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Regeneração do bioma: fragmentos podem ter maior potencial que florestas isoladas

Pesquisa mostra que a conexão entre áreas de vegetação favorece a regeneração natural da floresta e ajuda a preservar a biodiversidade


Por Rafaela Lima

08/08/2026 às 07h00

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Maior fragmento urbano de Mata Atlântica em Juiz de Fora, a Mata do Krambeck reúne mais de 500 espécies de plantas registradas (Foto: Fernando Priamo / Arquivo TM)

Um pequeno fragmento de Mata Atlântica cercado por outras áreas de vegetação pode ter mais chances de se regenerar do que uma grande floresta isolada em meio ao desmatamento. Essa é a principal conclusão de estudo que analisou 52 fragmentos do bioma distribuídos entre as regiões Nordeste e Sul do Brasil. 

A pesquisa publicada na revista científica Journal of Ecology concluiu que dois fatores são decisivos para a recuperação natural da vegetação: a quantidade de floresta existente ao redor da área e o volume de chuvas.

Isso acontece porque esses fatores favorecem a chamada “chuva de sementes”, processo em que sementes chegam naturalmente a uma área por meio do vento, da água ou de animais, permitindo o nascimento de novas plantas e a manutenção da biodiversidade.

Extensão não é tudo

Os pesquisadores avaliaram áreas que variavam de cerca de quatro hectares até grandes remanescentes com milhares de hectares. Apesar da diferença de tamanho, o estudo mostrou que a diversidade de sementes aumenta conforme cresce a cobertura florestal ao redor do fragmento, independentemente de sua extensão.

Na prática, isso significa que uma mata menor, mas conectada a outras áreas verdes, pode ser mais eficiente para manter a biodiversidade do que um grande trecho completamente isolado.

Segundo o pesquisador Luís Felipe Daibes, pesquisador do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ) e primeiro autor do estudo, compreender como ocorre essa dispersão de sementes ajuda a definir estratégias mais eficientes de conservação e restauração da Mata Atlântica, além de contribuir para prever os impactos das mudanças climáticas e da perda de biodiversidade.

Mata Atlântica cada vez mais fragmentada 

Atualmente, restam entre 23% e 24% da cobertura original da Mata Atlântica. A maior parte desse remanescente está dividida em pequenos fragmentos separados por cidades, rodovias, áreas agrícolas e pastagens.

Mesmo pequenas, essas áreas continuam desempenhando papel importante na conservação da biodiversidade quando existe vegetação ao redor capaz de manter a troca de sementes entre diferentes trechos de floresta.

Já locais muito isolados tendem a concentrar poucas espécies, geralmente plantas pioneiras, que crescem rapidamente e conseguem ocupar áreas degradadas. Embora sejam importantes no início da regeneração, não são suficientes para reconstruir uma floresta rica em espécies.

A fauna e a recuperação das florestas 

A pesquisa também reforça a importância da fauna para a recuperação das florestas. Em áreas com maior volume de chuvas, os pesquisadores encontraram maior quantidade de sementes dispersadas por animais, principalmente aves e mamíferos que se alimentam de frutos e carregam as sementes para outros locais.

Esse processo ajuda a conectar diferentes fragmentos florestais e aumenta a diversidade de espécies. Por outro lado, o desmatamento reduz a presença desses animais, especialmente os de maior porte, prejudicando a regeneração natural da vegetação.

Mais de um milhão de sementes analisadas

Para chegar às conclusões, os pesquisadores reuniram dados coletados entre 1987 e 2021 por mais de 60 cientistas de diferentes instituições. Ao todo, foram analisados 1,3 milhão de sementes, recolhidas em 1.905 coletores instalados em 52 fragmentos de Mata Atlântica. Os equipamentos funcionam como pequenas redes suspensas sob as árvores, onde folhas, frutos e sementes ficam acumulados para posterior identificação pelos pesquisadores.

Segundo os autores, este é o primeiro estudo a avaliar a chuva de sementes em toda a extensão da Mata Atlântica, do Nordeste ao Sul do país, oferecendo um panorama amplo sobre como ocorre a regeneração natural do bioma.

*Estagiária sob a orientação da editora Fabíola Costa