Cooperativas ampliam cadeia de reciclagem de embalagens longa vida na Zona da Mata com apoio da Tetra Pak
Região reciclou 85 toneladas do material em 2026; em visita à operação da empresa no interior de São Paulo, Tribuna conheceu projetos desenvolvidos para enfrentar gargalos da reciclagem

Enquanto toneladas de resíduos recicláveis ainda terminam em aterros sanitários no Brasil, empresas do setor de embalagens buscam ampliar cadeias de reaproveitamento de materiais e fortalecer iniciativas ligadas à economia circular. No caso das embalagens longa vida, o desafio envolve desde estrutura de coleta seletiva à capacidade de fazer o material chegar até a cadeia recicladora.
Em visita à fábrica da Tetra Pak, em Monte Mor, no interior de São Paulo, a cerca de 30 quilômetros de Campinas, a Tribuna conheceu projetos da companhia voltados à reciclagem de embalagens cartonadas, ao apoio a cooperativas de reciclagem e a ações de restauração ambiental. Segundo a empresa, pouco mais de 100 mil toneladas do material foram recicladas no Brasil em 2024, o equivalente a cerca de 40% do volume colocado no mercado.
Com atuação no Brasil desde 1957, a multinacional desenvolve soluções de processamento e envase para indústria de alimentos e bebidas. Além de ser conhecida pelas caixinhas longa vida presentes em milhares de produtos consumidos diariamente pelos brasileiros, a Tetra Pak também realiza investimentos, há mais de 20 anos, voltados à reciclagem das próprias embalagens e à redução dos impactos ambientais da cadeia produtiva.
Ao longo dos últimos 25 anos, a Tetra Pak passou a estruturar uma rede envolvendo papeleiras, recicladores, cooperativas e associações de catadores para tornar viável o reaproveitamento das embalagens cartonadas — formada majoritariamente por papel (75%), além de plástico (20%) e alumínio (5%).
Embora durante muitos anos as caixinhas longa vida tenham sido vistas como materiais de difícil reaproveitamento, a diretora de Sustentabilidade da Tetra Pak Brasil, Valéria Michel, afirma que o desafio hoje já não está mais na tecnologia. “O mercado não separa aquilo que não tem demanda. Se ninguém compra, vira rejeito. Quando começamos a fazer esse trabalho, de apoio de campo para coleta seletiva, a embalagem começou a ser separada”, afirma Valéria.

Hoje, segundo a companhia, dez papeleiras parceiras realizam a separação das fibras de papel das camadas de plástico e alumínio presentes nas embalagens. O processo ocorre a partir da desagregação do material em água, permitindo que a fibra de papel siga para reaproveitamento tradicional, enquanto o chamado “plástico-alumínio” é encaminhado para recicladores especializados. Parte desse material é transformada em telhas, placas e outros produtos reciclados, enquanto outra parcela passa por processos industriais que permitem separar novamente plástico e alumínio para reutilização na cadeia produtiva.
Para se ter uma ideia da importância desse trabalho, uma tonelada de embalagens cartonadas recicladas gera cerca de 700 kg de papel reciclado, evitando o corte aproximado de 21 árvores.
Trabalho em rede amplia reciclagem na Zona da Mata

Apesar do avanço tecnológico, a coleta seletiva ainda é apontada como um dos maiores gargalos da cadeia. Segundo Valéria, muitas cooperativas enfrentam dificuldades para reunir volume suficiente de material para comercialização direta com recicladores, o que reduz a rentabilidade da atividade. Além disso, a dificuldade na logística para comercializar os resíduos é outro fator que dificulta o avanço do setor.
“Muitas cooperativas são pequenas e demorariam muito tempo para juntar uma carga sozinhas. Então a gente ajuda a fazer essa conexão entre elas para que consigam vender em conjunto diretamente para os recicladores”, explica.
Segundo ela, Minas Gerais e Espírito Santo estão entre os estados onde o modelo de venda em rede apresentou resultados mais significativos. Na Zona da Mata mineira, cinco cooperativas receberam apoio da empresa em 2025: AFTAP, Ascam, Coorpnova, Santos Drummond e Ascajuf, em Juiz de Fora. As ações envolveram apoio em infraestrutura, equipamentos e escoamento do material até recicladores.
Aproximadamente 230 cooperativas e associações de catadores receberam algum tipo de apoio da Tetra Pak, em 2025, em todo o país. O trabalho em rede viabilizou o envio de cerca de 1.500 toneladas de embalagens longa vida para reciclagem no período. Somente na Zona da Mata, em 2026, 85 toneladas de embalagens longa vida recolhidas foram destinadas aos recicladores.
Essa articulação em rede foi fundamental para viabilizar a reciclagem das embalagens longa vida na região, segundo o presidente da Associação de Catadores de Juiz de Fora, Werley Aparecido. “Para dar destinação correta às embalagens, tivemos que unir forças. Formamos uma rede Zona da Mata mineira de catadores para poder destinar as embalagens. A Tetra Pak nos apoia com o frete, agregando valor ao material, além de equipamentos.”
Segundo ele, como não há recicladoras especializadas na região, o material coletado pelas cooperativas precisa ser enviado para outros estados, e a Tetra Pak auxilia nesse diálogo. “Todas as associações e cooperativas juntam suas cargas e mandam as embalagens para São Paulo ou Paraná.”
Gestão de resíduos e políticas públicas
Apesar dos avanços das últimas décadas, a representante da Tetra Pak reconhece que a expansão da reciclagem no Brasil ainda depende da participação dos municípios e da consolidação de políticas públicas voltadas à coleta seletiva.
“Você pode colocar todo o dinheiro do mundo, mas, se não houver comprometimento do Poder Público, o processo não se sustenta”, disse a diretora ao comentar experiências da empresa em projetos municipais de gestão de resíduos, como o Recicla Cidade.
A iniciativa, desenvolvida em parceria com a ONG Espaço Urbano, atua junto a prefeituras, cooperativas e comunidades para fortalecer a coleta seletiva, a educação ambiental e as políticas públicas locais. Segundo a empresa, em 2025 o projeto alcançou mais de 105 mil pessoas, coletou mais de 32 toneladas de embalagens longa vida e contribuiu para a consolidação de quatro políticas públicas municipais relacionadas à gestão de resíduos e educação ambiental.
Sustentabilidade além das embalagens
Além da reciclagem, outro eixo da estratégia ambiental da Tetra Pak envolve projetos de restauração florestal. A iniciativa, desenvolvida em parceria com a Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi), em Santa Catarina, busca recuperar áreas de Mata Atlântica e ampliar corredores de biodiversidade, com foco especial em regiões de araucária — bioma que hoje possui apenas uma pequena parcela de sua cobertura original preservada.
O projeto foi criado como parte da estratégia climática global da companhia. Em vez de adquirir créditos de carbono no mercado, a empresa decidiu investir diretamente na recuperação ambiental. A ação envolve pequenos proprietários rurais, que recebem apoio financeiro e técnico para restaurar áreas degradadas, cercar espaços de preservação e manter o crescimento da vegetação. O modelo funciona a partir do pagamento por serviços ambientais.
“Nós não estamos fazendo restauração para vender crédito de carbono. A ideia é restaurar áreas e usar esses créditos internamente, caso seja necessário”, afirmou Valéria.
Durante a visita em Monte Mor, também foram apresentadas iniciativas voltadas à redução do impacto ambiental das operações industriais, incluindo reuso de água, uso de energia solar, eliminação de solventes em processos produtivos e metas para redução do consumo de água e energia nos equipamentos desenvolvidos pela companhia.

Outro foco está no desenvolvimento de embalagens com maior participação de materiais renováveis e menor dependência de alumínio. Segundo a empresa, soluções desse tipo já existem no mercado internacional, mas a adoção em larga escala no Brasil ainda depende de fatores econômicos e das demandas da própria cadeia produtiva.
Para Valéria, as metas ambientais passaram a influenciar diretamente o desenvolvimento de novos equipamentos e embalagens da companhia. “Não adianta ter uma máquina que produz mais se ela não for ambientalmente melhor.”
Esta reportagem integra uma série especial produzida pela Tribuna a partir da visita à fábrica da Tetra Pak, em Monte Mor (SP). Os próximos conteúdos irão abordar os desafios e mitos que envolvem a reciclagem das embalagens longa vida, além do papel estratégico de Minas Gerais nas operações da empresa.









