Ocitocina sintética pode prevenir ansiedade por estresse social em ratos, indica estudo

Pesquisa da Unesp mostra que análogo sintético da ocitocina administrada antes de situação de estresse social em ratos de laboratório previne ansiedade


Por Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP

28/01/2026 às 12h51

Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) observaram, em ratos de laboratório, que a carbetocina — análogo sintético da ocitocina — administrada antes de situações de estresse social preveniu comportamentos do tipo ansioso associados ao modelo experimental. Os resultados foram publicados na revista Progress in Neurobiology, e reforçam o papel da ocitocina e dos circuitos neurais associados a ela na modulação da ansiedade, além de abrirem caminho para novas abordagens terapêuticas no futuro.

“Observamos que, após uma série de experimentos que geram estresse social em ratos machos, a carbetocina [um análogo sintético da ocitocina] teve um efeito preventivo sobre esse tipo de ansiedade”, explica Carlos Crestani, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Araraquara (FCFAr-Unesp) e coordenador do estudo, apoiado pela FAPESP. “A dose utilizada não teve efeito ansiolítico no sentido de deixar o animal mais corajoso. O que aconteceu foi que ele se comportou de forma semelhante aos animais do grupo-controle, que não passaram pelo estresse”, completa.

A ocitocina é conhecida como o hormônio do amor e do bem-estar e tem uma relação inversa ao cortisol – envolvido em várias patologias associadas ao estresse. Enquanto o sistema de estresse ligado ao cortisol prepara o organismo para reações de luta ou fuga, o da ocitocina está associado à calma, ao vínculo social e à regulação emocional. A pesquisa realizada na Unesp reforça que esse circuito tem papel fundamental na modulação da ansiedade gerada por estresse social crônico em ratos, efeito ainda pouco descrito nessa espécie.

“Os ratos de laboratório não são tão territorialistas quanto os camundongos. Por isso, o estudo é inédito ao demonstrar os efeitos da carbetocina nesses animais, reforçando seu papel modulador da ansiedade”, afirma Lucas Canto de Souza, que investigou o tema em seu pós-doutorado, apoiado pela FAPESP, e é atualmente pesquisador do Departamento de Bioengenharia na Universidade do Texas em Dallas (Estados Unidos).

Ocitocina sintética pode prevenir ansiedade por estresse social em ratos, indica estudo
Foto: Freepik

“Derrota social”

No trabalho, os cientistas utilizaram um modelo de estresse em roedores conhecido como “derrota social”, quando um rato intruso é colocado na mesma gaiola de um macho residente que vive acompanhado de fêmea lactante e filhotes recém-nascidos. A condição é proposital para aumentar a territorialidade e a agressividade dos residentes, porém a fêmea e os filhotes são retirados da gaiola durante a interação agressiva entre o residente e o intruso.

O intruso passa por quatro sessões em dias diferentes, com novos residentes e ambientes, e é avaliado depois em teste de ansiedade denominado labirinto em cruz elevado, modelo clássico para medir comportamento do tipo ansioso.

“Embora o estresse não tenha induzido a esquiva social robusta, os ratos expostos à derrota apresentaram redução significativa na exploração dos braços abertos do labirinto. Visto que esses braços são ambientes considerados aversivos, tal comportamento é interpretado como aumento da ansiedade”, conta Souza.

Já os animais que foram tratados com a carbetocina antes das sessões de estresse mantiveram um padrão exploratório semelhante ao grupo-controle sem estresse. “A droga não os tornou mais destemidos, mas atuou de forma preventiva, atenuando o impacto sobre o comportamento do tipo ansioso”, conta Souza.

Para confirmar se esse efeito estava de fato associado aos receptores de ocitocina, os pesquisadores realizaram experimentos com dois antagonistas da ocitocina. “Um deles bloqueou completamente a ação protetora da carbetocina quando administrado antes dela, mostrando que o benefício depende diretamente da ativação do sistema ocitocinérgico”, afirma.

Os pesquisadores também analisaram o córtex pré-frontal medial, região do cérebro envolvida no controle de respostas ao estresse e à ansiedade. Eles observaram que a carbetocina aumentou o número de receptores de ocitocina em subáreas dessa região cerebral, enquanto os antagonistas reduziram esse efeito, reforçando o papel dessa região cerebral na mediação do efeito preventivo observado.

“O estudo é mais um indício da relação entre a ocitocina e esse tipo de ansiedade. No entanto, apesar dos resultados, é importante destacar que o estudo representa uma etapa inicial de compreensão biológica. Para que ela se torne de fato um fármaco para esse fim são necessários ainda muitos estudos antes de qualquer aplicação clínica responsável”, completa.

O artigo Effects of oxytocin receptor ligands on anxiogenic-like effect, social avoidance and changes on medial prefrontal cortex oxytocin receptor expression evoked by chronic social defeat stress in rats pode ser lido em: sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0301008225001443.

Tópicos: ocitocina

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