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5 anos sem Roberto Altaf

PUBLIEDITORIAL

Especialmente aos que não puderam se despedir dos seus


Por por Gabriela Altaf

21/08/2026 às 08h33

imagem homenagem

Não me foi dada a possibilidade de tentar te ajudar. Sua cabeça doía muito depois da queda que precedeu sua morte, poucos meses antes da segunda. Essa, fatal.

Mas o problema era o coração. Só entendemos depois, quando você já era um mar de saudade.

Não tive a oportunidade de me despedir. Não tive a chance de fazer certas perguntas, enunciadas quando sabemos que alguém está partindo.

Mas você sabia. E num gesto que é tão você, não nos disse nada. Para nos poupar. Para nos preservar.

Assim me revelou o porteiro do seu prédio. Você vinha passando mal, ele confessou. Seu fiel amigo cumpriu a promessa do segredo até o fim. Só me contou porque você se foi.

Tão imenso era o seu amor, pai. Tão imenso era o nosso amor, pai, que se despedir teria sido pior do que morrer.

Dizer adeus à sua Évelyn. Ao seu Rodrigo. À sua Gabriela. À sua Stella. Ao seu Flamengo.

Tive a maior das raivas e, silenciosamente, por muito tempo, oscilei. Entre a incredulidade e a tentativa de resignação.

Achei não me contar egoísta. Logo você, a generosidade encarnada.

Achei não ter o direito de saber injusto. Logo você, a retidão encarnada.

Com os anos, o lamento se transformou em elaboração: nada mais insurgente e legítimo do que morrer como se deseja. Do que escolher não ser esmagado pela agonia do último adeus. Do que escolher não ser engolido pelo nosso olhar de completo desamparo, diante da revelação da sua partida incontornável.

Você se poupou. E agora eu entendo. Você nos salvou. Da vertigem torturante que seria a despedida final. Você foi Roberto Protetor Altaf até na hora de partir.

E agora eu aceito. E te agradeço, pai.

Você sempre soube o que fazer. Até quando olhou para a morte e entendeu que ir embora era inevitável. Sozinho, sem nada nos dizer, num último ato da bravura que sempre foi sua marca.

Você me deu, inclusive, as palavras a que tanto recorro nos dias em que sua ausência me engole, ditas duas semanas antes de morrer: “Estou muito feliz com a vida que construí: a minha família, o meu trabalho, os meus amigos. Um orgulho e uma paz ao pensar em tudo o que vivi”.

Você sabia, pai. E nos protegeu. E nos deixou a herança da serenidade de quem parte em dia com as contas afetivas. Pleno do apaziguamento dado apenas aos que viveram com coragem.

Ouvi de um entrevistado, cuja irmã também partiu subitamente, que ele se conforta ao imaginá-la reencontrando seu pai. Essa imagem passou a me acompanhar: você sorrindo no colo da minha avó Lucy e do meu avô Jamil.

E agora penso: talvez morramos para isso, para voltar ao colo de quem nos lançou o olhar que tudo muda. O olhar que nos faz gente. O olhar do amor arrebatador que nos inaugura.

Agosto, a vida e eu nunca mais fomos os mesmos.

Daqui onde me encontro, no quilômetro 5 anos dessa caminhada infindável que é o trabalho de luto, viver sem sua presença continua insuportável. Mas prossigo, porque quando você, o engenheiro dos afetos, construía as suas estradas, me dizia: “Caminhar até quando for preciso, minha filha”.

Um dia, pai, eu volto ao seu colo para você me olhar.

Homenagem de Évelyn, Rodrigo, Gabriela e Stella Altaf ao marido, pai e avô mais amado do mundo.