabricação enquanto experimentam os produtos da casa. “Eu fui nesse lugar e vivi uma experiência”, diz André ao explicar o sentimento que espera despertar em quem visita o ‘Duquim’.


Assim como na pizzaria do ’Seu Barthô’, a cervejaria usa elementos da história local como identidade gastronômica. Dentre eles, a carne bartira e a a costela Joaquim Silvério, cardápio que carrega referências à Inconfidência Mineira. “A gente tenta fazer tudo com inspiração mineira”, conta André. Se você deseja algo mais leve, recomenda-se algo como a Pilsen Lager; se você deseja algo frutado, talvez uma Summer com gengibre ou maracujá; se for do ‘time’ de Tiradentes e gostar de algo mais encorpado, peça uma IPA.
O impacto da Cervejaria está longe de ser apenas gastronômico, mas também na vida de cada colaborador. Além dos quatro funcionários fixos, a Cervejaria Duquim também movimenta empregos temporários durante os fins de semana e períodos de maior fluxo turístico. “A gente trabalha com freelancers por causa disso também”, explica André ao comentar sobre o funcionamento da equipe em uma cidade marcada pela sazonalidade do turismo. O impacto do negócio também alcança bares, ambulantes e parceiros locais que comercializam os produtos da cervejaria. “Alguns bares trabalham com o produto nosso”, destaca.
Em relação ao futuro, André planeja estender as experiências da cervejaria. “A gente pretende montar um circuito cervejeiro”, comenta. O objetivo é fazer com que o cliente tenha autonomia até mesmo no processo da fabricação da própria cerveja. “Talvez algumas aulas, fabricar o próprio rótulo”, ele diz.
Mas enquanto o futuro não chega, o presente é aproveitar a culinária da cidade junto a uma boa cerveja e, de preferência, do Duquim!










