Janeiro Branco: quando desacelerar não é opção para cuidar da saúde mental

Janeiro Branco 2026 discute paz, equilíbrio e saúde mental, mas mostra que autocuidado depende de tempo, renda e redes de apoio


Por Mariana Souza*

25/01/2026 às 06h00

O calendário vira, mas nem sempre a mente acompanha. Em 2026, o Janeiro Branco traz como tema o lema “Paz, equilíbrio e saúde mental”, apontando para um caminho que parece simples: desacelerar, reorganizar a vida emocional, reconstruir vínculos mais humanos. Para muita gente, porém, isso não cabe na rotina. 

Na série especial Janeiro Branco da Tribuna, as matérias anteriores discutiram como a virada do ano pode ampliar ansiedade e cobrança por metas e por que a pressa adoece, além de estratégias para desacelerar e estabelecer metas possíveis. Nesta terceira reportagem, o foco recai sobre quem não consegue reduzir o ritmo: pessoas atravessadas por trabalho, cuidado e insegurança financeira, para as quais a ideia de “parar” não cabe na rotina – e, ainda assim, a saúde mental segue em jogo.

Saúde mental não é só o que cada pessoa sente por dentro. Ela se sustenta, ou se fragiliza, numa rede de fatores que se cruzam o tempo todo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) a define como um estado de bem-estar em que o indivíduo reconhece suas próprias capacidades, consegue lidar com as tensões da vida, trabalha de forma produtiva e contribui com a comunidade. Esse equilíbrio, no entanto, não depende apenas do campo psicológico e emocional: passa também por condições básicas, como saúde física, apoio social e condições de vida.

A rotina de quem ampara

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Renata Nascimento Castro ao lado do filho, Arthur, de 19 anos. Entre trabalho e cuidados em casa, ela relata que o tempo para cuidar de si ficou em segundo plano (Foto: Arquivo Pessoal)

“Depois que eles nascem, você não tem como parar.” Foi assim que Renata Nascimento Castro, 46, descreveu o momento em que se tornou mãe, há 19 anos. de lá pra cá, a rotina sempre foi corrida: contas para pagar, mais um integrante na família e a necessidade de fazer o dinheiro render. Com isso, deixou o cuidado de si em segundo plano, já que, na época, trabalhava em uma funerária e passou a atuar também em um buffet para complementar o orçamento.

Mas a carga não terminava na porta de casa: “Ainda tem a questão de você chegar em casa e ter paciência, porque não é só estar lá. É estar em casa e brincar, conversar, ensinar, verificar caderno.”

Segundo a Academia Brasileira de Letras (ABL), “mãe solo” é a mulher que assume sozinha todas as responsabilidades pela criação do filho, tanto financeiras quanto afetivas, em uma família monoparental. A expressão se refere a uma forma de parentalidade e não está vinculada ao estado civil. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base no Censo 2022, mostram que Juiz de Fora tinha, em 2022, 25.670 famílias chefiadas por mulheres sem cônjuge e com filhos. Esse grupo corresponde a 15,92% do total de famílias únicas e conviventes do município.

Renata lembra que, quando o filho era pequeno, a maior preocupação era garantir um amanhã minimamente seguro. O medo de ser demitida atravessava a rotina e, para ela, não era apenas a incerteza do emprego, mas a lacuna entre um trabalho e outro quando há alguém para alimentar e sustentar.

Mesmo sabendo que teria com quem contar, especialmente dentro da própria família, ela conta que o temor continuava. “Era uma questão de conseguir dar para ele tudo que ele tinha necessidade nas fases da vida dele. A alimentação, por exemplo. Ter uma boa alimentação é muito bonito de falar, mas é muito caro. Então, desde quando ele abriu o olho, eu senti que eu não podia parar. E eu tinha muito medo, sim.”

Com o passar dos anos, o medo constante acabou se traduzindo em ansiedade. “O fato de ter que dar conta me deixou uma pessoa que fica prevendo problemas que muitas vezes nem existem”, relata.

Mesmo com a rotina exaustiva, Renata diz que sente satisfação e orgulho ao acompanhar o crescimento do filho. Ao olhar para a própria trajetória, Renata deixa um recado a quem vive situações semelhantes. “Tem gente que tem uma rotina acelerada e tenta fazer tudo ao mesmo tempo. Mas, para quem passou pelo que eu passei com o Arthur, com pouco recurso e criando sozinha, o que eu tenho a dizer é: foco”, afirma.

Renata diz que, diante das limitações, foi preciso escolher onde colocar energia e dinheiro. “Se você quer dar uma vida melhor ao seu filho, você tem que priorizar. E outra coisa: vai passar”, conclui.

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enata Nascimento Castro com os irmãos, Thales e Nassali, e os pais, Irani e Rosângela. Ao dividir a rotina de cuidados com os pais, ela diz que sobra pouco espaço na agenda para o próprio autocuidado (Foto: Arquivo Pessoal)

Renata conhece o cuidado como quem atravessa ciclos. Depois de anos em que a vida foi organizada em torno do filho, ela conta que, agora, divide, junto com os irmãos, Thales e Nassali, o cuidado dos pais, Irani e Rosângela. É o tempo que se dobra sobre si mesmo: quem foi cuidado passa a cuidar. Um compromisso que não cabe em um único gesto, mas se estende pelos dias, se reparte em turnos, se encaixa em horários apertados e passa a ocupar o mesmo espaço de urgência do trabalho, das contas e de tudo o que sustenta a vida cotidiana.

Essa lógica se repete em escala: Juiz de Fora envelhece. Dados do IBGE, a partir do Censo 2022, apontam um processo acentuado de envelhecimento populacional. O índice do município é de 89,20, bem acima da média brasileira (55,24). 

Nesse cenário, o cuidado deixa de ser exceção e se torna estrutura. Dados do instituto mostram que, no Brasil, o número de familiares dedicados ao cuidado de pessoas com 60 anos ou mais passou de 3,7 milhões, em 2016, para cerca de 5,1 milhões, em 2019, mais de 10% de todos os cuidadores domiciliares naquele ano. Pesquisas indicam que mais de 80% da assistência recebida por idosos vem de cuidadores informais, quase sempre parentes próximos.

E, quando o envelhecimento vem acompanhado de deficiência, a necessidade de cuidado se intensifica. Em Juiz de Fora, o Censo Demográfico 2022 registra 20.082 pessoas com 60 anos ou mais com deficiência, o que representa 17,6% dessa faixa etária no município. A proporção cresce conforme a idade avança e chega a 75,1% entre aqueles com 100 anos ou mais.

No total, o município contabiliza 38.409 pessoas com deficiência com 2 anos ou mais, o equivalente a 7,2% da população residente nessa faixa etária. Para o Censo, entram nesse grupo pessoas que declararam ter “muita dificuldade” ou “não consegue de modo algum” em áreas como sentidos, mobilidade, coordenação motora e funções mentais.

Entre bicos e boletos

Entre o cuidado que se impõe e as contas que não esperam, há quem estique a semana até onde o corpo deixa. O trabalho vira horas acumuladas, turnos em sequência, privação de sono que, com o tempo, deixa de ser exceção e vira rotina.

Renata vive esse ritmo na pele. Já trabalhou até 76 horas por semana e, mesmo hoje, com Arthur aos 19 anos, segue conciliando dois trabalhos para que o filho estude e conclua os estudos. Com mais estabilidade do que no início da maternidade, ainda faz extras em bares e restaurantes para complementar a renda e arcar com as despesas da casa e dos pais.

Em Juiz de Fora, essa lógica atravessa uma parcela expressiva do mercado de trabalho. Dados do IBGE, com base no Censo 2022, mostram que a informalidade atinge 29,01% das pessoas ocupadas com 14 anos ou mais. Ao todo, eram 249.296 pessoas ocupadas, e 72.330 trabalhavam em situação informal: cerca de três em cada dez sem vínculo formal, como carteira assinada ou CNPJ.

É nesse cenário que o cuidado com a saúde mental, muitas vezes, passa a ser tratado como privilégio. Para a professora doutora em Saúde Coletiva Sabrina Pereira Paiva, da Faculdade de Serviço Social da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o problema começa quando o autocuidado é apresentado como receita individual, sem contexto. “Há um discurso generalizante e vazio sobre autocuidado e saúde mental que circula no senso comum. São narrativas que, em geral, individualizam e carregam os sujeitos de responsabilidades de forma unilateral e descontextualizada”, afirma.

Segundo ela, o autocuidado não pode ser entendido como uma simples decisão pessoal, porque depende de condições objetivas e estruturais. “Depende de políticas públicas, de um ambiente adequado para que os sujeitos possam dispor de tempo, além de muitos outros elementos”, completa.

Quem pode desacelerar?

Para a professora do curso de Psicologia da UFJF, Nara Andrade, a saúde mental aparece, muitas vezes, como uma conta que não fecha quando o tempo já nasce comprometido. Ela chama atenção para o modo como o cuidado, contínuo e não remunerado, permanece invisível e, ainda assim, organiza a vida, o corpo e a possibilidade de descanso, especialmente entre mulheres, mães solo, cuidadoras e trabalhadoras informais. 

A doutora em Psicologia Social e psicóloga clínica com especialização em Prática Baseada em Evidências, Adriana Woichinevski Viscardi, acrescenta que é importante diferenciar o cuidado ideal do cuidado possível. Segundo ela, o primeiro costuma aparecer como uma lista de práticas difíceis de sustentar na vida real, enquanto o segundo parte das condições concretas de cada pessoa, reconhecendo limites de tempo, dinheiro e acesso e buscando estratégias viáveis no cotidiano.

Ela afirma que, entre o “procure terapia” e o “tenha mais disciplina”, há um vazio que tem sido ocupado por promessas de soluções rápidas e fórmulas mágicas. Segundo ela, essa lógica reforça a ideia de que, se a pessoa não melhora, a culpa é individual e terceiriza para o sujeito a responsabilidade por sofrimentos que muitas vezes são produzidos por condições sociais, econômicas e relacionais. Para Adriana Viscardi, o que falta são respostas coletivas, como políticas públicas, redes de apoio, acesso à saúde e condições de vida mais humanas, além de uma mudança cultural que reduza a cobrança e amplie o acolhimento e a responsabilidade coletiva.

No entanto, em meio às cobranças, pode surgir outro sentimento: a culpa. A psicóloga Stella Mansur avalia que ela aparece quando desacelerar deixa de ser convite e passa a ser norma. Segundo ela, tratar isso como obrigação ignora circunstâncias de vida e pode ser nocivo, porque transforma autocuidado e relaxamento em mais uma tarefa para quem já está sobrecarregado, esvaziando o sentido da proposta.

Ela também alerta para a “glamourização” de estar ocupado e para a valorização da sobrecarga de trabalho e das exigências ligadas às tarefas domésticas. Segundo a profissional, quem se sente desconfortável com esse modelo pode passar a se perceber como desajustado, com a sensação de que deveria dar conta de tudo. Para ela, a disciplina nem sempre é a solução, e há dias em que é necessário reconhecer os próprios limites sem culpa.

Responsabilidade coletiva

Reconhecer quem não consegue descansar é, para Nara Andrade, um passo fundamental para deslocar o debate do autocuidado individual para a responsabilidade coletiva e do Estado na garantia da saúde mental. Ela destaca que essa desigualdade aparece de forma concreta em pesquisas coordenadas por ela no âmbito do Laboratório Interdisciplinar em Neurodesenvolvimento Humano (Linha), da UFJF, que identificam prevalências elevadas de risco para ansiedade e depressão em contextos de vulnerabilidade social, com impactos marcadamente interseccionais. Os resultados mostram como gênero e raça operam conjuntamente na produção do sofrimento psíquico, em realidades em que o tempo é permanentemente capturado pela sobrevivência, pelo cuidado e pela insegurança.

A pesquisadora explica que, quando o cuidado é contínuo, não compartilhado e exercido sob insegurança material e institucional, ele pode se tornar um fator de adoecimento mental. Não porque cuidar seja, em si, prejudicial, mas porque, nessas condições, o cuidado passa a organizar a vida sob ativação crônica dos sistemas de estresse, sem tempo suficiente para recuperação, um cenário que se aproxima do conceito de estresse tóxico.

Ela também cita evidências de que políticas públicas têm impacto direto na saúde mental. Estudos de grande escala no Brasil, como os conduzidos a partir da Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, da Fundação Oswaldo Cruz, mostram redução significativa da mortalidade entre pessoas que passaram a receber o Bolsa Família após internações por transtornos mentais, com efeitos ainda mais expressivos entre mulheres. Para Andrade, esses dados reforçam que políticas de renda e serviços públicos de cuidado não são apenas instrumentos econômicos, mas intervenções estruturais em saúde mental, capazes de reduzir insegurança, estresse crônico e sofrimento psíquico em nível populacional.

Adriana Viscardi segue na mesma direção ao afirmar que, se o Janeiro Branco quisesse falar de forma honesta com quem não pode desacelerar, a mensagem precisaria começar pelo reconhecimento de que qualidade de vida e saúde mental ainda não são igualmente acessíveis a todos. Para ela, isso não é falta de esforço individual, mas reflexo de desigualdades persistentes. A psicóloga defende que enfrentar o sofrimento psíquico exige ações coletivas e políticas, sem perder de vista o cuidado possível no plano individual, feito sem culpa e dentro dos limites reais. “A mensagem mais honesta, portanto, é que ninguém deveria enfrentar o sofrimento sozinho, e que desacelerar não pode ser uma obrigação, mas uma possibilidade construída coletivamente.”

*Estagiária sob a supervisão da editora Carolina Leonel

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